O essencial na educação

“O primeiro olho se abre para o mundo. É nele que nascem ciência e técnica, como extensões de olho e mão. Os conhecimentos do mundo do primeiro olho nos dão meios para viver. Sem eles não sobreviveríamos. Mas eles não têm o poder de nos dar alegria.

O segundo olho se abre para nesse imenso universo interior a que damos o nome de alma. É nesse mundo que moram o amor, a bondade, a beleza. Nele se encontram as fontes da alegria.

[…]

Os critérios que se usam para avaliar nossa educação, na medida do meu conhecimento, são sempre critérios relativos ao primeiro olho: procura-se medir o quanto os alunos memorizaram dos saberes sobre o mundo. Digo “memorizaram” e não “aprenderam” porque aprender tem a ver com o uso dos saberes no cotidiano, saberes como ferramentas. E não conheço testes que se preocupem com isso. Nossos testes são exclusivamente verbais. Pressupõe-se que quem sabe a palavra certa sabe a vida. Mas isso não é verdade.

Eu acho, ao contrário, que o essencial na educação é a formação de pessoas mais sensíveis, mais abertas à beleza, mais preocupadas com o destino do mundo, mais desejosas de deixar um mundo melhor para as futuras gerações. Isso, estou convencido, não pode ser feito pela ciência. Minha esperança é de que a poesia possa fazê-lo.”

Rubem Alves em Lições de Feitiçaria

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