Superficial

“Um tal pensador explica com seu pensamento uma outra coisa, e vejam, ele não compreende a si próprio; ele talvez faça um uso muito penetrante de seus dons naturais aplicando-os às coisas exteriores, mas em direção ao interior, muito superficial; e por isso todo o seu pensamento permanece (por mais profundo que pareça), mesmo assim, no fundo, superficial.”

Kierkegaard em As obras do amor

O que é a seriedade da vida?

“O que é a seriedade da vida? Se tu verdadeiramente te colocaste esta séria questão, então recorda como tu a respondeste para ti mesmo, ou permite-me que eu te recorde como foi que a respondeste. A seriedade é a relação de uma pessoa com Deus, onde quer que a ideia de Deus esteja presente naquilo que a pessoa faz, pensa ou diz, há seriedade, nisso há seriedade. Mas o dinheiro é o deus do mundo, por isso é que o mundo acha que tudo o que tem a ver com o dinheiro, ou tenha relação com o dinheiro, é seriedade. Olha só, aquele sábio nobre e singelo da Antiguidade não queria receber dinheiro por seu ensinamento, e o apóstolo Paulo preferia trabalhar com suas próprias mãos do que contaminar o Evangelho, e degradar sua missão de apóstolo e falsificar o anúncio da Palavra aceitando o dinheiro por isso. Como o mundo julga tal conduta? Poupemo-nos de perguntar tolamente como o mundo julga a respeito daquele nobre singelo e a respeito do santo apóstolo; pois o mundo agora aprendeu a repetir um tipo de elogio decorado sobre aqueles dois, como julga então a época atual? Ela julga esquisitice, ser exagero; ela julga que essa pessoa “carece de seriedade”. Pois ganhar dinheiro: isto é seriedade; ganhar muito dinheiro, mesmo que seja vendendo seres humanos, é seriedade; ganhar muito dinheiro graças a desprezíveis difamações, é seriedade. Anunciar algo de verdadeiro – desde que se ganhe bastante dinheiro ao mesmo tempo (pois o importante não é que seja verdadeiro, mas sim que se ganha dinheiro), isto é seriedade. Dinheiro, dinheiro: eis a seriedade. Assim somos educados desde a mais tenra infância, disciplinados para a ímpia adoração do dinheiro.”

Kierkegaard em As obras do amor

Sinal de perversão

“Os homens se corrompem quando eles, pelo rumor e pelo mexerico da cidade, por curiosidade, leviandade, inveja, talvez maldade, se habituam a tomar conhecimento das falhas do próximo. Seria decerto desejável que os homens aprendessem de novo a se calar; mas se é preciso ceder à tagarelice e portanto conversar fiado por curiosidade ou frivolidade, que seja sobre bobagens e trivialidades – as falhas do próximo são e deveriam ser coisas sérias demais para isso; mexericar por curiosidade, frivolidade, inveja, a respeito disso, é portanto um sinal de perversão. […] aquele que, contando as falhas do próximo, ajuda a corromper os homens, aumenta, sem dúvida, a multidão dos pecados”

Kierkegaard em As obras do amor

Tornar-se manifesto

“Ai, muitos acham que o julgamento é algo que ocorre para além do túmulo, e este também é o caso; mas esquecemos que o juízo está muito mais próximo e que ele ocorre a cada instante, porque a cada instante de tua vida, com efeito, a existência te julga; pois que viver é julgar-se a si mesmo, é tornar-se manifesto.”

Kierkegaard em As obras do amor

O amor da novidade, o amor da permanência

“O amor da novidade é um sinal de frivolidade, o amor da permanência é um sinal de profundidade. Mas é preciso ter um espírito singularmente forte para ater-se a uma realidade que é sempre idêntica a si mesma e para ser capaz de reconhecê-la e amá-la por trás de todas as formas transitórias que ela não para de nos mostrar, sem se deixar arrastar e seduzir por elas. Quem vive na mudança está sempre dividido de si mesmo, sempre pleno de temor e de nostalgia; quem vive num presente imóvel está concentrado e unificado. Só este último é capaz de conhecer a alegria verdadeira. O desejo e a insatisfação criam o tempo: o sábio o esquece porque o presente lhe basta; o santo o ultrapassa porque o presente lhe dá a eternidade.”

Louis Lavelle em A consciência de si

O valor de um homem

“O valor de um homem se mede pela potência de solidão que nele subsiste, mesmo em meio à sociedade, e pelo ardor interior que a alimenta. Toda nossa força e toda a nossa alegria nascem da solidão, e também toda a nossa riqueza, visto que não nos pertence senão o que continua a nos pertencer quando estamos sós.”

Louis Lavelle em A consciência de si