Essa experiência

“[…] venho ao mundo e o mundo vem a mim, e o dom desse encontro me maravilha e reclama minha gratidão. Daí vem essa experiência inicial: reconhecer aquilo que me é dado e, dando graças ao doador, acolhê-lo sempre mais. É só isso que os anjos fazem. A dor não esteve em seu caminho. Criados na graça, sua tarefa foi simplesmente dar graças, e aceitar para assim entrar na glória. Bastou-lhes abrir-se, humildemente. Mas, se uns voltaram-se filialmente para o Pai, outros comprazeram-se em si mesmos e quiseram conduzir sua vida por conta própria, preferindo abrir as veias a abrir o coração. E foi assim que começaram o paraíso e o inferno… Essa experiência é também a do Éden. O que vem depois é conhecido. Mas a queda dos homens não é como a dos anjos, definitiva. Ela sempre tem algo de derrapagem, de dificuldade, de ridículo. É por isso que a graça pode interrompê-la […]”

Fabrice Hadjadj em O paraíso à porta

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Primazia do Maravilhamento

“A precedência ontológica do bem sobre o mal implica uma precedência similar da alegria sobre a angústia. O próprio Heidegger afirma a “aliança secreta” que une a angústia de existir à mais profunda alegria de ser. O ser-jogado não pode não ser precedido por um ser-recolhido. Como eu poderia me sentir tão violentamente jogado no mundo se não tivesse primeiro sido recebido numa ternura? Antes da fria desolação – e como condição de sua possibilidade – é preciso que haja o calor do seio.
A questão do sentido não me pesaria tanto se eu não tivesse primeiro conhecido a leveza infantil de uma “correspondência”. Essa “correspondência” (termo de Baudelaire), essa ressonância implícita e confusa também é original. Ela precede toda dissonância (a que só é experimentada como sua privação), e prepara todo raciocínio (o qual busca reaprendê-la de maneira explícita e distinta). Ela se dá por meio do thaumazein, aquele maravilhamento que Platão e Aristóteles colocam na raiz de toda especulação: “É verdadeiramente digno de um filósofo esse pathos – maravilhar-se; porque não há outro ponto de partida a governar a filosofia”.
O maravilhamento diante da vida é necessariamente anterior à angústia diante da morte. De fato, se a vida não nos aparece mais como uma maravilha, como a morte que vem atingi-la poderia nos causar angústia? Ela não seria mais do que uma banalidade ou um alívio.
A negação da morte também anda junto com a negação da vida. O horror e a maravilha do mundo são diminuídos juntos. Eles são corroídos até caber nas categorias de “estressante” e “relaxante”, de “deprimente” e “legal”. Aquele que, para blindar-se, diz ao homem em luto: “Calma, a vida é assim”, faz da morte uma coisa qualquer, e da existência um assunto esgotado. Assim ele fica forçado a distrair-se dessa nulidade com tagarelices analgésicas ou espetáculos superexcitantes.
Se Heidegger insiste tanto na “convocação” da angústia, é porque ela denuncia essa fuga. Não é que essa angústia seja absolutamente primeira. Mas ela se torna primeira após uma queda preliminar, porque o maravilhamento inicial foi obscurecido pelas preocupações utilitárias, pelas contorções da inveja, pelas arrogâncias da vaidade… Estamos há muito tempo desprovidos do paraíso vislumbrado. Divertimo-nos então ora na indiferença altiva, ora na orgia laboriosa. Contra isso, a angústia tem uma virtude cáustica. Ela destrói meus prazeres vãos para me remeter melhor a uma alegria fundamental. Ela me aperta a garganta para melhor reclamá-la à dilatação de um canto verdadeiro. A “correspondência”, o “Acordo”, como também fala Heidegger, são portanto sempre oferecidos a nós. Mas isso não significa que sejam sempre recebidos. Aquilo que é dado desde o começo é nossa tarefa que não tem outro fim além de acolhê-los numa vida que “devidamente os assume e que os abre a um desenvolvimento.”
Um salmo enuncia isso com a concisão de um relâmpago: A ele gritou minha boca, e minha língua o exaltou (Salmo 65,17). Literalmente: “Gritei para ele minha boca, e ele foi elevado sob minha língua.” É bem isso o que se esconde na língua que se está discutindo aqui, seu freio irreprimível e seu recurso secreto. Posso polir o que está fora com mel ou com fel, mas o que está embaixo dela escapa a meus estados d’alma, assim como me escapa a palavra que falo e que não tem em mim sua origem primeira nem seu endereço último. Meu grito de angústia se baseia ainda numa esperança da alegria. Minhas torrentes de injúrias só ferem por romper a comunhão da palavra e, assim, indiretamente, confirmam que aí é que está sua vocação primeira.
Uivar porque minha vida é roída pelo mal, ou, em outras palavras, pelo nada, é já ter reconhecido que a alegria é o fundo do ser. Mesmo ao blasfemar não consigo evitar totalmente essa confissão. Se insulto o Criador, faço-o utilizando a energia de sua criação, e ainda por cima me maravilhando, mas de um jeito hipócrita, com a força sonora de minha voz. David teve essa experiência: Para onde ir, longe do teu sopro? / Para onde fugir, longe da tua presença? / Se subo ao céu, tu lá estás; / se deito no Xeol, aí te encontro (Salmo 138, 7-8). O pobre rei tenta blasfemar com todas as forças, ele coloca toda a sua energia na rejeição do Deus de Israel (isso é, o Deus-daquele-que-é-forte-contra-Deus), ele estabelece para si o dever de amaldiçoar sua luz e de invocar para si o socorro das trevas, mas – não do não e Nome do Nome! – seus praguejamentos abjuram a si próprios, seu cuspe cai em seu próprio rosto, seu próprio hálito fedorento ainda vai buscar energias, apesar do fedor, no Sopro do Criador.”

Fabrice Hadjadj em O paraíso à porta

Mortalmente ferida

“[…] pedimos à produção material, à farmácia, às ciências físicas, o meio de “tomar o paraíso de uma vez”. É esse o propósito das mais diversas drogas, como também do progresso técnico: nossa natureza, mortalmente ferida, em vez de deixar sua chaga ser iluminada pelo sobrenatural, reclama sem fim uma sutura feita com seus próprios artifícios, faz os pontos com um fio manchado por sua corrupção. Assim, nossos desinfetantes infectam. Nossa carne apodrece debaixo de gases cada vez mais magistrais.”

Fabrice Hadjadj em O paraíso à porta

Pequena bondade

“A “pequena bondade” que vai de um homem a seu próximo se perde e se deforma quando tenta organizar-se e universalizar-se e sistematizar-se, quando quer-se doutrina, tratado de política e de teologia, Partido, Estado e mesmo Igreja. Ela, porém, permanecerá o único refúgio do Bem no Ser. Invicta, ela enfrenta a violência do Mal que, pequena bondade, não conseguiria nem vencer, nem afastar. Pequena bondade que vai apenas de um homem a outro, sem atravessar os lugares e os espaços em que se desenrolam acontecimentos e forças! Utopia notável do Bem, ou segredo de seu além.”

Emmanuel Lévinas

O consumidor

“O consumidor, desprezando a duração e a resistência das coisas, não se permitindo ser tomado de gratidão diante daquilo que se dá e que não tem preço, torna-se um sujeito sem mundo. Ele habita acima de um universo de brochuras e do lixo doméstico, no principado do vazio (e até do vácuo). Além disso, como não há mais regra transcendente para ordenar seu poder de compra e reconhecer no real um caráter não negociável, em suma, como ele não consegue mais ser, ele se permite ser possuído. Ele é convocado a também tornar-se mercadoria. A não ser mais do que matéria-prima para a indústria, adequada para a fabricação do Novo Adão. Ele acaba consumindo a si mesmo.”

Fabrice Hadjadj em O paraíso à porta

A política

“Infelizmente, a política só diz respeito àquilo que aparece no espaço público, e não àquilo que diz respeito ao santuário das almas. De um lado, o homem só pode julgar seu semelhante a partir de seus atos exteriores; de outro, ele não teria como torná-lo virtuoso valendo-se da força. Quanto mais ele julga comunicar a verdadeira virtude por meio da ameaça, mais ele reforça, no temeroso, as aparências da virtude. Desse modo, ele redobra a hipocrisia que pretendia remover. De tanto querer penetrar nos corações, eles fogem, e logo você fica com vontade de arrancá-los.”

Fabrice Hadjadj em O paraíso à porta

Amante pérfido

“A mulher deve, pois, tomar cuidado para não cair nas ciladas de um amante pérfido; muitos deles não procuram ser amados, mas apenas dar livre vazão à sensualidade ou gabar-se de suas conquistas em sociedade; são esses que, antes de receberem da mulher o fruto de seus esforços, parecem usar de boa-fé nas promessas que fazem com ternas palavras e têm intenções puras em tudo o que dizem. Mas, uma vez obtida a paga por suas fadigas, viram casaca; a duplicidade que têm no coração, antes dissimulada, começa a aparecer, e a infeliz mulher, ingênua e crédula demais, acaba mortalmente lograda pelo engenho do ardiloso.”

André Capelão em Tratado do amor cortês