Na democrática liturgia da vida

Nenhuma aridez – salvo as que se aleitavam muito naturalmente no solo palestino. Nenhuma palavra escrita – salvo as que se danaram na ingovernável dança das areias. Aos olhos do Carpinteiro – e creio não ser demasiado lembrar – Deus não se explicava em sistemas ou teologias, em abstrações refinadas e conceitos áridos. Não era um objeto oculto cujo desvendamento exigia muito esforço e algum privilégio – qual queriam os fariseus, e qual ansiaram os gnósticos. E se ao sol não é dado desvelar novidades, como ainda querem os paladinos das ideias corretas.

Se Deus se deixar ver na aridez, será na aridez bastante concreta do deserto. Se conceder encontros consigo nas palavras, serão naquelas infectadas por essa doença do verbo a que chamam poesia – essa doença do Verbo a que chamam Encarnação. Em Jesus, Deus se revela na hora miraculosa da mesa – quando o pão se parte; se exibe desvestido no coito do arado com a terra. Bebendo nas águas da poesia judaica, Jesus fornece-nos a vívida imagem de um Deus cavalheiro, que isca os mais rudes corações com seus engenhos trovadorescos. Um noivo – um prodigioso amante – e o que é mais inconcebível: um amante de todos; mas só por ser, antes, um amante de cada um.

No universo do crente o ouro é o credo. Soada a trombeta, restará como moeda única (aqueles para quem tudo se resume aos mandamentos e ao seu estrito cumprimento, na economia da lei, são os bem-aventurados que herdarão o Reino). O Filho do Homem solicita a palavra e nos previne, não sem gentileza, com uma ressalva que é a suma de sua boa notícia: no universo dos amantes o ouro é outro – e aquele, o ouro dos crentes, é ruidosa palha, é som e fúria.

O Verbo se faz Carne. A prosa acata dolorosamente as setas da poesia. Em ato dramático, o amante abandona tronos e coroas e privilégios a fim de abraçar a condição plebeia da amada – e assim fitá-la nos olhos. Em ato de suprema mesura, o amante torna-se fabricante de móveis, admirador de lírios, e promete a instauração de seu Reino Eterno na terra onde rasteja a relha e onde o corpo lampeja – na terra dos mil e um desejos.

A eternamente mal compreendida cortesia da graça é também essa: a de não exigir da camponesa que escape de sua condição e se adapte aos modos severos da corte; a de não estabelecer, entre a camponesa e as delícias do Reino, obstáculos cuja transposição exigiriam da pobre jovem uma fuga de si mesma.

A cortesia da graça veio liberar os homens de serem deuses; liberá-los para um encontro com Deus na democrática liturgia da vida, onde as hierarquias não imperam e onde os paramentos revelam-se obsoletos. O Verbo se fez Carne a fim de que a carne não sangrasse e fizesse sangrar no disparatado intento de se fazer Verbo.

Alysson Amorim

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