Freud estava errado

“Em qualquer discussão sobre a integração de religião e personalidade, o importante não é saber se a própria religião contribui para a saúde ou a neurose, e sim que espécie de religião e como é usada. Freud estava errado ao sustentar que religião é por si uma neurose compulsiva. Algumas são, outras não. Qualquer setor da vida pode ser utilizado como neurose compulsiva: a filosofia pode ser uma fuga da realidade para um “sistema” harmonioso, proteção da ansiedade e das desarmonias do dia a dia, ou pode ser um corajoso esforço para compreender melhor a realidade. A ciência pode ser utilizada como fé rígida e dogmática, por meio da qual a pessoa foge à insegurança emocional e às dúvidas, ou pode ser uma busca sincera de novas verdades. Desde que a fé na ciência tem sido mais aceitável nos círculos intelectuais de nossa sociedade e está, portanto, menos apta a ser questionada, é bem possível que em nossos dias esta fé represente com mais frequência o papel de fuga compulsiva das incertezas do que a própria religião. Freud, contudo, estava tecnicamente certo ao fazer a pergunta correta em relação à religião: ela aumentará a dependência e manterá o indivíduo infantilizado?”

Rollo May em O homem à procura de si mesmo

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