Uma face linda e outra hedionda

“O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo. O ser humano, tal como imaginamos, não existe. É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez. Somos aquela pureza e somos aquela miséria. Ora aparecemos varados de luz, como um santo de vitral, ora surgimos como faunos de tapete. Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva. O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas. O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: ‘Senhoras e senhores, eu sou um canalha’. Não há nada que fazer pelo ser humano: o homem já fracassou.”

Nelson Rodrigues,
em entrevista nos anos 80

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Amor só existe

“Amor só existe quando é visível, concreto e palpável. Amor tem sabor, cheiro, textura. Amor é um bilhete, uma ligação, uma lembrança, é tempo e espaço, é um doce, um sorriso, uma festa. Uma escolha difícil para um bem maior. Amor é proteção, atenção, cuidado, educação. Amor precisa de humildade, disponibilidade, dedicação. Fora estas condições, sejamos honestos: não há amor. Pode haver uma intenção de amor, um desejo por aquele amor, um sonho guardado no fundo da alma. Mas, fica para outra vida. Nesta e agora, não há amor. Há sim, outros interesses, conflitos e vantagens que têm a preferência, que são mais fortes e importantes na vida da pessoa do que amar. E cortemos por aqui as conversas patéticas sobre “eu te amo…” quando nada comprova esta afirmação.

Amar é empenho, esforço, investimento. Amor custa caro e requer o mesmo trabalho tanto que se ame um filho como outra pessoa, ou até mesmo um cachorro. Amor exige nossa saída da zona de conforto, sair do ego e suas vantagens. Pode haver simpatia, sonho vago e dourado, mas sem o comportamento apropriado, nada de amor.”

Adriana Tanese

Oração ao Deus desconhecido

Antes de prosseguir no meu caminho
E lançar o meu olhar para frente
Uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti,
Na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas do meu coração,
Tenho dedicado altares festivos,
Para que em cada momento
Tua voz me possa chamar.

Sobre esses altares está gravada em fogo
Esta palavra: “ao Deus desconhecido”
Eu sou teu, embora até o presente
Me tenha associado aos sacrílegos.
Eu sou teu, não obstante os laços
Me puxarem para o abismo.
Mesmo querendo fugir
Sinto-me forçado a servir-Te.

Eu quero Te conhecer, ó Desconhecido!
Tu que que me penetras a alma
E qual turbilhão invades minha vida.
Tu, o Incompreensível, meu Semelhante.
Quero Te conhecer e a Ti servir.

Friedrich Nietzsche

O povo

“Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.

Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega:

“Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei: “O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica.

Nada mais distante dos textos bíblicos.

Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas.

Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se integrasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado!

Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!

Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão.

Até que ela o abandonou.

Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre.”.

Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.

O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.

As mentiras são doces; a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo.

No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões.

E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!

As coisas mudaram.

Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.

As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro “O Homem Moral e a Sociedade Imoral” observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem.

Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis.

Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.

É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.

Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado.

O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão.

Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.

Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.

O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam.

Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade.

Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.

Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.

Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.

Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.

O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.

O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer?
Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol.

Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.

Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção.”. Isso é tarefa para os artistas e educadores.

O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.

Rubem Alves

Justiça e liberdade

“Você deve ter percebido que desde o início venho afirmando que Deus não é o Deus do igualitarismo fardado e absolutista. O igualitarismo não deu certo em nenhum lugar do mundo. Em Cuba, no tempo do “Che”, o projeto gerou ociosidade, improdutividade e injustiça: pois alguns trabalhavam muito e outros recebiam a mesma medida. O próprio Fidel Castro está reconhecendo isso agora.
Na União Soviética o mesmo se deu. O líder Mikhail Gorbachev disse no seu discurso de 6 horas seguidas no início de 86, que o igualitarismo está obsoleto, e que ele só gerou burocracia, funcionalismo, parasitismo, corrupção (porque os ambiciosos arranjaram maneiras de ganhar mais do que o nível instituído, através dos mercados negros de “quase tudo” na União Soviética) e esclerosamento funcional.
Não era preciso esperar tanto para saber que isso era inevitável e não daria certo. Bastava que se tivesse crido na política econômica do Reino de Deus: igualdade proporcional, praticada com a consciência de que a fronteira da liberdade de ter vai até onde o ter não implica no empobrecer do meu próximo.
Liberdade e justiça têm que andar juntas! Liberdade sem justiça se converte imediatamente em libertinagem do ego e orgia econômica da sociedade. E justiça sem liberdade é injustiça mascarada pelo igualitarismo que ora premia os ociosos, ora suprime os direitos do homem.
A justiça é a fronteira da liberdade e liberdade é o âmago da justiça.
Diante disso fica claro que o cristão não pode nortear sua filosofia de administração dos recursos por nenhum dos dois “esquemas econômicos” que dividem este mundo. Ambos são corrompidos.
No capitalismo que apregoa a liberdade, falta a visão de que a liberdade não pode acontecer às custas dos outros, especialmente dos pobres a da matéria-prima do 3° mundo. Já o comunismo que apregoa a justiça, peca por suprimir as liberdades e não recompensar de modo justo – logicamente para ser justo não pode ser exacerbado – o trabalho e o esforço dos que mais se afadigam. Além disso, peca também por não dar ao homem direito à voz. É estranho: no primeiro sistema os líderes fecham os ouvidos para não ouvirem os clamores. No segundo, eles fecham as bocas das pessoas para que elas não falem. Em ambos o silêncio é a lei.”

Caio Fábio,
Uma graça que poucos desejam, 1986