Tribunal da consciência

“Morreu porque tal morte era uma necessidade, uma consequência natural de toda a sua vida. Devia morrer assim, quando tudo o que o amparara na vida ruíra de vez, dissipando-se como um espectro, um sonho etéreo e vão. Morreu quando se foi a última esperança, quando, de repente, sua fantasia desmoronou, e ele teve a nítida consciência de tudo aquilo com que se iludira e em que se apoiara durante toda a existência. A verdade cegou-o com seu brilho intolerável, e o que era mentira tornou-se mentira para ele também. Em sua hora derradeira ouviu um gênio maravilhoso que o condenou para sempre, revelando-o a si próprio […] Mas a verdade era intolerável para os seus olhos, que estavam enxergando, pela vez primeira, tudo o que fora, o que era e o que o esperava ainda; aquela verdade cegou e queimou sua razão. Ela o atingiu de repente, de modo inevitável, como um raio. Aconteceu, de súbito, aquilo que ele aguardara a vida inteira, trêmulo, o coração opresso. Parecia que, durante toda a sua vida, um machado estivera suspenso sobre sua cabeça, toda a vida ele esperara, a cada momento, numa tortura inimaginável, que a lâmina o golpeasse; e eis que, finalmente, o golpeava! Foi um golpe mortal. E ele, que desejara fugir ao tribunal da própria consciência, não tivera para onde fugir: desaparecera a última esperança, perdera-se o derradeiro pretexto. Aquela cuja vida pesara sobre ele por tantos anos, aquela que não o deixara viver e com cuja morte, segundo sua crença cega, ele deveria ressuscitar no mesmo instante, morrera. Finalmente, estava sozinho, nada o oprimia: finalmente, estava livre! Pela última vez, num desespero convulsivo, queria julgar a si mesmo, condenar-se de modo severo, implacável, como um juiz sereno e incorruptível… Naquele momento, a loucura, que o espreitara durante dez anos, atingiu-o inexoravelmente.”

Dostoiévski em Niétotchka Niezvânova

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