Amar assim

“Existe finalmente um eu te amo de pura oblação, como o dos pais para o filho: ato de fé cotidiano que é um dom sem retorno. “Você é um milagre de que eu não me canso; sua existência é o mais belo presente que recebi.” Dizer isso não é subjugar o outro por um juramento, é liberá-lo de qualquer dívida a nosso respeito. Paradoxo de uma oferenda que de nada despoja o doador, enriquecendo-o, ao contrário, além de qualquer possessão. Amamos nossos filhos para que nos deixem um dia, nós os cobrimos de cuidados para prepará-los para a autonomia. Regozijamo-nos com suas alegrias, seus sucessos são os nossos, seus sofrimentos nos ferem pessoalmente. Eles não nos pertencem, não nos devem nada e vão nos deixar quando chegar o momento. Na fragilidade do homem pequeno, o amor lê sua própria fraqueza, seu caráter mortal: ele mesmo é uma delicada centelha de vida pronta para ser acesa. Amar assim é consentir em perder o outro, mesmo que isso implique nossa infelicidade – nada é mais triste do que uma casa de família sem família -, é emancipá-lo de nossa custódia, não investi-lo do mandato impossível: a reciprocidade.”

Pascal Bruckner em O Paradoxo amoroso

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