Estado de separação

“O homem, em todas as eras e culturas, vê-se sempre diante do mesmo problema: como superar o estado de separação, como alcançar a união, como transcender sua vida individual e encontrar reconciliação. O problema é o mesmo para o homem primitivo que vive numa caverna, para o nômade que pastoreia seus rebanhos, para o camponês egípcio, para o mercador fenício, para o soldado romano, para o monge medieval, para o samurai japonês, para o funcionário de escritório e o operário fabril atuais. É o mesmo porque brota do mesmo solo: a situação humana, as condições da existência humana. A resposta dada a ele varia. Ela pode ser buscada na adoração de animais, no sacrifício humano ou na conquista militar, na indulgência para com a luxúria, na renúncia ascética, no trabalho obsessivo, na criação artística, no amor a Deus e no amor ao Homem. […] A história da religião e da filosofia é a história dessas respostas, de sua diversidade, assim como de sua limitação em número.
[…]
O orgasmo sexual pode produzir um estado semelhante ao produzido pelo transe ou pelos efeitos de certas drogas. Os ritos de orgias sexuais comunitárias são parte de muitos rituais primitivos. Aparentemente, depois da experiência orgiástica, o homem pode ficar algum tempo sem sofrer muito com seu estado de separação. Pouco a pouco a tensão da ansiedade cresce, depois volta a ser reduzida pela repetição do ritual.
[…]
No entanto, em muitos indivíduos em que o estado de separação não é aliviado de outras formas, a busca do orgasmo sexual assume uma função que o torna não muito diferente do alcoolismo e do consumo de drogas. Ele se torna uma tentativa desesperada para escapar da ansiedade gerada pelo estado de separação, resultando porém numa sensação crescente de separação, na medida em que o ato sexual sem amor só vence a distância entre dois seres humanos momentaneamente.”

Erich Fromm em A arte de amar

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