Maldita doença

“Por vezes tinha esperança de que a minha filha reconsiderasse, de que se curasse dessa maldita doença, e vocês os dois chegassem a entender-se. Sabia tudo – continuava presunçoso e completamente mal informado. – Esse homem foi como uma doença infecciosa para Ili. Uma doença que mata o doente, mas este não quer livrar-se dela. Há pacientes e doentes assim – disse com a satisfação de um perito que conhecia o assunto. – Nesses casos só um milagre pode ajudar. Eu acreditava nesse milagre – acrescentou contristado. Não, por favor, deixe-me falar. Sabia tudo sobre si e sobre esse homem, tudo, durante aqueles quatro anos em que Ili andou na faculdade, mas não podia imaginar até que ponto aquela infecção era tão perigosa. Como podia saber que esse patife iria matá-la? Quando ler as cartas, perceberá tudo. – Respirava com dificuldade, estava perto de sofrer um ataque. – O que sei ainda? – perguntou calmamente. – É que também se pode matar com delicadeza, sem veneno, sem armas, sem palavras. É possível fazê-lo com um determinado comportamento – respondeu com um tom ingênuo e assustado, como se ele próprio se surpreendesse com a importância da sua descoberta. – Um homem é capaz de acabar com uma outra pessoa por não a deixar partir, mas, ao mesmo tempo, não a abandonar também. Acercando-se dela por completo, atando-a a si mesmo e não a devolvendo ao mundo. Ao manter uma distância, não cria uma aliança com ela. Uma pessoa escolhida e separada deste modo do mundo, acaba por morrer. Uma vez que fica sozinha, mas não completamente, porque vive com uma espécie de vínculo, mas quem a tem prisioneira não se preocupa com ela… percebe isso? Mas eu não posso ir à esquadra. A polícia nada pode fazer com estas cartas. São cartas corteses, não há nelas nenhuma ameaça concreta… simplesmente em cada linha, em cada palavra, sente-se uma força perversa, uma força com que esse homem a enfeitiçou, a prendeu, e não a largou, não deixando, no entanto, que se aproximasse muito. Segurava-a com uma corda curta e nunca a soltou completamente… Ela debatia-se assim, enfeitiçada.”

Sándor Márai em A gaivota

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s