Que Deus invocar?

“Ouvimos um ruído. Alguém se dirigia para a sala. A sra. de Tourvel, apavorada, levantou-se às pressas, apanhou uma das tochas e saiu. Não houve como impedi-la. Era apenas um criado. Assim que me certifiquei, fui atrás dela. Mal dera alguns passos e, quer por ter me reconhecido, quer por um vago sentimento de pânico, ouvi-a apressar o passo e se jogar, mais do que entrar, em seus aposentos, fechando a porta atrás de si. Fui até lá, mas a chave estava por dentro. Tive o cuidado de não bater: seria dar-lhe pretexto a uma resistência demasiado fácil. Tive a simples e feliz ideia de olhar pelo buraco da fechadura e, com efeito, vi essa adorável mulher de joelhos, banhada em lágrimas e rezando com fervor. Que Deus ousava invocar? Existirá algum que tenha poder contra o amor? Em vão clama ela agora por socorro alheio; sou eu quem decidirá sua sorte.”

Choderlos de Laclos em As relações perigosas

Anúncios