A dupla face da liberdade

“Quem, em um mundo em que pode dispor de tudo, não foi vítima da vertigem? O assassino faz um uso ilimitado de sua liberdade e não pode resistir à ideia de seu poder. Está dentro das possibilidades de cada um de nós tirar a vida de outro. Se todos os que matamos em pensamento desaparecessem de verdade, a Terra não teria mais habitantes. Trazemos em nós um carrasco reticente, um criminoso irrealizado. E os que não têm a audácia de confessar suas tendências homicidas, assassinam em sonhos, povoam de cadáveres seus pesadelos. Ante um tribunal absoluto, só os anjos seriam absolvidos. Pois nunca houve ser que não desejasse – ao menos inconscientemente – a morte de outro ser. Cada qual arrasta atrás de si um cemitério de amigos e inimigos; importa pouco que esse cemitério seja relegado aos abismos do coração ou projetado à superfície dos desejos.”

Cioran em Breviário de decomposição

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