Ocultar a verdade de si mesmo

“A maior parte das pessoas faz exatamente o contrário. Não quer saber nada de sua história e, dessa forma, não sabe que, no fundo, é continuamente determinada por essa história, pois vive situações não-resolvidas, reprimidas na infância. Não sabe o que teme e evita perigos que um dia foram reais, mas que hoje não existem mais. Essas pessoas são impulsionadas por lembranças e necessidades inconscientes que, frequentemente, determinam de maneira perversa quase tudo o que fazem ou falhem no seu fazer – enquanto permanecerem inconscientes e não-resolvidas.
A repressão aos maus-tratos sofridos no passado leva algumas pessoas, por exemplo, a destruir a própria vida e a vida de outros, incendiar casas de estrangeiros, promover vinganças, tudo em nome de um “patriotismo”, a fim de ocultar a verdade de si mesmas e sentimentos de desespero da criança torturada. Outras reproduzem ativamente o sofrimento a que foram submetidas, em clubes de flageladores, em cultos a sacrifícios de todos os tipos, no mundo sadomasoquista, chamando a tudo de libertação. As mulheres furam seus mamilos para pendurar brincos, posam para jornais e contam, orgulhosas, que não sentiram dor e que se divertiram com isso. Não há do que duvidar nessas afirmações, pois essas mulheres tiveram de aprender muito cedo a perder a sensibilidade. E o que não fariam hoje em dia para não sentir a dor da garotinha que sofreu abuso sexual pelo próprio pai, e precisou imaginar que o atentado fora prazeroso? Uma mulher que sofreu abuso sexual quando criança, que negou a realidade de sua infância, está constantemente fugindo dos acontecimentos passados – com a ajuda de amantes, álcool, drogas ou ações excepcionais. Ela precisa estar continuamente “ligada”, a fim de não sucumbir ao “tédio”, não pode se permitir um segundo de tranquilidade, quando seria possível sentir a ardente solidão da realidade de sua infância, pois teme esse sentimento mais do que a morte – a menos que tivesse a sorte de aprender que o reavivamento e a consciência dos sentimentos da infância não matam, libertam. O que não raro mata é reprimir os sentimentos, cuja experimentação consciente poderia nos revelar a verdade.”

Alice Miller em O drama da criança bem dotada

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