Ódio organizado

“Por que odiares primitiva e espontaneamente, estimulado por um impulso que aparece em ti, semelhante a uma erva daninha crescida durante a madrugada pelo azar e capricho de uma terra não cuidada? O que descobria, juntamente com Marx, o final do século XIX é que o ódio pode ser organizado. Dito de outro modo, ele pode ser induzido, argumentado, explicado, teoretizado, previsto com um escopo, com um programa e posto de modo sistemático a trabalhar. Tudo isso pode fazer-se se o ódio demente de Caim for enquadrado por uma ideologia. Desde esse momento, ele passa a ter dignidade histórica e aura científica. E o crime que o acompanha é, a seu turno, enobrecido, porque a finalidade a que ele serve sonha com o bem para muitos e, no limite, para toda a humanidade. O ódio vazio tem a eficiência de um arco e flecha, de um mosquete que dá um único tiro. Previsto com ideologia, ele se torna uma arma com repetição.”

Gabriel Liiceanu em Do ódio

Duas situações existenciais

“[…] tenho de ver como me comporto quando tenho de recuperar uma distância e quando, comparando-me com o outro, verifico que me confronto com qualidades que me são superiores; ou quando, comparando-me, encontro-me com qualidades iguais e, portanto, não posso manter o outro em inferioridade. A essas duas situações existenciais de “distanciamento” correspondem apenas dois modos de resolução emocional: ou admiro-o como igual a mim ou superior a mim, e termino por amá-lo; ou invejo-o fundamental e profundamente e termino por odiá-lo. O encontro com o igual ou o superior termina ou no amor, passando pela admiração, ou no ódio, passando pela inveja.”

Gabriel Liiceanu em Do ódio

Ainda não amadureceu

“[…] o amor provado, indiscutível, não só confirma ou corrobora no ser aquele a quem se dirige, mas o faz com tal franqueza e radicalidade que o ser amado passa a ser imprescindível para tudo, desde as coisas mais pequenas e aparentemente instranscendentes até o conjunto do universo (também neste sentido é o nosso “todo”).
Ortega y Gasset expôs este aspecto com mestria, no parágrafo que reproduzimos a seguir dos seus Estudios sobre el amor: “Amar uma pessoa é estar empenhado em que exista; não admitir, na medida em que de nós dependa, a possibilidade de um universo do qual essa pessoa esteja ausente”.
Em função disso, poderíamos formular uma questão prática de enorme calado existencial. Poderíamos perguntar sobretudo aos esposos (e, de certa forma, também aos noivos): “Você é capaz de conceber a sua vida sem o seu cônjuge? Você consegue imaginar-se vivendo com relativa normalidade se ele ou ela vierem a faltar?”
Não se trata de que você não consiga refazer-se, com a ajuda de Deus e das restantes pessoas que lhe querem bem e lhe dão consolo, se por infelicidade vier a perder o marido ou a mulher; mas de que agora mesmo, neste preciso instante, você se sinta capaz de continuar a viver sem aquele a quem diz amar com loucura, que consiga imaginar-se sem ele. Se você responder que sim, que conseguiria, talvez seja o caso de suspeitar que o seu amor ainda não amadureceu tanto quanto seria de desejar.”

Tomás Melendo em O que significa amar?

O amor abrange

“O amor abrange: desde os atos mais transcendentes, como a oração e o sacrifício pelo ser amado, ou como o projeto conjunto e progressivo daquilo que virá a ser a vida conjugal e familiar, passando pelos sentimentos e afetos nos quais ressoa e se exterioriza o nosso carinho, até as questões aparentemente mais ínfimas e intranscendentes, como o empenho por mostrar-se elegante e atrativo; o esforço por sorrir com amabilidade; a carícia ou o olhar de carinho, mesmo nos momentos de cansaço ou nervosismo ou desalento; ou ainda os pequenos detalhes que tornam mais saborosos e entranháveis a volta ao lar e o descanso em família, que iluminam a existência cotidiana com brilhos fulgurantes de entrega, que encarnam e dão vida à íntima e escondida dedicação [dos que se amam]”

Tomás Melendo em O que significa amar?

Confiança e entrega

“Jesus fala do que vive. Como ele vive o que diz.
Assim Jesus não se preocupava com o dia de amanhã, ele não era ansioso. Com relação àquilo que vai acontecer, ele tem confiança e entrega tudo ao Pai. E isso me parece muito grave com relação ao nosso tempo, porque é a condenação mais radical. O homem moderno é indubitavelmente o mais armado de seguros, de investidas sobre o futuro, de segurança, de medicina, de garantias, e eis que parece ser o homem mais ansioso e mais apreensivo que já existiu. Ele tem medo. Jesus diz para ele não ter medo, e diz o por quê. Ele diz com a simplicidade da verdade como é possível viver sem essa ansiedade. Mas isso é precisamente o que o homem moderno não quer, ou melhor, não pode entender. Ele não pode deixar para o dia seguinte o seu segredo, não pode suportar não ter poder sobre ele. Tudo deve pertencer-lhe. Ele quer tudo. Ele cobiça a segurança e o futuro. E nessa mesma medida, ele morre de ansiedade. Ele quer ser o mestre em tudo, e por isso mesmo, a menor realidade que lhe escapa é insuportável para ele! Jesus não pretendia prever nada, assegurar nada, e por isso era tranquilo, em paz.”

Jacques Ellul em Se és o filho de Deus