Quanto mais você amou

“Porque no fundo você nunca espera a dor terrível que significa o corpo do outro parar. E eu tive essa experiência trágica de perder Elza no meu corpo, no meu peito. E foi uma coisa dramática. Eu senti um desgosto de viver. Houve uma ruptura enorme que se pôs diante de mim, entre mim e o mundo, entre mim e a vida. E eu me desencantei. E me amofinei. E meus filhos, meus amigos mais próximos, mais íntimos, duvidavam até de se eu era capaz de dar o salto depois. É interessante.
Sabe, hoje estou convencido, possivelmente até muita gente estranhou, que tendo vivido tão intensa e plenamente com Elza por 42 anos, que eu me casasse de novo. Possivelmente, todo mundo tem direito a fazer conjecturas em torno da vida dos outros. E, possivelmente, até eu, que se não fosse comigo, poderia ter feito essa conjectura, como outro qualquer. Depois de ter experimentado o que eu experimentei, nunca mais eu faço essa conjectura com outro qualquer. E eu hoje estou convencido de que quanto mais você amou, tanto mais você pode continuar a amar. E quanto menos você pôde amar, tanto menos você continua a poder amar. A minha experiência com Elza tinha sido uma experiência tão plena, tão enorme e tão fantástica, que eu não pude ficar só. Não dava. Quer dizer, eu tinha que continuar amando. Mas, pra que eu continuasse a amar, era preciso que eu sepultasse Elza. E o que eu quero dizer com isso é que ela já havia sido sepultada no dia seguinte ao da sua morte. Mas você pode sepultar uma pessoa em 1992, e manter a pessoa viva até o ano 2000, 2010. Você passa a ter uma experiência necrofílica. E você deixa de amar a vida, e passa a amar a morte. Da tentativa de ressuscitar o morto, que não dá, porque o teu poder não é suficiente para plenamente ressuscitar o morto. Então, é preciso sepultar o grande amor, é preciso reconhecer ou assumir a ausência dele. No momento em que você assume a ausência, a ausência muda de qualidade. Já não é uma ausência dramática e dolorida, porque passa a virar uma presença remota. A ausência se veste de uma saudade risonha, em que você convive com a positividade do passado. Aí você está disposto de novo a reabrir-se ao mundo.”

Paulo Freire em Pedagogia da Tolerância

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