A massa humana

“Ainda ontem, eu falava com um dos nossos juízes e convenci-me das misérias de princípio que governam as nossas mais importantes instituições. Sempre frações da verdade tomadas pelo todo, pontos de superfície tomados pelo centro do assunto, acessórios tomados pelo essencial. E é com essas confusões que se fabricam as leis que dirigem os tribunais, as assembleias, os conselhos, as multidões. As cascas são tomadas pelo próprio fruto; três erros equivalem a uma verdade. A massa humana, em todo assunto que tenha diversos lados, parece impossibilitada de ver mais de um de cada vez e, sobretudo, de vê-los em sua relação verdadeira. O que é mais raro é um espírito justo, objetivo e imparcial. É verdade que ninguém insiste nisso e que cada qual prefere a sua paixão, o seu preconceito, o seu interesse à justeza do pensamento. Eis por que há uma dinâmica da história; as multidões não apresentam em sua ação mais que resultantes de forças que elas mesmas desconhecem, portanto cegas e irresistíveis. As multidões querem ser livres e não adivinham nem sequer o que seja liberdade; quando os seus instintos não experimentam nenhum constrangimento, elas se creem livres; por um jugo quebrado, elas se creem libertas de todos os outros. A liberdade é um ideal, do qual somente o sábio se aproxima. Todos os outros são escravos sem o saberem, quase tanto como o animal.”

Amiel em Diário Íntimo

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