A morte de um amor

“Eis a verdade: quem experimenta o verdadeiro amor já não sabe viver sem ele.
Cabe então a pergunta: pode-se saber quando um amor morre ou, por outra, quando o amor começar a morrer? Nem sempre são as grandes causas que liquidam o amor. Às vezes, ou quase sempre, o que decide é a soma de pequeninos motivos. Um incidente mínimo pode valer mais que um insulto grave, uma ofensa mortal. Por exemplo: um bate-boca. Eu vos digo que é no primeiro bate-boca que o sentimento amoroso começa a morrer.
Comecei, aqui mesmo, nesta coluna, o caso daqueles namorados da Tijuca (da Tijuca ou da Haddock Lobo, não me lembro bem). Era um amor de novela, de filme. “Nasceram um para o outro”, diziam. E era tal o agarramento que, certa vez, no cinema, o vaga-lume incidiu sobre eles a lanterna. Houve ali um pequeno escândalo, felizmente abafado. Mas como eu ia dizendo: todo mundo estava convencido de que nada alteraria aquele amor, assim na terra como no céu. Até que, uma tarde, ele tem uma pequenina impaciência com a bem-amada, e deixa escapar um “não chateia”. Parece pouco. E foi muito, foi tudo. Essa interjeição ordinária, essa expressão vil era uma mácula definitiva. Naquele justo momento, o amor adoeceu para morrer. Todos os fracassos matrimoniais vêm da soma – repito -, da soma de todos os “não chateia”, de todos os “não amole”, que vamos largando pela vida. A mulher que é simplesmente chamada de “chata” teria preferido uma ofensa mais grave e mais brutal.
Eu sempre digo que não é na recepção do Itamaraty que devemos ser perfeitos. Não. Devemos reservar o melhor de nós mesmos, de nossa delicadeza, de nossa cerimônia, de nosso charme, para a mais secreta intimidade do lar. É menos grave chamar de “chato” um embaixador, um ministro, do que o namorado, a noiva, a esposa, o marido. Se respeitássemos o nosso amor, não seríamos tão solitários e tão malqueridos.”

Nelson Rodrigues em Nelson Rodrigues por ele mesmo

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