Não somos melhores do que ninguém

“Jesus se deparava com determinada classe de pessoas promovendo violência (verbal, física ou social – as diferenças são de emergência, não de natureza) contra outra classe de pessoas, com base num discurso. Sendo o cara galante que era, Jesus não podia aprovar que gente cometesse violência contra gente, especialmente com base em algo com tão pouco fundamento e tão sujeito à manipulação quanto um discurso. Por outro lado, e pelo mesmo motivo, Jesus não se permitiria a cometer ele mesmo violência contra gente, mesmo se fosse para atacar quem estava atacando e defender quem estava sofrendo violência.

Se vivesse nos nossos dias, Jesus por certo defenderia diante de cristãos conservadores aqueles que nesse meio são tomados por particularmente inaceitáveis (“olhem que os drogados, os travestis e os comunistas estão entrando no reino de Deus antes de vocês!”, ele diria, sem ter de recorrer à hipérbole). Ao mesmo tempo não é improvável que, diante de homossexuais, Jesus contasse uma parábola em que um crente ultraconservador é aquele disposto a promover inclusão, e em que gays e transexuais mostram-se falhos e preconceituosos.

A coisa mais cavalheiresca que Deus fez foi vulnerabilizar-se, foi virar gente de carne, como se não estivesse acima de ninguém. Como o pai do filho pródigo, os olhos fixos na distância, Deus espera contra toda a esperança que reapareçamos diante dele sem outra bagagem além daquela de entender que não somos melhores do que ninguém.”

Paulo Brabo

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