O apocalipse de Debord

Mas para a presente era, que prefere o signo ao significado, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência à essência. . . a verdade é considerada profana e somente a ilusão é sagrada.

Ludwig Feuerbach, no prefácio da segunda edição (1843) de A essência do cristianismo. Debord usou esta citação como epígrafe de A sociedade do espetáculo

Tudo come­çou, claro, em 1967.

Os demó­gra­fos expli­cam que entre 1965 e 1970 a Terra tes­te­mu­nhou a mais alta taxa de cres­ci­mento de todas as eras dos homens: 2,1 por cento ao ano. Intei­ra­mente empe­nhado em come­ter tanta gente, o uni­verso come­teu um des­lize e – depois de ter evi­tado esse cons­tran­gi­mento por milê­nios – come­teu tam­bém a mim, no cen­tro geo­grá­fico dessa sin­gu­la­ri­dade. Era agosto de 1967.

No mesmo ano, um pro­feta rebaixou-​​se a expli­car o futuro para um público que, àquela altura, não tinha como com­pre­en­der do que exa­ta­mente ele estava falando e, por­tanto, de pas­mar sen­sa­ta­mente diante do quanto ele estava certo. O pro­feta chamava-​​se Guy Debord, e sua pro­fe­cia A soci­e­dade do espe­tá­culo (La soci­eté du spectacle).

A soci­e­dade do espe­tá­culo é um livro frag­men­tá­rio, for­mado por capí­tu­los que em sua maior parte não ultra­pas­sam um pará­grafo. Seu tom ecoa as exal­ta­ções dos pro­fe­tas reli­gi­o­sos. Cla­ra­mente, o autor enten­dia estar arti­cu­lando uma reve­la­ção – e uma reve­la­ção é um cofre que livre­mente se dis­tri­bui, mas o lei­tor deve pos­suir de ante­mão a chave.

Nos nos­sos dia Debord soa muito menos críp­tico do que deve ter soado para seu lei­tor ori­gi­nal, por­que hoje por­ta­mos todos a chave. O apo­ca­lipse de que ele fala é o nosso quo­ti­di­ano. Como não enten­der que o pro­feta falava dos des­do­bra­men­tos da inter­net – do you­tube, dos gifs de gati­nhos, do ins­ta­gram, do net­flix, dos botões de “Like”, das fotos fei­tas de braço esten­dido e, em par­ti­cu­lar, dos con­teú­dos auto­re­ge­ne­ra­do­res das mídias soci­ais – quando escreveu:

Tudo que era antes vivido diretamente tornou-se mera representação.

O espetáculo não é uma coleção de imagens; é a relação social entre pessoas que é mediada por imagens.

A vida real é absorvida materialmente pela contemplação do espetáculo, e acaba absorvendo-a e alinhando-se a ela.

A alienação do espectador funciona deste modo: quanto mais ele contempla, menos ele vive; quanto mais ele se identifica com “as imagens dominantes do necessário”, menos ele entende a sua própria vida e os seus próprios desejos. A alienação que o espetáculo produz sobre o sujeito atuante é expressa no fato de que seus gestos individuais não são mais seus; são gestos de outra pessoa que os representa para ele. O espectador não se sente mais em casa em lugar algum, porque o espetáculo está em todo lugar.

Toda realidade individual tornou-se social, no sentido em que é moldada por forças sociais e depende diretamente delas. Permite-se uma aparência de realidade individual desde que não seja realmente verdadeira.

No processo, toda comunidade e todo o espírito crítico foram desintegrados.

Debord foi um dos pri­mei­ros a enten­der que o novo con­su­mismo não se limi­tava a impri­mir sobre a soci­e­dade o desejo pelo con­sumo de pro­du­tos no sen­tido tra­di­ci­o­nal vou-​​ao-​​mercado. O sucesso da soci­e­dade de con­sumo reside em sua capa­ci­dade de ven­der a todos o desejo por um pro­cesso de con­sumo público e inin­ter­rupto. Essa soci­e­dade não des­can­sou até pro­du­zir, em 2013, um modo de vida no qual con­su­mi­mos pre­ci­sa­mente ao mesmo tempo em que pro­du­zi­mos: um mundo em que somos con­su­mi­dos pre­ci­sa­mente ao mesmo tempo em que consumimos.

Dei­xa­mos de mera­mente con­su­mir pro­du­tos pelo menos desde a época de Debord. O que con­su­mi­mos é espe­tá­culo: isto é, a inin­ter­rupta con­tem­pla­ção das coi­sas que con­su­mi­mos, sob a forma de ima­gens. Isso era ver­da­deiro mesmo antes da inter­net. Por exem­plo, no caso das rou­pas de marca, que redu­zem seu sujeito simul­ta­ne­a­mente a con­su­mi­dor, a ima­gem de pro­pa­ganda, a con­su­mi­dor dessa ima­gem e a con­tem­pla­dor do efeito dessa ima­gem na sua rela­ção com as outras pes­soas (isto é, sua rela­ção com outras ima­gens). Tru­ques dessa natu­reza são irre­sis­tí­veis por­que enga­nam até mesmo quem está enga­nando. Todos que­da­mos intei­ra­mente satis­fei­tos, por­que é já puro e mag­ní­fico e sudo­roso espetáculo.

Esse meca­nismo, no entanto, só encon­trou sua cor­po­ri­fi­ca­ção mais lite­ral na inter­net. “O espe­tá­culo é a rela­ção social entre pes­soas medi­ada por ima­gens” sur­pre­ende não só por acu­ra­da­mente des­cre­ver o Face­book com quase cin­quenta anos de ante­ci­pa­ção, mas por­que é o tipo de sen­ti­mento que o Face­book pro­cura impri­mir na sua pró­pria publi­ci­dade. Pode­ria ser o seu slogan.

Nenhuma expe­ri­ên­cia nos parece real­mente vivida até que pos­sa­mos dizer “já pos­tei”. Tudo que era antes vivido dire­ta­mente tornou-​​se mera representação.

Para Debord, a soci­e­dade do espe­tá­culo foi o modo natu­ral que a classe cor­po­ra­tiva encon­trou para garan­tir que não seria ela mesma der­ru­bada pela revo­lu­ção, como havia acon­te­cido com a classe domi­nante que a pre­ce­deu. Trata-​​se de solu­ção engen­drada pela bur­gue­sia “ao des­co­brir que, a fim de esta­be­le­cer seu pró­prio domí­nio incon­tes­tado, pre­ci­sava res­tau­rar a pas­si­vi­dade que havia tão pro­fun­da­mente aba­lado ela mesma”.

Nossa soci­e­dade da con­tem­pla­ção de ima­gens (lite­ral­mente, uma soci­e­dade que con­some o ima­gi­ná­rio) garante à classe domi­nante a sua con­ti­nui­dade – isto é, con­ti­nu­a­re­mos a ven­der – e a con­ti­nui­dade do seu mundo – enquanto está entre­tida con­su­mindo espe­tá­culo não ocor­rerá à popu­la­ção pagar os ris­cos da ver­da­deira revo­lu­ção[1].

A soci­e­dade do espe­tá­culo prevê um pro­cesso que, a fim de pro­te­ger ade­qua­da­mente o sis­tema, deve ser inin­ter­rupto, rege­ne­ra­dor e auto­con­fir­ma­tó­rio. Pense nos seri­a­dos de tele­vi­são e de cinema: o novo epi­só­dio da série _​_​_​_​_​_​_​_​_​_​_​_​_​ deve ser lan­çado em _​_​_​_​_​_​_​_​_​_​_​_​_​, e se for bom como _​_​_​_​_​_​_​_​_​_​_​_​_​_​_​ temos um sucesso nas mãos. Pense nos lan­ça­men­tos de novas linhas de smart­fone, que fun­ci­o­nam pre­ci­sa­mente sob a mesma lógica. Pense no seu mural do Face­book: con­ti­nue rolando a página; Mar­cos Bos­car­dini Gon­çal­ves comen­tou a sua foto; cli­que aqui para juntar-​​se às 3.212 pes­soas que já cur­ti­ram esta página. Inin­ter­rupto, rege­ne­ra­dor e autoconfirmatório.

Essas três carac­te­rís­ti­cas pro­du­zem a ilu­são, abso­lu­ta­mente fun­da­men­tal para o sus­tento da farsa, de que esta­mos vivendo uma cul­mi­na­ção da his­tó­ria – que vive­mos de algum modo fora e acima do tempo. As novi­da­des tec­no­ló­gi­cas nos atraem com par­ti­cu­lar inten­si­dade por­que nos dei­xam livres para dei­xar o pas­sado para trás. Não deve­mos sen­tir que deve­mos alguma coisa ao pas­sado: con­su­mi­mos his­tó­ria con­su­mindo o novo iPhone, mas des­car­ta­mos a his­tó­ria quando des­car­ta­mos o velho. Debord:

A classe dominante, composta por especialistas em possuir coisas, e que são portanto eles mesmos possuídos pelas coisas, vê-se forçada a vincular o seu destino à preservação dessa modalidade “concretizada” de história, isto é, à preservação de uma nova imobilidade dentro da história.

As ima­gens em suces­são cum­prem a mesma fun­ção, seja no mural do Face­book ou no novo e piro­téc­nico lan­ça­mento do cinema. Pas­sam em suces­são de modo a manter-​​nos imó­veis. Silên­cio que estou assis­tindo. O Tiago e a Maura pos­ta­ram as fotos do chá de bebê.

Com a pro­messa de nos levar a novos luga­res, a soci­e­dade do espe­tá­culo vai garan­tindo a imo­bi­li­dade que é a sua garantia.

Trata-​​se de uma sedu­ção antiga, que come­çou a ope­rar e a entranhar-​​se em nós muito antes da entrada em cena da inter­net. Para­do­xal­mente, o pri­meiro grande emblema moderno da imo­bi­li­dade imposta/​oferecida ao público pelas cor­po­ra­ções foi o…

con­ti­nua

[1] Sem contar que, como experimentamos hoje mesmo no Brasil, a revolução pode sempre ser com muita facilidade anulada em espetáculo.

Paulo Brabo
[via A Forja Universal]

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