Rio de ilusões

“No domínio da vida intelectual, o fato essencial do nosso tempo é um tipo de recusa, inconsciente, mas geral, de tomarmos consciência da situação real que o mundo lhe impõe. Há uma recusa a ver o que constitui realmente o nosso mundo. É o fato notadamente dos intelectuais, mas também de todos os homens do nosso tempo e de toda a nossa civilização. Temos a impressão de uma enorme máquina montada para impedir o homem de tomar consciência, para acuá-lo numa recusa inconsciente ou numa fuga em direção ao irreal. A característica dramática desta época, neste domínio, é a de que o homem apreende pelas aparências. A realidade desaparece, realidade do homem para ele mesmo e realidade dos fatos que o cercam. O homem do século, e pode-se dizer que é a primeira vez na história que este fato se produz, oscila incessantemente entre o fenômeno e o mito explicativo, ou seja, entre duas aparências extremas e opostas. O fenômeno é, se quisermos, a apresentação externa do fato. Nosso contemporâneo não vê mais que as representações que lhe dão a imprensa, o rádio, a televisão, a propaganda, a publicidade. Ele não crê mais em suas experiências, no seu julgamento, no seu pensamento: ele tem como referências o papel impresso e as ondas sonoras ou as imagens emitidas pela televisão. A seus olhos um fato torna-se verdadeiro na medida em que teve um comentário no jornal, e este é tão mais importante quanto maiores forem as letras. O que ele viu não conta se é traduzido oficialmente, se não há uma multidão que corrobore sua crença. Essa constatação, que parece simplista, está, de fato, na base de toda obra de propaganda; um fato é falso, ele é impresso num jornal com um milhão de exemplares, mil pessoas sabem que o fato é falso, mas 999.000 creem que ele seja verdadeiro. É isso o que entendo por fenômenos ou aparências, os quais o homem moderno apreende e conhece exclusivamente. Por que exclusivamente? Porque a cada dia ele passa por um número muito limitado de experiências verdadeiras, e como elas geralmente estão incorporadas em seus hábitos, ele nem mesmo as percebe. Em contrapartida, a cada dia ele apreende mil notícias pelo seu jornal, sua TV, seu rádio, e coisas muito importantes, muito sensacionais! Como querem que suas miseráveis experiências pessoais, relativas à excelência de uma ameixa ou de uma lâmina de barbear, não sejam afogadas nesse rio de ilusões tão importantes relativas ao armamento nuclear, ao destino da Europa ou das relações Norte-Sul, às greves, etc? Ora, são fatos dos quais não conhecerá nunca a realidade.
Assim, são essas aparências que se tornam a sua vida e o seu pensamento. Isso traz uma consequência muito importante do ponto de vista intelectual; é que o homem moderno, arrebatado nessa onda de imagens inverificáveis, não pode, absolutamente, ter domínio sobre elas, porque não são coordenadas, e as notícias vão se sucedendo umas às outras, sem parar. Uma questão aparece, desaparece das colunas dos jornais ou da tela assim como do cérebro do leitor, é substituída por outras e esquecida. O homem se habitua a viver assim sem presente e sem passado, se habitua a viver em uma total incoerência, porque toda a sua atividade intelectual é atrelada a essas visões fugidias, elas mesmas sem passado e sem futuro, e para o presente, sem consistência.”

Jacques Ellul em Cristianismo revolucionário

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