Atores de nós próprios

“Compreende-se que nada nos interesse tanto na nossa convivência com o outro como descobrir o seu mundo de valores, o seu sistema de preferências, que é a raiz última da sua pessoa e alicerce do seu caráter. Do mesmo modo, o historiador que pretenda compreender uma época deve, antes de mais, determinar a tabela de valores dominantes nos homens desse tempo. Caso contrário, os fatos e depoimentos da época que os documentos atestam serão letra-morta, enigma e charada, como o são os atos e as palavras do nosso semelhante enquanto não formos para além deles e entrevirmos os valores a que obedecem no seu fundo mais secreto. Esse fundo, esse núcleo do coração é, com efeito, secreto: é-o em boa parte para nós mesmos, que o trazemos dentro de nós, ou melhor, que somos levados por ele. Atua na penumbra subterrânea, no mais fundo da personalidade, e é-nos tão difícil entendê-lo como difícil é ver o palmo de terra que pisam os nossos pés. Tão-pouco a pupila se pode contemplar a si mesma. Além do mais, boa parte da nossa vida consiste na comédia, bem intencionada, que representamos a nós próprios. Fingimos modos de ser que não são os nossos, e fingimo-los sinceramente, não para enganar os outros, mas para nos mascararmos perante o nosso próprio olhar. Atores de nós próprios, falamos e agimos movidos por influências superficiais que o contexto social ou a nossa vontade exercem sobre o nosso organismo e que suplantam momentaneamente a nossa vida autêntica. Se o leitor dedicar um instante à análise de si mesmo, descobrirá com surpresa, talvez com espanto, que grande parte das suas opiniões e sentimentos não lhe pertencem, não brotaram espontaneamente do seu fundo pessoal, mas que são coisa pública, caída do contexto social na sua esfera mais íntima, como o pó do caminho cai sobre aquele que passa.”

Ortega y Gasset em Estudos sobre o Amor

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