Momento negativo da liberdade

“Dizendo que esta “coisa”, a língua, pode-se mover em duas direções perfeitamente opostas, admitimos desde o começo que ela é ambígua. A ambiguidade da língua, ao lado de sua origem, permanece talvez, para o conhecimento humano, o enigma supremo. Como é possível que da essência da língua faça parte a perfeita ambiguidade de sua utilização? Como é possível que o que é destinado a abrir, exprimir e apropriar-se, seja, no entanto, capaz de esconder, de provocar desvios e de intrigar?
O mais simples seria imaginarmos que se trata de um instrumento divino que se perverte uma vez que passa a ter utilização humana. O homem pode ser um indigno da linguagem, um utilizador ambíguo, apto a desviar este utensílio de seu modo imaginário de emprego. Ou melhor: porque o homem é livre e decaído, pode igualmente utilizar a língua pela linha da verdade, seja pela da mentira. A mentira não pode ser de fato entendida senão como momento negativo da liberdade. E então tudo se torna claro: o mal, o crime, a política, ou seja, todas as coisas que são possíveis apenas pela escroqueria verbal que as precede. O fato de a língua, empregada do utilizador humano, poder dizer não apenas o que é, mas o que não é – ou seja, o fato de uma palavra poder dizer não apenas a verdade, mas também mentir – explica por que a história do homem é, em sua essência, uma corrente de desastres.”

Gabriel Liiceanu em Da mentira

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