A aparência de diálogo

“A superficialidade e o narcisismo sempre fizeram parte da história da literatura e da palavra escrita; a verdadeira contribuição da internet está em ter universalizado a agressividade arbitrária e o rancor pré-estabelecido. Na internet não basta discordar, o que é considerado insuficiente e de baixo calado; a verdadeira norma, se você quer ser levado a sério, é pisotear, ridicularizar e agredir. A onipresente caixa de comentários, que ameaça em blogues e fóruns de discussão e poderia ter transformado todos em colaboradores, transforma todos em antagonistas. Não basta contra-argumentar, é preciso destilar veneno. Não basta apontar discordo inteiramente de você, é preciso deixar bem claro eu te desprezo. Não basta vencer, é preciso tripudiar. Não basta opinar, é preciso comparar a Hitler. Abolimos até mesmo os recursos de estilo que temperavam o sarcasmo de gente enfezada como Lutero; abolimos as 38 maneiras de se vencer uma argumentação. O que resta, de modo geral, é a perversidade mais crua não diminuída por complicações de lógica ou de estilo. Não importa que seu próprio argumento seja inexistente; você não vai deixar de condenar seu oponente como simplista. Não importa que você não tenha entendido; você não perderá a oportunidade de dizer odiei.”

Paulo Brabo

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