Para desenhar um círculo

No décimo-​​sexto volume de Vidae zu santi della Bra­si­li­cata de Giu­seppe di Ans­ci­etta está escrito que São Coro de Minân­cia tinha uma espada que só levan­tava para deter os que o admi­ra­vam. “De todas as mis­sões que Deus outor­gou a cada homem, a maior e mais urgente é dis­su­a­dir qual­quer outro homem de segui-​​lo (Ora­ção à treva que pre­cede a aurora, XII, V)”.

Está dito que São Coro só achava inte­res­san­tes os peca­do­res, só encon­trava pra­zer na pre­sença dos que o toma­vam por pes­soa comum e temia e detes­tava como o diabo os que o admi­ra­vam. “Não há volume da Bibli­o­teca Infer­nal que não trate da arte de expres­sar admi­ra­ção […] Só quem crê em si mesmo mais do que em mim tem o direito de me seguir”.

Todas as noi­tes era acor­dado em plena madru­gada, com um tapa ou com um beijo, por um de seus dis­cí­pu­los, sendo que enquanto dor­mia um sor­teio deter­mi­nava o dis­cí­pulo e a moda­li­dade de des­per­tar que lhe cabe­ria naquela noite. Segundo Munhaça de Bê, a fun­ção dessa dis­ci­plina era ensi­nar que o homem nunca sabe quando será encon­trado pela morte ou pelo amor (não havendo outro regis­tro ou tes­te­mu­nho con­tem­po­râ­neo, a tra­di­ção tra­tou de deter­mi­nar que o beijo repre­sen­tava a morte e o tapa o amor).

Uma vez des­per­tado, São Coro ves­tia sua rede e cami­nhava pelo mundo até o ama­nhe­cer, sendo que não havia outra coisa que amasse mais do que a madru­gada. A Munhaça con­tou que tinha sido a madru­gada a convencê-​​lo da exis­tên­cia da divin­dade: “se tives­sem me falado, se eu não tivesse visto com os olhos e expe­ri­men­tado com o cora­ção, a madru­gada teria me soado coisa mais ina­cre­di­tá­vel do que Deus.”

Na opi­nião do santo de Minân­cia, Deus criou a madru­gada para que todo homem pudesse, que­rendo, cami­nhar pelo mundo e expe­ri­men­tar o mundo como o expe­ri­menta Deus. A noite é o mundo avesso (e por­tanto direito) em que todos se dobram, em que todos comun­gam: em que dor­mem abra­ça­dos, sem saber, ami­gos e ini­mi­gos, san­tos e peca­do­res, víti­mas e algo­zes. A madru­gada é um mundo de plena graça em que os homens ape­nas exis­tem, livres de rótu­los e de des­ti­nos, de com­pro­mis­sos e de pos­ses, de méri­tos e demé­ri­tos, de títu­los e de papéis a desempenhar.

De todos os dita­dos atri­buí­dos ao santo, nenhum é mais fre­quente do que este: “Avan­çando sem­pre, um homem pode dese­nhar sobre a terra um cír­culo; para dese­nhar uma cruz é pre­ciso vol­tar atrás”.

Paulo Brabo

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