O trágico do universo político

“Não há anarquista que não esconda, no mais fundo de suas revoltas, um reacionário que espera a sua hora, a hora da tomada do poder, em que a metamorfose do caos em autoridade apresenta problemas que nenhuma utopia ousa resolver ou sequer encarar sem cair no lirismo ou no ridículo.

Não há movimento de renovação que, no próprio momento em que se aproxima do objetivo, em que se realiza através do Estado, não resvale para o automatismo das velhas instituições e não tome a forma da tradição.

[…]

O próprio revolucionário age assim em relação ao presente em que se instala e que gostaria de eternizar. Mas seu presente logo será passado e, ao se apegar a ele, acaba por se assemelhar aos partidários da tradição.

O trágico do universo político reside nessa força oculta que leva todo movimento a se negar a si próprio, a trair sua inspiração original e a se corromper à medida que se afirma e avança.”

Cioran em Exercícios de admiração

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