O Evangelho é insuportável

“Quem ganha guerras amando o inimigo? Quem vai a qualquer lugar se perdoa sempre? Quem lucrará de modo capitalista se fizer aos outros antes aquilo mesmo que deseja que os outros façam a ele? Em que sociedade o maior deve ser o menor, e o último o primeiro? Em que filosofia o caminho do ser é o de se fazer como uma criança? Quem prosperará se não se inquietar com o dia de amanhã? Quem sobrevive sendo verdadeiro sempre? Quem vai a qualquer lugar se não aliar-se aos poderes vigentes? Quem se satisfaz sendo tão discreto que a mão direita não pode nem se gabar do que fez a esquerda? Quem consegue ser tão livre, que simplesmente não reconheça fronteiras, e que se sinta bem-vindo em qualquer lugar onde for bem-vindo, pois, não conhece o preconceito? Quem não se amargurará também ao não ser recebido pelos seus próprios? Quem tendo todo o poder decide não usa-lo? Quem podendo se impor apenas deixa “chegar a hora”? Quem podendo esmagar se deixa antes executar? Quem podendo dar um show que agilize o caminho, preferirá ao invés andar nos desertos, e associar-se a gente pequena, e dedicar a sua vida à cura dos doentes de corpo e alma? Quem podendo curar, curando proíbe os curados de falarem que foi dele que veio o benefício? Quem sacrificaria um jantar com amigos ricos para oferecer uma ceia para mendigos e desconhecidos probretões? Quem faz do amor um caminho de transgressão ante os olhos dos juizes da moral, e, ainda assim, jamais não negocia o que sabe ser verdade e bom? Quem confia ao Pai a própria vida, e aceita todo e qualquer absurdo, e, ainda assim, sabe morrer entregando ao Pai o espírito?

Sim, para muitos, senão para todos, o Evangelho é insuportável, e, por isto, mesmo quando todos dizem que ele está certo, ainda assim ninguém se aventura a leva-lo à sério.”

Caio Fábio

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