Da vergonha de sonhar

“Notava-se tal inquietude quase ao primeiro olhar, e constrangia tanto assim porque sonhar lhes dava uma expressão mórbida e tenebrosa, e um tanto insalubre. Sim, quase todos os presidiários eram taciturnos, odientos e não queriam de modo algum que suas esperanças fossem pressentidas pelos demais. Simplicidade e franqueza eram desprezadas. Quanto mais fantasiosas fossem suas esperanças e quanto mais o sonhador percebesse que não eram realistas, mais obstinadamente ele as escondia, mas não abria mão delas. Talvez até muitos se envergonhassem delas. […] Quem sabe tivesse sido esse constante descontentamento íntimo consigo mesmo a causa da intolerância no trato diário com os demais, levando a uma incompatibilidade e a um escárnio mútuo. Se alguém, por exemplo, fosse mais ingênuo e impaciente do que os outros, arriscando-se a exteriorizar em voz alta o que os demais ocultavam, assim que começava a desabafar era coberto de escárnios, embora aqueles que reagissem com maior intensidade fossem precisamente os que mais sonhassem.”

Dostoiévski em Recordações da Casa dos Mortos

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