A carne do espírito

“O amor, leitores e irmãos meus, é o que há de mais trágico no mundo e na vida; o amor é filho da ilusão e pai da desilusão; o amor é a consolação na desolação, o único remédio contra a morte, da qual ele é irmão,

Fratteli, a um tempo stesso, Amore e Morte
Igeneró la sorte

como cantou Leopardi.
O amor busca com furor, através do objeto amado, alguma coisa que está além dele; e como não a encontra, desespera. Sempre que falamos de amor, temos presente na memória o amor sexual, o amor entre o homem e a mulher, para perpetuar a raça humana sobre a Terra. E é isto que faz com que não se consiga reduzir o amor, nem ao puramente intelectivo, nem ao puramente volitivo, deixando o sentimental ou, se assim o quiserem, o sensual. Porque, no fundo, o amor não é ideia nem volição: é antes desejo, sentimento; é algo de carnal, até mesmo no espírito. Graças ao amor, sentimos o que de carne há no espírito.”

Miguel de Unamuno em Do sentimento trágico da vida

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