Direção certa

“[…] a caminhada na direção certa leva não só à paz, mas também ao conhecimento. Quando um homem melhora, torna-se cada vez mais capaz de perceber o mal que ainda existe dentro si. Quando um homem piora, torna-se cada vez menos capaz de captar a própria maldade. Um homem moderadamente mau sabe que não é muito bom; um homem completamente mau acha que está coberto de razão. Nós sabemos disso intuitivamente. Entendemos o sono quando estamos acordados, não quando adormecidos. Percebemos os erros de aritmética quando nossa mente está funcionando direito, não no momento em que os cometemos. Compreendemos a natureza da embriaguez quando estamos sóbrios, não quando bêbados. As pessoas boas conhecem tanto o bem quanto o mal; as pessoas más não conhecem nenhum dos dois.”

C. S. Lewis em Cristianismo puro e simples

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A parte central

“Seria melhor dizer que, toda vez que tomamos uma decisão, tornamos um pouco diferente a parte central do nosso ser, a responsável pela decisão tomada. Considerando então nossa vida como um todo, com as inúmeras escolhas feitas ao longo do caminho, aos poucos vamos tornando esse elemento central numa criatura celeste ou numa criatura infernal: uma criatura em harmonia com Deus, com as outras criaturas e consigo mesma, ou uma criatura cheia de ódio e em pé de guerra com Deus, com as outras criaturas e consigo mesma. Ser uma criatura do primeiro tipo é o paraíso, é alegria, paz, conhecimento e poder. Ser do segundo tipo é a loucura, o horror, a idiotia, a raiva, a impotência e a solidão eterna. Cada um de nós, a cada momento, progride em direção a um estado ou ao outro.”

C. S. Lewis em Cristianismo puro e simples

Faça a sua escolha

“[…] a rematada tolice dita por muitos a seu respeito: “Estou disposto a aceitar Jesus como um grande mestre da moral, mas não aceito a sua afirmação de ser Deus.” Essa é a única coisa que não devemos dizer. Um homem que fosse somente um homem e dissesse as coisas que Jesus disse não seria um grande mestre da moral. Seria um lunático – no mesmo grau de alguém que pretendesse ser um ovo cozido – ou então o diabo em pessoa. Faça a sua escolha. Ou esse homem era, e é, o filho de Deus, ou não passa de um louco ou coisa pior. Você pode querer calá-lo por ser um louco, pode cuspir nele e matá-lo como a um demônio; ou pode prosternar-se a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas que ninguém venha, com paternal condescendência, dizer que ele não passava de um grande mestre humano. Ele não nos deixou essa opção, e não quis deixá-la.”

C. S. Lewis em Cristianismo puro e simples

Sem pertença

“Uma criança sem pertença é uma criança que tem de ser pega; uma criança sem pai busca pontos de referência. Mais tarde, vai virar um homem-massa, um pedaço de multidão, indivíduo anônimo, ávido de ser governado por um pai carismático, um líder de seita ou uma imagem identificatória, simplória e brutal, que, ao possuí-lo, vai arrebatá-lo… ao preço de sua pessoa.”

Boris Cyrulnik em Os alimentos afetivos

Sinais

“Eis aqui os sinais principais do orgulho: palavra altaneira, amargura no silêncio, dissolução na alegria, furor na tristeza; honestidade na imagem, na aparência do bem, mas desonestidade nas ações, e por último, rancor, ódio nas repreensões.”

Bernardo de Claraval em Tratado da consciência ou Do conhecimento de si mesmo

Admiração de mim mesmo

“Até me acontece que sou pior no pouco bem que faço, porque a alma que deste escasso bem se orgulha e infla, tira deles falsos motivos de segurança e abandona-se à preguiça. Muitas vezes louvei minha própria pessoa e obras; sempre desejei meu louvor nos outros, e quando, sem pretendê-lo, me vi louvado por outros, me agradei pelo elogio. À medida que o orgulho ia crescendo em mim, apresentava-se em minha memória uma multidão de obras por mim realizadas, para que delas me orgulhasse também. E eu, considerando todas essas coisas, amontoando-as em meu pensamento, inflava mais e mais meu orgulho, e, na admiração de mim mesmo, e glorificando-me por meus talentos em vez de dar glória a Deus, de quem tudo recebi, perdi o fruto de todo bem que fiz, reconhecendo então, que todos os que me louvavam não buscavam outra coisa que minha perdição. Porque, quanto mais o homem se glorifica a si mesmo, mas se afasta dele o amor de Deus.”

Bernardo de Claraval em Tratado da consciência ou Do conhecimento de si mesmo

Livrai-me, Senhor, de mim mesmo

“Livrai-me, Senhor, do homem mau, isto é, de mim mesmo, de quem eu não posso separar-me. Porque, de qualquer lado que me vire, aonde queira que vá, seguem-me meus vícios, e também minha consciência, que está sempre presente para escrever tudo quanto faça. Bem que posso fugir, evitar dos juízos dos homens. Não assim com o veredito de minha própria consciência, e se posso ocultar dos homens o que fiz, não posso ocultar-me de mim mesmo o que sei.
[…]
a inveja turbou, corrompeu, dilacerou muitas vezes meu coração. Pela inveja, até os méritos daqueles que vivem santamente foram muitas vezes ocasião de pecado para mim; porque não acreditava no bem, nas coisas boas que deles escutava dizer e as interpretava no mal sentido; e todo o mal que a malícia, a calúnia e a maledicência lhes atribuía, eu acreditava imediatamente, como se tivesse visto com meus olhos.

Desejei para meus inimigos toda sorte de males e deles os acusei, e me afligi de seus adiantamentos e melhora, o que me fazia ainda pior. Ocultei dentro de mim o ódio para com as pessoas boas e alimentei esse ódio para tormento meu. Tive inveja dos que considerava melhores e dos que progrediam no bem; favoreci os maus, regozijando-me de suas maldades e afligindo-me de sua correção. Em meu interior conservei inimizades sem motivo, sem saber por que e temi que os outros apercebessem dessa malícia de meu coração. Com eles me mostrei sempre displicente, jamais amável, e desta maneira transformei-me em amigo do diabo, em inimigo de Deus e de mim mesmo.

Semeei a cizânia entre amigos, confirmei em suas diferenças os discordantes. Desfigurei com mentiras a opinião que pessoas boas tinham de outros; louvei as coisas carnais e temporais em pessoas espirituais, expressamente para que os outros vissem que estas pessoas não estavam tão adiantadas nos bens espirituais como acreditavam. Fingi ser amigo de outro para enganar com tal artifício aqueles que tinham depositado sua confiança em mim. Muitas vezes suscitei motivos de ódio por meio de malévolas suspeitas, regozijando com isto o demônio, em agente do qual me converti. Vendi aparente amizade a não poucas pessoas, das quais era em meu coração inimigo: para elas tinha sempre na boca belas palavras, ainda que na realidade me arrastasse pela lama da malevolência. Fui revelador de segredos alheios e tenaz em minhas más suspeitas, sendo perverso num e noutro destes defeitos: e desse modo, o inimigo perseguiu minha alma e humilhou e arruinou a minha vida.”

Bernardo de Claraval em Tratado da consciência ou Do conhecimento de si mesmo