A família

“E uma vez que houve amor, que se casaram por amor, por que há de deixar de existir o amor? Certamente é possível mantê-lo vivo! É raro que não se mantenha. E se o marido for bom e honesto, por que não há de durar o amor? Passa, é verdade, a primeira fase do amor conjugal, mas depois vem um amor melhor ainda. Depois vem a união das almas: terão tudo em comum, entre eles não haverá segredos. E quando tiverem filhos, os tempos mais difíceis lhes aparecerão venturosos, desde que haja amor e coragem. Até o trabalho será uma alegria; você se privará do pão para dá-lo a seus filhos, e mesmo isso fará alegremente. Irão amá-la por isso mais tarde, e portanto você está construindo para o futuro. Quando as crianças crescem, você sente que é um exemplo, um apoio para elas; e que mesmo depois de morto seus filhos guardarão seus pensamentos e sentimentos, porque os receberam de você, e serão feitos à sua imagem e semelhança. Portanto, esse é um grande dever que não pode deixar de aproximar o pai e a mãe. Dizem que ter filhos é uma aprovação. Quem diz isso? É uma felicidade celestial! Gostas de criancinhas, Lisa? Eu sou louco por elas. Imagina um bebê rosado no teu seio: que coração de marido não se sentirá tocado ao ver a esposa amamentando o filho? Um bebê rosadinho, esparramado e aconchegado, mãozinhas roliças, unhas úmidas bem limpas, tão miúdas que causa riso vê-las, olhos que parecem entender tudo. E enquanto mama ele brinca com teu seio, repuxando-o. Quando chega ao pai, o bebê se desprende do seio, joga-se para trás, olha para o pai, ri, como se aquilo fosse imensamente engraçado, e recomeça a mamar. Ou morde o seio da mãe quando os dentinhos despontam espiando-a de lado como que a dizer: “Olha, estou mordendo!” Não é isso a felicidade completa, estarem todos os juntos, o pai, a mãe e a criança? Tais momentos podem fazer perdoar muita coisa. Não, Lisa, antes de acusar os outros, é preciso que nós mesmos aprendamos a viver!”

Fiodor Dostoievski em Notas do Subterrâneo