A realidade passava a oprimi-lo

“Olhava com mais atenção as pessoas que passavam diante dele; mas as pessoas estavam alheias, preocupadas, pensativas… E pouco a pouco a despreocupação de Ordínov foi sem querer esvaecendo; a realidade passava a oprimi-lo, a incutir nele uma espécie de temor involuntário, de respeito. Ele começava a se cansar desse afluxo de impressões novas, que até então ignorara, como um doente que alegremente se levantara pela primeira vez de seu leito de sofrimentos e caíra, atordoado pela luz, pelo brilho, pelo turbilhão da vida, pelo burburinho e pela miscelânea de cores da multidão que rodopiava ao seu redor, aturdido, entontecido pelo movimento. Foi ficando angustiado e triste. Começou a temer por sua vida, por toda sua atividade e até pelo futuro. Um novo pensamento vinha roubar-lhe a tranquilidade. De súbito ocorreu-lhe que havia passado sua vida inteira sozinho, que ninguém o havia amado, e que também ele nunca chegara a amar ninguém.”

Dostoiévski em A senhoria

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