Homens naturais

“Nós, homens naturais, somos treinados a enxergar no outro apenas a maçante infelicidade que representa para ele não ser nós mesmos; tudo que vemos no próximo é o infortúnio que deve ser para ele não compartilhar da nossa integridade e não fazer parte do nosso grupo. Pensamos “pobre aleijado”, “pobre mendigo”, “pobre menina rica”, e em tudo isso o que fazemos é apenas celebrar a nós mesmos e o que vemos de admirável em nossa condição. O que consegue efetuar essa perversa compaixão é apenas consolidar a barreira de segurança entre nós e os demais.

A homens naturais o acaso apavora, porque ele denuncia o fato de que só estamos prontos para oferecer respostas condicionadas. Não temos espaço de manobra para as contingências e as tememos como ao diabo, porque sabemos que elas revelarão invariavelmente as nossas falhas. Os homens e mulheres do reino, no entanto, despiram-se das condutas acessórias e de tudo que pode afastá-los do Não-condicionado; nada tem a perder, pelo que nada pode colocar-se no seu caminho sem ser despedaçado pela sua integridade, ou ser irresistivelmente restaurado por ela.”

Paulo Brabo

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