Livrai-me, Senhor, de mim mesmo

“Livrai-me, Senhor, do homem mau, isto é, de mim mesmo, de quem eu não posso separar-me. Porque, de qualquer lado que me vire, aonde queira que vá, seguem-me meus vícios, e também minha consciência, que está sempre presente para escrever tudo quanto faça. Bem que posso fugir, evitar dos juízos dos homens. Não assim com o veredito de minha própria consciência, e se posso ocultar dos homens o que fiz, não posso ocultar-me de mim mesmo o que sei.
[…]
a inveja turbou, corrompeu, dilacerou muitas vezes meu coração. Pela inveja, até os méritos daqueles que vivem santamente foram muitas vezes ocasião de pecado para mim; porque não acreditava no bem, nas coisas boas que deles escutava dizer e as interpretava no mal sentido; e todo o mal que a malícia, a calúnia e a maledicência lhes atribuía, eu acreditava imediatamente, como se tivesse visto com meus olhos.

Desejei para meus inimigos toda sorte de males e deles os acusei, e me afligi de seus adiantamentos e melhora, o que me fazia ainda pior. Ocultei dentro de mim o ódio para com as pessoas boas e alimentei esse ódio para tormento meu. Tive inveja dos que considerava melhores e dos que progrediam no bem; favoreci os maus, regozijando-me de suas maldades e afligindo-me de sua correção. Em meu interior conservei inimizades sem motivo, sem saber por que e temi que os outros apercebessem dessa malícia de meu coração. Com eles me mostrei sempre displicente, jamais amável, e desta maneira transformei-me em amigo do diabo, em inimigo de Deus e de mim mesmo.

Semeei a cizânia entre amigos, confirmei em suas diferenças os discordantes. Desfigurei com mentiras a opinião que pessoas boas tinham de outros; louvei as coisas carnais e temporais em pessoas espirituais, expressamente para que os outros vissem que estas pessoas não estavam tão adiantadas nos bens espirituais como acreditavam. Fingi ser amigo de outro para enganar com tal artifício aqueles que tinham depositado sua confiança em mim. Muitas vezes suscitei motivos de ódio por meio de malévolas suspeitas, regozijando com isto o demônio, em agente do qual me converti. Vendi aparente amizade a não poucas pessoas, das quais era em meu coração inimigo: para elas tinha sempre na boca belas palavras, ainda que na realidade me arrastasse pela lama da malevolência. Fui revelador de segredos alheios e tenaz em minhas más suspeitas, sendo perverso num e noutro destes defeitos: e desse modo, o inimigo perseguiu minha alma e humilhou e arruinou a minha vida.”

Bernardo de Claraval em Tratado da consciência ou Do conhecimento de si mesmo

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