A dor, o sofrimento, o luto

“A dor já passou, foi transformada em algo diferente: conheceu-a, gemeu, a seguir ocultou-a dos olhos do mundo, de algum modo, dissecou-a para poder conservá-la como uma múmia suntuosa na sala dos mortos da sua memória. Não vale a pena enganares-te, porque o sofrimento causado pelo amor também desaparece. Fica o luto, um certo tipo de ritual oficial da memória. A dor é uma coisa diferente: um grito selvagem, apesar de ser silencioso. Os animais gritam dessa maneira, quando não compreendem qualquer coisa no mundo – a claridade das estrelas ou os cheiros estranhos – começam a tremer e a gemer. O luto é diferente, é uma questão de razão e de vivência. Mas a dor, um dia, transforma-se; tudo aquilo que se apresentava como orgulho ou ofensa por causa da ausência do outro, vai ser consumido pelas chamas obstinadas e purificadoras do sofrimento para dar lugar à recordação que se pode manejar, amansar e colocar em algum lugar.”

Sándor Márai em A gaivota

Maldita doença

“Por vezes tinha esperança de que a minha filha reconsiderasse, de que se curasse dessa maldita doença, e vocês os dois chegassem a entender-se. Sabia tudo – continuava presunçoso e completamente mal informado. – Esse homem foi como uma doença infecciosa para Ili. Uma doença que mata o doente, mas este não quer livrar-se dela. Há pacientes e doentes assim – disse com a satisfação de um perito que conhecia o assunto. – Nesses casos só um milagre pode ajudar. Eu acreditava nesse milagre – acrescentou contristado. Não, por favor, deixe-me falar. Sabia tudo sobre si e sobre esse homem, tudo, durante aqueles quatro anos em que Ili andou na faculdade, mas não podia imaginar até que ponto aquela infecção era tão perigosa. Como podia saber que esse patife iria matá-la? Quando ler as cartas, perceberá tudo. – Respirava com dificuldade, estava perto de sofrer um ataque. – O que sei ainda? – perguntou calmamente. – É que também se pode matar com delicadeza, sem veneno, sem armas, sem palavras. É possível fazê-lo com um determinado comportamento – respondeu com um tom ingênuo e assustado, como se ele próprio se surpreendesse com a importância da sua descoberta. – Um homem é capaz de acabar com uma outra pessoa por não a deixar partir, mas, ao mesmo tempo, não a abandonar também. Acercando-se dela por completo, atando-a a si mesmo e não a devolvendo ao mundo. Ao manter uma distância, não cria uma aliança com ela. Uma pessoa escolhida e separada deste modo do mundo, acaba por morrer. Uma vez que fica sozinha, mas não completamente, porque vive com uma espécie de vínculo, mas quem a tem prisioneira não se preocupa com ela… percebe isso? Mas eu não posso ir à esquadra. A polícia nada pode fazer com estas cartas. São cartas corteses, não há nelas nenhuma ameaça concreta… simplesmente em cada linha, em cada palavra, sente-se uma força perversa, uma força com que esse homem a enfeitiçou, a prendeu, e não a largou, não deixando, no entanto, que se aproximasse muito. Segurava-a com uma corda curta e nunca a soltou completamente… Ela debatia-se assim, enfeitiçada.”

Sándor Márai em A gaivota

A única força

“A única força que garante a preocupação é o amor. O dever não basta. O dever detém-se sempre à superfície. Só quem ama compreende e conhece. Entra nos pensamentos e nos sentimentos da pessoa amada, partilha o seu sofrimento, as suas ansiedades, antecipa as suas necessidades, resolve os seus problemas. É assim que procede o verdadeiro amigo, o enamorado. É assim que procedem o marido e a mulher porque, não obstante as crises, o casamento continua a ser o lugar mais importante da intimidade e da atenção.”

Francesco Alberoni em Viagem pela alma humana

Aceitação da realidade

“O único acordo possível é a aceitação da realidade, o respeito a ela. É possível ter opiniões diversas com relação a uma coisa, mas, quando está diante de nós, ela mesma impõe sua estrutura, obriga a concordar parcialmente, estabelece uma espinha dorsal com a qual é preciso contar, à qual se podem acrescentar matizes que não são necessariamente inconciliáveis. O mau é que cada um “invente” uma realidade inexistente e se apegue a ela sem admitir outra possibilidade. É a própria fórmula do fanatismo, que por sua vez é uma das variedades de aviltamento do homem.”

Julián Marías em Tratado sobre a Convivência

A perfeita vitória

“Se te venceres perfeitamente a ti mesmo, tudo o mais sujeitarás com facilidade. Pois a perfeita vitória é triunfar de si mesmo. Porque aquele que se domina a tal ponto, que os sentidos obedeçam à razão e a razão lhe obedeça em todas as coisas, este é realmente vencedor de si mesmo e senhor do mundo.”

Tomás de Kempis em Imitação de Cristo

O descomedimento das ambições

“Os casais de hoje não morrem por egoísmo ou materialismo, morrem por um heroísmo fatal, uma ideia ampla demais de si mesmos. Estropiam-se nessa visão grandiosa como prisioneiros nas pontas do arame farpado.
Cada mulher se sente obrigada a ser, ao mesmo tempo mãe, puta, amiga e “ter atitude”; cada homem, pai, amante, marido e vencedor: pobre de quem não preencher essas condições!
Aos motivos tradicionalmente apresentados para explicar o fracasso conjugal, como o desgaste causado pelo tempo e o cansaço dos corpos, deve-se acrescentar outro tóxico bem contemporâneo: o descomedimento das ambições.
O casal naufraga como um barco com sobrecarga: quer manter seu status, continuar nos picos do ardor ao mesmo tempo que resolve as coisas do cotidiano.”

Pascal Bruckner em Fracassou o casamento por amor?

Rasga a vida em duas partes

“Quando Jesus irrompe na vida de alguém, necessariamente interrompe a normalidade de um percurso e rasga essa vida em duas partes desiguais: uma que fica para trás,/ outra que se abre agora diante de nós, reta como uma seta direta a uma meta, a um alvo, a um objetivo intenso e claro.”

Pe. Carreira das Neves em São Paulo – Dois mil anos depois