Ainda não amadureceu

“[…] o amor provado, indiscutível, não só confirma ou corrobora no ser aquele a quem se dirige, mas o faz com tal franqueza e radicalidade que o ser amado passa a ser imprescindível para tudo, desde as coisas mais pequenas e aparentemente instranscendentes até o conjunto do universo (também neste sentido é o nosso “todo”).
Ortega y Gasset expôs este aspecto com mestria, no parágrafo que reproduzimos a seguir dos seus Estudios sobre el amor: “Amar uma pessoa é estar empenhado em que exista; não admitir, na medida em que de nós dependa, a possibilidade de um universo do qual essa pessoa esteja ausente”.
Em função disso, poderíamos formular uma questão prática de enorme calado existencial. Poderíamos perguntar sobretudo aos esposos (e, de certa forma, também aos noivos): “Você é capaz de conceber a sua vida sem o seu cônjuge? Você consegue imaginar-se vivendo com relativa normalidade se ele ou ela vierem a faltar?”
Não se trata de que você não consiga refazer-se, com a ajuda de Deus e das restantes pessoas que lhe querem bem e lhe dão consolo, se por infelicidade vier a perder o marido ou a mulher; mas de que agora mesmo, neste preciso instante, você se sinta capaz de continuar a viver sem aquele a quem diz amar com loucura, que consiga imaginar-se sem ele. Se você responder que sim, que conseguiria, talvez seja o caso de suspeitar que o seu amor ainda não amadureceu tanto quanto seria de desejar.”

Tomás Melendo em O que significa amar?

O amor abrange

“O amor abrange: desde os atos mais transcendentes, como a oração e o sacrifício pelo ser amado, ou como o projeto conjunto e progressivo daquilo que virá a ser a vida conjugal e familiar, passando pelos sentimentos e afetos nos quais ressoa e se exterioriza o nosso carinho, até as questões aparentemente mais ínfimas e intranscendentes, como o empenho por mostrar-se elegante e atrativo; o esforço por sorrir com amabilidade; a carícia ou o olhar de carinho, mesmo nos momentos de cansaço ou nervosismo ou desalento; ou ainda os pequenos detalhes que tornam mais saborosos e entranháveis a volta ao lar e o descanso em família, que iluminam a existência cotidiana com brilhos fulgurantes de entrega, que encarnam e dão vida à íntima e escondida dedicação [dos que se amam]”

Tomás Melendo em O que significa amar?

Confiança e entrega

“Jesus fala do que vive. Como ele vive o que diz.
Assim Jesus não se preocupava com o dia de amanhã, ele não era ansioso. Com relação àquilo que vai acontecer, ele tem confiança e entrega tudo ao Pai. E isso me parece muito grave com relação ao nosso tempo, porque é a condenação mais radical. O homem moderno é indubitavelmente o mais armado de seguros, de investidas sobre o futuro, de segurança, de medicina, de garantias, e eis que parece ser o homem mais ansioso e mais apreensivo que já existiu. Ele tem medo. Jesus diz para ele não ter medo, e diz o por quê. Ele diz com a simplicidade da verdade como é possível viver sem essa ansiedade. Mas isso é precisamente o que o homem moderno não quer, ou melhor, não pode entender. Ele não pode deixar para o dia seguinte o seu segredo, não pode suportar não ter poder sobre ele. Tudo deve pertencer-lhe. Ele quer tudo. Ele cobiça a segurança e o futuro. E nessa mesma medida, ele morre de ansiedade. Ele quer ser o mestre em tudo, e por isso mesmo, a menor realidade que lhe escapa é insuportável para ele! Jesus não pretendia prever nada, assegurar nada, e por isso era tranquilo, em paz.”

Jacques Ellul em Se és o filho de Deus

Aquele que só pode ser dado pela presença

“Embora transmitamos conhecimento, perdemos o ensinamento mais importante para o desenvolvimento humano: aquele que só pode ser dado pela presença de uma pessoa madura e amorosa. Em épocas anteriores da nossa cultura, ou na China e na Índia, a pessoa mais valorizada era a que possuía as mais elevadas qualidades espirituais. O professor mesmo não era apenas, e nem sequer principalmente, uma fonte de informação: sua função era transmitir certas atitudes humanas. Na sociedade capitalista contemporânea – e o mesmo vale para a Rússia comunista -, os homens apontados como exemplo têm tudo, menos qualidades espirituais significativas. O homem médio admira essencialmente aqueles que lhe proporcionam uma sensação de satisfação substituta. Astros e estrelas do cinema, animadores de programas de rádio, colunistas, homens de negócio ou políticos importantes – são esses os modelos a emular. Sua principal qualificação para exercer essa função exemplar é, em geral, que tiveram êxito em se destacar. Mas a situação não parece de todo perdida. Se considerarmos o fato de que um homem como Albert Schweitzer tornou-se famoso nos Estados Unidos, se pensarmos nas muitas possibilidades de familiarizar nossos jovens com personalidades vivas e históricas que mostram o que os seres humanos podem realizar como seres humanos, e não como homens-espetáculo, se pensarmos nas grandes obras da literatura e da arte de todos os tempos, parece haver uma chance de criar uma visão do bom funcionamento humano e, portanto, uma sensibilidade ao mau funcionamento. Se não conseguirmos manter viva uma visão da vida madura, então estaremos de fato diante da probabilidade de ver nossa tradição cultural se arruinar. Essa tradição não se baseia principalmente na transmissão de certos tipos de conhecimento, mas de certos tipos de características humanas. Se as próximas gerações não virem mais essas características, uma cultura de cinco mil anos irá por água abaixo, mesmo se seu conhecimento for transmitido e desenvolvido.”

Erich Fromm em A arte de amar

A vida não tem objetivo

“O homem moderno se transformou numa mercadoria; ele experimenta sua energia vital como um investimento do qual deveria tirar o máximo lucro, considerando sua posição e sua situação no mercado das personalidades. Ele está alineado de si, de seus semelhantes e da natureza. Seu objetivo principal é a troca lucrativa de suas habilidades, de seu conhecimento e de si mesmo, de seu “pacote de personalidade”, com outros que procuram igualmente uma troca equitativa e lucrativa. A vida não tem objetivo, salvo o de ir em frente, nenhum princípio, salvo o de uma troca equitativa, nenhuma satisfação, salvo consumir.”

Erich Fromm em A arte de amar