Ninguém mais sabe aonde vai

“Nós nos congratulamos cada vez que um novo remédio é encontrado, muitas investigações são feitas para conseguirmos curar melhor, mas de que serve a vida que tomamos tanto cuidado para preservar? De que serve o tempo? O que vale a vida? Para que tudo isso se, precisamente pelo jogo dos meios engendrados por esta civilização, o tempo e a vida não têm mais sentido, se o ser humano não sabe de fato o que fazer com o seu tempo e a vida é mais absurda do que nunca, porque os fundamentos espirituais do tempo e da vida foram destruídos no seu coração? O homem moderno, desumanizado pelos meios, transformado em meio é, com o tempo que lhe é dado e a vida que ele preserva, como um selvagem a quem é entregue uma máquina muito sofisticada e cujas mãos são inábeis para fazer uso dela.
Porém, ainda mais, eis que ele se desfaz do seu tempo e de sua vida, conquistados à custa de tanta dificuldade. Porque nunca uma civilização desperdiçou tanto o tempo dos homens e sua vida.
Investimos uma enorme quantidade de força para que uma pessoa ganhe alguns segundos, e somos levados a perder dias com o tempo desperdiçado dos desempregados e “daqueles que fazem fila” diante de uma administração: tanto um como outro produto da grandiosidade dos nossos meios.
Toda ciência possível será acionada para salvar uma vida, mas serão massacrados milhões com bombas e nos campos de concentração, ambos produtos de grandiosidade dos nossos meios. E podemos fazer o mesmo paralelo para tudo aquilo que nos cerca. A segurança? Elabora-se sabiamente uma prodigiosa máquina administrativa para garantir a segurança social aos homens, mas por quê? Com qual objetivo? Porque, enfim, nunca o tempo foi tão incerto como o nosso. E o que é essa miserável segurança que se propõe ao homem, alguns milhões de francos, ao preço da insegurança das crises financeiras, sociais, econômicas, das guerras e das revoluções, que, pela graça dos nossos meios técnicos, põem em jogo atualmente todos os homens, e todas as mulheres, e todas as crianças? Nessa terrível roda dos meios desencadeados, ninguém mais sabe aonde vai, os objetivos são esquecidos, os fins são ultrapassados. O homem partiu a velocidades astronômicas para lugar nenhum.”

Jacques Ellul em Cristianismo revolucionário

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