Natureza pecaminosa

“E, ademais, ocorre constantemente o seguinte: há homens que parecem racionais e sensatos, sábios e virtuosos, e cujo objetivo é levar uma vida regrada e honesta, para agir pelo exemplo sobre os seus semelhantes, para provar-lhes que se pode viver moral e racionalmente neste mundo. Mas o que acontece então? Sabe-se que muitos desses virtuosos acabam mais tarde contradizendo-se e tornando-se personagens de histórias escandalosas. Agora eu vos pergunto: o que se pode esperar do homem, dessa criatura dotada de tão estranhas qualidades? Derramai sobre ele todos os bens do mundo: mergulhai-o de cabeça na felicidade, tão profundamente que só apareçam à superfície algumas bolhas de ar, satisfazei suas necessidades econômicas a tal ponto que ele nada mais tenha que fazer senão dormir, comer bolos e pensar na perpetuidade da história universal – pois bem, mesmo nesse caso, o homem, por pura ingratidão, pela necessidade de se sujar, cometerá, à guisa de agradecimento, uma torpeza qualquer. Correrá até o risco de perder seus bolos e procurará deliberadamente as bobagens mais arriscadas, os absurdos mais desvantajosos, apenas para misturar a esse bom senso tão positivo seu pernicioso elemento fantástico.”

Fiodor Dostoievski em Notas do Subterrâneo

 

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