O homem da faca

Certa ocasião, quando o Marcelo Oliveira trabalhava ainda na ALL Comunicação, passei para entregar alguma ilustração perto do meio-dia e ele convidou-me para almoçar. O almoço era uma pizza que ele havia comprado e que deveríamos repartir numa daquelas mesas de concreto onde ninguém joga xadrez no Jardim Ambiental.

Assim que nos acomodamos numa das mesas da praça solitária e abrimos a caixa, descobrimos que, ao contrário do que o Marcelo havia encomendado, a pizza não tinha vindo fatiada.

– Eu forneci a pizza – o Marcelo sorriu. – Agora você consegue a faca.

O Jardim Ambiental é uma espécie de praça central que se estende por várias quadras de uma rua residencial de Curitiba. Escolhi uma casa próxima e bati a campainha. Um homem abriu logo metade da porta, a expressão no rosto de quem tinha inequivocamente tido o seu almoço interrompido. Pedi desculpas pelo incômodo e expliquei, de modo que deve ter soado inevitavelmente confuso e suspeito, que eu e o meu amigo tínhamos uma pizza mas estávamos precisando de uma faca para fatiá-la. Será que ele podia, não lembro exatamente.

O homem fez sinal que eu esperasse e desapareceu por uns instantes na casa escura e soando a bater de talheres, mas deixou a porta entreaberta. Ele voltou trazendo uma faca e um garfo, andou até o gradil, abriu desnecessariamente o portão e entregou-me o garfo primeiro. Antes de passar-me a faca o homem virou-a para segurá-la pelo fio, de modo que eu pudesse pegá-la pelo cabo, no gesto tradicional para “não considero você uma ameaça”.

Hesitei um instante com o cabo da faca na mão, muito incerto de ter sido digno daquela civilidade, depois agradeci e voltei para a mesa.

Comemos debaixo da sombra das árvores e conversamos sobre Tolkien, Lovecraft e outras coisas admiráveis.

Limpei os talheres o melhor que pude e bati na casa novamente. O mesmo homem veio rapidamente atender, e devolvi por uma fresta do gradil o garfo e a faca, tomando o cuidado de fazer como ele havia feito.

Paulo Brabo