Faça a sua escolha

“[…] a rematada tolice dita por muitos a seu respeito: “Estou disposto a aceitar Jesus como um grande mestre da moral, mas não aceito a sua afirmação de ser Deus.” Essa é a única coisa que não devemos dizer. Um homem que fosse somente um homem e dissesse as coisas que Jesus disse não seria um grande mestre da moral. Seria um lunático – no mesmo grau de alguém que pretendesse ser um ovo cozido – ou então o diabo em pessoa. Faça a sua escolha. Ou esse homem era, e é, o filho de Deus, ou não passa de um louco ou coisa pior. Você pode querer calá-lo por ser um louco, pode cuspir nele e matá-lo como a um demônio; ou pode prosternar-se a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas que ninguém venha, com paternal condescendência, dizer que ele não passava de um grande mestre humano. Ele não nos deixou essa opção, e não quis deixá-la.”

C. S. Lewis em Cristianismo puro e simples

Sem pertença

“Uma criança sem pertença é uma criança que tem de ser pega; uma criança sem pai busca pontos de referência. Mais tarde, vai virar um homem-massa, um pedaço de multidão, indivíduo anônimo, ávido de ser governado por um pai carismático, um líder de seita ou uma imagem identificatória, simplória e brutal, que, ao possuí-lo, vai arrebatá-lo… ao preço de sua pessoa.”

Boris Cyrulnik em Os alimentos afetivos

Sinais

“Eis aqui os sinais principais do orgulho: palavra altaneira, amargura no silêncio, dissolução na alegria, furor na tristeza; honestidade na imagem, na aparência do bem, mas desonestidade nas ações, e por último, rancor, ódio nas repreensões.”

Bernardo de Claraval em Tratado da consciência ou Do conhecimento de si mesmo

Admiração de mim mesmo

“Até me acontece que sou pior no pouco bem que faço, porque a alma que deste escasso bem se orgulha e infla, tira deles falsos motivos de segurança e abandona-se à preguiça. Muitas vezes louvei minha própria pessoa e obras; sempre desejei meu louvor nos outros, e quando, sem pretendê-lo, me vi louvado por outros, me agradei pelo elogio. À medida que o orgulho ia crescendo em mim, apresentava-se em minha memória uma multidão de obras por mim realizadas, para que delas me orgulhasse também. E eu, considerando todas essas coisas, amontoando-as em meu pensamento, inflava mais e mais meu orgulho, e, na admiração de mim mesmo, e glorificando-me por meus talentos em vez de dar glória a Deus, de quem tudo recebi, perdi o fruto de todo bem que fiz, reconhecendo então, que todos os que me louvavam não buscavam outra coisa que minha perdição. Porque, quanto mais o homem se glorifica a si mesmo, mas se afasta dele o amor de Deus.”

Bernardo de Claraval em Tratado da consciência ou Do conhecimento de si mesmo

Livrai-me, Senhor, de mim mesmo

“Livrai-me, Senhor, do homem mau, isto é, de mim mesmo, de quem eu não posso separar-me. Porque, de qualquer lado que me vire, aonde queira que vá, seguem-me meus vícios, e também minha consciência, que está sempre presente para escrever tudo quanto faça. Bem que posso fugir, evitar dos juízos dos homens. Não assim com o veredito de minha própria consciência, e se posso ocultar dos homens o que fiz, não posso ocultar-me de mim mesmo o que sei.
[…]
a inveja turbou, corrompeu, dilacerou muitas vezes meu coração. Pela inveja, até os méritos daqueles que vivem santamente foram muitas vezes ocasião de pecado para mim; porque não acreditava no bem, nas coisas boas que deles escutava dizer e as interpretava no mal sentido; e todo o mal que a malícia, a calúnia e a maledicência lhes atribuía, eu acreditava imediatamente, como se tivesse visto com meus olhos.

Desejei para meus inimigos toda sorte de males e deles os acusei, e me afligi de seus adiantamentos e melhora, o que me fazia ainda pior. Ocultei dentro de mim o ódio para com as pessoas boas e alimentei esse ódio para tormento meu. Tive inveja dos que considerava melhores e dos que progrediam no bem; favoreci os maus, regozijando-me de suas maldades e afligindo-me de sua correção. Em meu interior conservei inimizades sem motivo, sem saber por que e temi que os outros apercebessem dessa malícia de meu coração. Com eles me mostrei sempre displicente, jamais amável, e desta maneira transformei-me em amigo do diabo, em inimigo de Deus e de mim mesmo.

Semeei a cizânia entre amigos, confirmei em suas diferenças os discordantes. Desfigurei com mentiras a opinião que pessoas boas tinham de outros; louvei as coisas carnais e temporais em pessoas espirituais, expressamente para que os outros vissem que estas pessoas não estavam tão adiantadas nos bens espirituais como acreditavam. Fingi ser amigo de outro para enganar com tal artifício aqueles que tinham depositado sua confiança em mim. Muitas vezes suscitei motivos de ódio por meio de malévolas suspeitas, regozijando com isto o demônio, em agente do qual me converti. Vendi aparente amizade a não poucas pessoas, das quais era em meu coração inimigo: para elas tinha sempre na boca belas palavras, ainda que na realidade me arrastasse pela lama da malevolência. Fui revelador de segredos alheios e tenaz em minhas más suspeitas, sendo perverso num e noutro destes defeitos: e desse modo, o inimigo perseguiu minha alma e humilhou e arruinou a minha vida.”

Bernardo de Claraval em Tratado da consciência ou Do conhecimento de si mesmo

A nossa vez

“Em cada dor, em cada mudança no nosso corpo, em cada diminuição de nossa capacidade, vemos indicações da nossa mortalidade. E, vendo o declínio sutil, ou não tão sutil, dos nossos pais, entendemos que estamos prestes a perder o escudo que nos separa da morte e que, depois que eles se forem, será a nossa vez.”

Judith Viorst em Perdas necessárias

A dor, o sofrimento, o luto

“A dor já passou, foi transformada em algo diferente: conheceu-a, gemeu, a seguir ocultou-a dos olhos do mundo, de algum modo, dissecou-a para poder conservá-la como uma múmia suntuosa na sala dos mortos da sua memória. Não vale a pena enganares-te, porque o sofrimento causado pelo amor também desaparece. Fica o luto, um certo tipo de ritual oficial da memória. A dor é uma coisa diferente: um grito selvagem, apesar de ser silencioso. Os animais gritam dessa maneira, quando não compreendem qualquer coisa no mundo – a claridade das estrelas ou os cheiros estranhos – começam a tremer e a gemer. O luto é diferente, é uma questão de razão e de vivência. Mas a dor, um dia, transforma-se; tudo aquilo que se apresentava como orgulho ou ofensa por causa da ausência do outro, vai ser consumido pelas chamas obstinadas e purificadoras do sofrimento para dar lugar à recordação que se pode manejar, amansar e colocar em algum lugar.”

Sándor Márai em A gaivota