A dor, o sofrimento, o luto

“A dor já passou, foi transformada em algo diferente: conheceu-a, gemeu, a seguir ocultou-a dos olhos do mundo, de algum modo, dissecou-a para poder conservá-la como uma múmia suntuosa na sala dos mortos da sua memória. Não vale a pena enganares-te, porque o sofrimento causado pelo amor também desaparece. Fica o luto, um certo tipo de ritual oficial da memória. A dor é uma coisa diferente: um grito selvagem, apesar de ser silencioso. Os animais gritam dessa maneira, quando não compreendem qualquer coisa no mundo – a claridade das estrelas ou os cheiros estranhos – começam a tremer e a gemer. O luto é diferente, é uma questão de razão e de vivência. Mas a dor, um dia, transforma-se; tudo aquilo que se apresentava como orgulho ou ofensa por causa da ausência do outro, vai ser consumido pelas chamas obstinadas e purificadoras do sofrimento para dar lugar à recordação que se pode manejar, amansar e colocar em algum lugar.”

Sándor Márai em A gaivota

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