Eulália

“Dou um suspiro quando o cântico termina, não consigo evitar um olhar fugidio na direção de Eulália e, sentindo-me o próprio padre Roque, começo a liturgia. Todavia, algo se quebrou dentro de mim. Ergo a hóstia como sempre fiz, já por anos, olhando-a fixamente, repito como sempre as mesmas palavras, mas é como se a realidade daquele gesto estivesse ausente. Lembro-me, de súbito, e é uma lembrança incômoda em semelhante momento, do ventríloquo que vi uma vez, quando criança: o boneco mexia a boca por artes do homem que o segurava, mas qualquer criança via nitidamente que a voz não saía dele. Eu era como o boneco do ventríloquo naquele instante: a realidade da graça de Deus tocava aquelas pessoas, mas não passava efetivamente por mim. Podia se dar, até mesmo, que eu ficasse totalmente alheio a ela, assim como o boneco nada sabe das piadas que o ventríloquo conta e que fazem a garotada rir. Esse pensamento gelou-me por dentro. Ser apenas um boneco de pau, estar alheio a tudo… Enquanto mantenho a hóstia erguida, a congregação repete a confissão litúrgica: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo”. Repeti baixinho essa frase e foram as palavras mais sinceras que pronunciei em toda aquela celebração.”

Rui Luis em A obra secreta da lembrança

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