Li em 2015

12- O último dia de um condenado
Victor Hugo

11- Jesus, a biografia
Jean-Christian Petitfils

10- De verdade
Sándor Márai

9- O Deus poderosamente fraco da Bíblia
Étienne Babut

8- Nova História de Mouchette
Georges Bernanos

7- O Erro de Narciso
Louis Lavelle

6- Paulo de Tarso – História de um Apóstolo
Jerome Murphy-O’Connor

5- Joana, Relapsa e Santa
Georges Bernanos

4- Lanterna mágica
Ingmar Bergman

3- Podeis beber o cálice?
Henri Nouwen

2- Sinceridade e Autenticidade
Lionel Trilling

1- A Partitura do Adeus
Pascal Mercier

Nunca me perdoou

“Ela queria colocar a culpa em mim, nas minhas faltas constantes. Eu lhe cortei a palavra. Encarei-a e senti sua respiração na minha nunca, quando ela bufou “Assine!” naquela época. Vi seu sorriso depois de eu ter rasgado o contrato. Mostrei a ela os orçamentos errados, as premissas erradas, as interpretações erradas dos dados. Eu lhe mostrei os erros, um por um. Eu os repeti. Eu os declamei. Eu acabei com Ruth Adamek, que nunca me perdoou por eu não ter caído nas graças de sua minissaia.”

Pascal Mercier em A partitura do adeus

Uma antiga história hindu

“Existe uma antiga história hindu: Um grande rei construiu um palácio, e as paredes eram revestidas de espelhos, milhões de espelhos. Entrar nesse palácio era maravilhoso. Você podia ver seu rosto em milhões de espelhos à sua volta; milhões de você à sua volta. Podia pegar uma vela – e milhões de velas; uma pequena vela ficava refletida em milhões de espelhos, e todo o palácio ficava completamente iluminado por uma pequena vela.
Uma noite aconteceu, por acaso, que um cão entrou ali. Olhou em torno e ficou muitíssimo assustado – milhões de cães! Ficou tão apavorado que se esqueceu completamente da porta por onde entrara. Naturalmente, com milhões de cães à volta – a morte era certa. E começou a latir – e milhões de cães começaram a latir. Ficou agressivo – e milhões de cães ficaram agressivos. E se atirou contra as paredes. Pela manhã, foi encontrado morto. E não havia ninguém, exceto o próprio cão.
E esta é a situação de todo o mundo. Você late, luta, ama, faz amigos e inimigos, e cada pessoa funciona como um espelho para você. Tem que ser assim. A menos que você desperte e compreenda quem você é, continuará a ver no espelho dos outros o seu próprio reflexo – a fazer amor com seu próprio reflexo e a lutar contra seu próprio reflexo. O ego é absolutamente masturbatório. É uma verdadeira masturbação – fazer tudo para si mesmo através de seus próprios reflexos.”

Osho em Antes que você morra

Contra a verdade não existe vitória

“Esse é o problema com todas as pessoas. Você sabe de muitas coisas, mas ainda quer fingir diante delas. E não há possibilidade de vencer a verdade; ninguém pode ser vitorioso. Você ainda pode tentar por muitas vidas mais, […] mas contra a verdade não existe vitória. A vitória está sempre com a verdade. Você pode criar ilusões, pode viver de olhos vendados, num mundo de sonhos, pode viver de olhos fechados, mas isso não faz diferença – seu mundo fictício é fictício, e a verdade está esperando ali. E quanto mais você viver na ficção, mais terá medo de que ela seja despedaçada. Essa é a conveniência.”

Osho em Antes que você morra

De içar voo

o coração aperta,
os dedos encolhem,
a mão não alcança.

cega de tato,
e imprecisa de si mesma,
não iça voo.

conclui-se não de um todo,
mas de metade ser;

há falência.

pena-se, então, em eminência
à beirar o cume,

tocar o outro,

esse é
o bater das asas.

Marlon Oliveira

Não há em mim amor, nem desejo de amor

“E ele é sempre o mesmo, apenas se tornou mais funda a ruga que tem entre as sobrancelhas, possui mais cabelos grisalhos nas têmporas, mas o seu olhar profundo e atento está continuamente afastado de mim por uma nuvem que o tolda. Eu sou a mesma, porém não há em mim amor, nem desejo de amor. Não há necessidade de trabalho, nem satisfação comigo mesma. E parecem-me tão distantes e impossíveis os antigos êxtases religiosos, o antigo amor por ele, a antiga plenitude da existência. Eu não compreenderia agora aquilo que antes me parecia tão claro e justo: ser uma felicidade viver para outrem. Por que para outrem, quando não se tem vontade de viver mesmo para si?”

Tolstói em Felicidade conjugal

O começo do fim

“A partir desse dia, transformaram-se completamente nossa vida e nossas relações. Não sentíamos o mesmo prazer de outrora em ficar a sós. Havia problemas que evitávamos com circunlóquios, e conversávamos mais facilmente em presença de um terceiro. Apenas se abordava a nossa vida na roça ou num baile, ficávamos atordoados e com vergonha de olhar um para o outro. Era como se ambos sentíssemos o lugar onde ficava o abismo que nos separava, e temêssemos aproximar-nos dele. Eu estava certa de que ele era orgulhoso e irritadiço e que devia tomar cuidado, a fim de não tocar nas suas fraquezas. Ele tinha certeza de que eu não podia viver longe da sociedade, que a vida rural não me aprazia e que era preciso submeter-se a este gosto infeliz. Ambos evitávamos conversas diretas sobre esses temas, e fazíamos juízo falso um sobre o outro. Havia muito tempo já que deixáramos de ser um para o outro a pessoa mais perfeita do mundo, já fazíamos comparações com gente conhecida e, em segredo, julgávamos um ao outro. […] Na sua ausência, senti vazio e solidão, mas, quando voltou, percebi que ele não acrescentava mais à minha vida o que lhe acrescentara outrora.”

Tolstói em Felicidade conjugal