O reino da leveza

Se há algo de ruidosamente libertador na graça é que ela destece o peso do mundo; desfaz sem recato os nós mais admiráveis que supostamente sustentam e vivificam a trama humana: méritos e privilégios, posses e hierarquias; classes, castas, pátrias, ideias, deuses. Tudo em farrapos. E o homem reconduzido a sua nua humanidade, já sem o peso e sem o abrigo dos milenares castelos de pedra.

O paradoxo e o escândalo já foram mencionados: ao destramar o peso do mundo o arauto da graça será por ele esmagado de um modo particularmente atroz; por desatar os nós da inclemência sua face nua conhecerá o ultraje. Moído pelo peso iníquo do mundo o poeta se verte ele próprio em poesia, ele próprio na agulha avessa e vertiginosa que sangrará as torres desse século – e concederá a todos um novo sopro, e com ele a esperança de um reino de leveza e suspensão.

Alysson Amorim

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