O doce mal de que sofremos ao amar

“O famoso verso de Aragon, “Não existe amor feliz”, é ao mesmo tempo muito bonito e muito falso: ele adota a respeito de todo relacionamento o ponto de vista do fim. A sentença cai, inexorável, e pretende ser inapelável. Se a questão é dizer que todos nós morreremos um dia e que a felicidade absoluta é inacessível aos humanos, o verso arromba portas inteiramente abertas. Se não existe amor feliz, como explicar que tantas pessoas, recém-saídas de uma história dolorosa, sonhem de novo em se tornar dependentes de um tirano tão enfeitiçante quanto perigoso? É preciso sustentar o inverso: todo amor é feliz enquanto dura, mesmo que a paixão se apague um dia. Por que cismar em conspurcar e espezinhar o que talvez não dure, depreciar o que Péguy chamava de a “pungente grandeza do extinguível”? O que dois seres se dão de mais bonito não são apenas seus corpos, seus prazeres, seus talentos mútuos, é uma história que não se parece com nenhuma outra, que os unirá para sempre mesmo que acabem se deixando.
Múltiplas alegrias do casal: viver sob o olhar enternecido do outro, contar com seu ouvido amigo, consumar grandes coisas juntos, ousar a dois o que não se ousa fazer sozinho. Estou salvo uma vez que o ser amado está a meu lado e se torna testemunha de meus menores atos. Virtude da vida a dois: a indulgência. Ser aceito tal como sou, com minhas fraquezas, sem ser fulminado. Suspensão do veredicto. Poder abandonar minha imagem, enquanto na sociedade, em público, preciso estar sempre provando alguma coisa. A preguiça que dá deixar esse casulo de bem-estar para se tornar um animal social, colocar uma máscara, mostrar-se engraçado, articulado. Sedutora possibilidade de ser idiota a dois, de tagarelar, de falar bobagem sem incorrer nos raios da censura, de dar ao outro nomes carinhosos que concorrem com o estado civil.
Na harmonia conjugal, o sentimento expressa-se por si mesmo, põe-se em cena, faz-se volúvel, eloquente. A vida a dois é rotina, mas rotina feliz, promessa de segurança. Doçura das coisas familiares, prazer de reencontrar todos os dias o ser amado a meu lado. Não esmagá-lo com minha afeição, não atrapalhá-lo, estabelecer a mais forte intimidade no intervalo mais adequado. Tenho necessidade do outro junto de mim para não pensar mais nele e para que ele pare de me importunar com sua ausência.
Quanto ao sofrimento amoroso, ele é indissociável da felicidade, nosso desgosto nos agrada e nos faria falta se desaparecesse, delícias e dores misturadas. Pode-se até espezinhar o amor, maldizê-lo, deleitar-se com o páthos fácil, mas nada impedirá que ele e somente ele nos dê o sentimento de viver na alturas e de condensar, nos momentos em que nos enfeitiça, as etapas mais preciosas de um destino. Talvez a paixão esteja fadada ao infortúnio, mas é um infortúnio muito maior nunca ter se apaixonado.”

Pascal Bruckner em O Paradoxo amoroso

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