Aceitação da realidade

“O único acordo possível é a aceitação da realidade, o respeito a ela. É possível ter opiniões diversas com relação a uma coisa, mas, quando está diante de nós, ela mesma impõe sua estrutura, obriga a concordar parcialmente, estabelece uma espinha dorsal com a qual é preciso contar, à qual se podem acrescentar matizes que não são necessariamente inconciliáveis. O mau é que cada um “invente” uma realidade inexistente e se apegue a ela sem admitir outra possibilidade. É a própria fórmula do fanatismo, que por sua vez é uma das variedades de aviltamento do homem.”

Julián Marías em Tratado sobre a Convivência

A perfeita vitória

“Se te venceres perfeitamente a ti mesmo, tudo o mais sujeitarás com facilidade. Pois a perfeita vitória é triunfar de si mesmo. Porque aquele que se domina a tal ponto, que os sentidos obedeçam à razão e a razão lhe obedeça em todas as coisas, este é realmente vencedor de si mesmo e senhor do mundo.”

Tomás de Kempis em Imitação de Cristo

O descomedimento das ambições

“Os casais de hoje não morrem por egoísmo ou materialismo, morrem por um heroísmo fatal, uma ideia ampla demais de si mesmos. Estropiam-se nessa visão grandiosa como prisioneiros nas pontas do arame farpado.
Cada mulher se sente obrigada a ser, ao mesmo tempo mãe, puta, amiga e “ter atitude”; cada homem, pai, amante, marido e vencedor: pobre de quem não preencher essas condições!
Aos motivos tradicionalmente apresentados para explicar o fracasso conjugal, como o desgaste causado pelo tempo e o cansaço dos corpos, deve-se acrescentar outro tóxico bem contemporâneo: o descomedimento das ambições.
O casal naufraga como um barco com sobrecarga: quer manter seu status, continuar nos picos do ardor ao mesmo tempo que resolve as coisas do cotidiano.”

Pascal Bruckner em Fracassou o casamento por amor?

Rasga a vida em duas partes

“Quando Jesus irrompe na vida de alguém, necessariamente interrompe a normalidade de um percurso e rasga essa vida em duas partes desiguais: uma que fica para trás,/ outra que se abre agora diante de nós, reta como uma seta direta a uma meta, a um alvo, a um objetivo intenso e claro.”

Pe. Carreira das Neves em São Paulo – Dois mil anos depois

Rio de ilusões

“No domínio da vida intelectual, o fato essencial do nosso tempo é um tipo de recusa, inconsciente, mas geral, de tomarmos consciência da situação real que o mundo lhe impõe. Há uma recusa a ver o que constitui realmente o nosso mundo. É o fato notadamente dos intelectuais, mas também de todos os homens do nosso tempo e de toda a nossa civilização. Temos a impressão de uma enorme máquina montada para impedir o homem de tomar consciência, para acuá-lo numa recusa inconsciente ou numa fuga em direção ao irreal. A característica dramática desta época, neste domínio, é a de que o homem apreende pelas aparências. A realidade desaparece, realidade do homem para ele mesmo e realidade dos fatos que o cercam. O homem do século, e pode-se dizer que é a primeira vez na história que este fato se produz, oscila incessantemente entre o fenômeno e o mito explicativo, ou seja, entre duas aparências extremas e opostas. O fenômeno é, se quisermos, a apresentação externa do fato. Nosso contemporâneo não vê mais que as representações que lhe dão a imprensa, o rádio, a televisão, a propaganda, a publicidade. Ele não crê mais em suas experiências, no seu julgamento, no seu pensamento: ele tem como referências o papel impresso e as ondas sonoras ou as imagens emitidas pela televisão. A seus olhos um fato torna-se verdadeiro na medida em que teve um comentário no jornal, e este é tão mais importante quanto maiores forem as letras. O que ele viu não conta se é traduzido oficialmente, se não há uma multidão que corrobore sua crença. Essa constatação, que parece simplista, está, de fato, na base de toda obra de propaganda; um fato é falso, ele é impresso num jornal com um milhão de exemplares, mil pessoas sabem que o fato é falso, mas 999.000 creem que ele seja verdadeiro. É isso o que entendo por fenômenos ou aparências, os quais o homem moderno apreende e conhece exclusivamente. Por que exclusivamente? Porque a cada dia ele passa por um número muito limitado de experiências verdadeiras, e como elas geralmente estão incorporadas em seus hábitos, ele nem mesmo as percebe. Em contrapartida, a cada dia ele apreende mil notícias pelo seu jornal, sua TV, seu rádio, e coisas muito importantes, muito sensacionais! Como querem que suas miseráveis experiências pessoais, relativas à excelência de uma ameixa ou de uma lâmina de barbear, não sejam afogadas nesse rio de ilusões tão importantes relativas ao armamento nuclear, ao destino da Europa ou das relações Norte-Sul, às greves, etc? Ora, são fatos dos quais não conhecerá nunca a realidade.
Assim, são essas aparências que se tornam a sua vida e o seu pensamento. Isso traz uma consequência muito importante do ponto de vista intelectual; é que o homem moderno, arrebatado nessa onda de imagens inverificáveis, não pode, absolutamente, ter domínio sobre elas, porque não são coordenadas, e as notícias vão se sucedendo umas às outras, sem parar. Uma questão aparece, desaparece das colunas dos jornais ou da tela assim como do cérebro do leitor, é substituída por outras e esquecida. O homem se habitua a viver assim sem presente e sem passado, se habitua a viver em uma total incoerência, porque toda a sua atividade intelectual é atrelada a essas visões fugidias, elas mesmas sem passado e sem futuro, e para o presente, sem consistência.”

Jacques Ellul em Cristianismo revolucionário

Ninguém mais sabe aonde vai

“Nós nos congratulamos cada vez que um novo remédio é encontrado, muitas investigações são feitas para conseguirmos curar melhor, mas de que serve a vida que tomamos tanto cuidado para preservar? De que serve o tempo? O que vale a vida? Para que tudo isso se, precisamente pelo jogo dos meios engendrados por esta civilização, o tempo e a vida não têm mais sentido, se o ser humano não sabe de fato o que fazer com o seu tempo e a vida é mais absurda do que nunca, porque os fundamentos espirituais do tempo e da vida foram destruídos no seu coração? O homem moderno, desumanizado pelos meios, transformado em meio é, com o tempo que lhe é dado e a vida que ele preserva, como um selvagem a quem é entregue uma máquina muito sofisticada e cujas mãos são inábeis para fazer uso dela.
Porém, ainda mais, eis que ele se desfaz do seu tempo e de sua vida, conquistados à custa de tanta dificuldade. Porque nunca uma civilização desperdiçou tanto o tempo dos homens e sua vida.
Investimos uma enorme quantidade de força para que uma pessoa ganhe alguns segundos, e somos levados a perder dias com o tempo desperdiçado dos desempregados e “daqueles que fazem fila” diante de uma administração: tanto um como outro produto da grandiosidade dos nossos meios.
Toda ciência possível será acionada para salvar uma vida, mas serão massacrados milhões com bombas e nos campos de concentração, ambos produtos de grandiosidade dos nossos meios. E podemos fazer o mesmo paralelo para tudo aquilo que nos cerca. A segurança? Elabora-se sabiamente uma prodigiosa máquina administrativa para garantir a segurança social aos homens, mas por quê? Com qual objetivo? Porque, enfim, nunca o tempo foi tão incerto como o nosso. E o que é essa miserável segurança que se propõe ao homem, alguns milhões de francos, ao preço da insegurança das crises financeiras, sociais, econômicas, das guerras e das revoluções, que, pela graça dos nossos meios técnicos, põem em jogo atualmente todos os homens, e todas as mulheres, e todas as crianças? Nessa terrível roda dos meios desencadeados, ninguém mais sabe aonde vai, os objetivos são esquecidos, os fins são ultrapassados. O homem partiu a velocidades astronômicas para lugar nenhum.”

Jacques Ellul em Cristianismo revolucionário

Quando

“Você terá uma vida boa e segura quando estar vivo significar mais para você do que a segurança, o amor mais do que o dinheiro, sua liberdade mais do que a opinião pública ou do partido; quando o sentimento presente na música de Beethoven ou de Bach passar a ser o sentimento da sua vida inteira – você tem isso, está em você, zé-ninguém, em algum canto bem no fundo do seu ser; quando seu pensamento estiver em harmonia, não mais em conflito, com seus sentimentos; quando você tiver aprendido a reconhecer duas coisas na devida hora: seus dons e a chegada da velhice; quando se deixar guiar pelos pensamentos dos grandes sábios e não mais pelos crimes dos grandes guerreiros; quando você deixar de dar mais importância a uma certidão de casamento do que ao amor entre homem e mulher; quando aprender a reconhecer seus erros prontamente e não tarde demais; quando as verdades o inspirarem e as fórmulas vazias lhe causarem repulsa […]”

Wilhelm Reich em Escute, Zé-ninguém!