Quando a morte chega

“As coisas do nosso uso, as pessoas das nossas relações, os hábitos da nossa monotonia, as ideias do nosso sustento mental. Tudo isso ocupa um espaço enorme do nosso ser. Então, quando a morte chega, tudo nos larga de mão e a gente fica aterrada por não ter nada para companhia. Prepararmo-nos para a morte é irmos morrendo tudo até ficarmos só cheios de nós. É duro, eu sei.”

Vergílio Ferreira em Em nome da Terra

Em nome da Terra

“Por fim saímos da água e os deuses olharam-nos, humilhados na sua inutilidade. Uma nova raça divina ergueu-se em nós. Poderosos imensos. Trazíamos uma mensagem dos confins das eras, a Terra esperava-nos. Trazíamos a notícia de um corpo incorruptível e perfeito.
– Jura-me que nunca hás-de de envelhecer – disse-te.
– Juro.
– E que nunca hás-de morrer.
– Sim.
– E que a beleza estará sempre consigo. E a glória. E a paz.
– Juro.
Então baixei-me ao rio e trouxe água nas mãos em concha. E derramei-ta na cabeça imensamente. E disse, e disse
– Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição.
E tu disseste João sacrílego. E eu disse agora podemo-nos vestir.”

Vergílio Ferreira em Em nome da Terra

Imodificável

“- Quero por tudo em ordem – repetiu, mecanicamente.
– O que queres tu por em ordem?
Olhei-o nos olhos e desatei a rir. Ele não pode estar a falar a sério! – pensei. Transcorrido um certo tempo, nada se pode “por em ordem” entre duas pessoas; compreendi essa verdade sem esperança naquele instante, quando nos sentamos, ali, no banco de pedra. O homem vive, e corrige, ajusta, edifica, e destrói, algumas vezes, a sua vida; mas, passado o tempo, dá-se conta de que o todo, tal como está, por força dos erros e do acaso, é imodificável. Lajos, aqui, nada podia fazer. Quando alguém emerge do passado para anunciar, em voz comovida, que quer por tudo em ordem, só podemos lamentar e sorrir das suas intenções; o tempo já tudo “pôs em ordem”, à sua estranha maneira, da única maneira possível.”

Sándor Márai em A herança de Eszter

Não existe amor mudo

“Se vos amo, far-vos-ei a confidência do meu ser profundo, mas não farei tal confidência sem que vos ame. Não há confidência sem amor (não vou dizer a um desconhecido na rua que lhe vou contar toda a minha vida) e, reciprocamente, não há amor sem confidência (não imagino um namorado a dizer à namorada: amo-te, mas não saberás nada a meu respeito). Nada mais emocionante, por outro lado, que a passagem do companheirismo à amizade que se faz precisamente pela troca de confidências; e, para além da amizade, no amor, a confidência torna-se cada vez mais profunda até à transparência.
[…]
Não existe amor mudo. A oração é a expressão do amor tal como, no mundo, a confidência é a expressão do amor. E se me disserem que dois namorados podem permanecer mudos um ao lado do outro durante muito tempo, direi que, nesse caso, o mutismo é a suprema qualidade da palavra. Não há nada sem expressão: o que não se exprime degrada-se e acaba por não existir. A oração é a expressão da fé.”

François Varillon em Alegria de crer e de viver

Inevitável

“Porque é preciso que não tenhamos ilusões: o Cristianismo contraria o homem. Aperfeiçoa-o e desenvolve-o, mas contrariando-o. Se, em Caná, a água é transformada em vinho (símbolo de festa), na Ceia, o vinho será mudado em sangue. Há sempre os dois pólos: o pólo do humanismo e do amor de viver, e o pólo da necessidade de morrer para encontrar a Deus. O Evangelho é a transformação da ânsia de felicidade. Se o vosso Cristianismo não impressiona aqueles que vivem à vossa volta, há razões fortes para desconfiar da sua autenticidade e profundidade; como diz P. H. Simon, é “descafeínado”. Nós não impedimos que, no mundo atual, os homens andem numa roda viva nas atividades econômicas, sociais e políticas. Queixamo-nos, dizemos a nós mesmos que o mundo vai mal e que não sabemos aonde irá parar. De quem é a culpa? Se, pelo menos, os cristãos fossem cristãos! Só que o desafio está na cruz! Quando o cristão faz o que tem a fazer, quando é livre com a liberdade de Cristo, a cruz é inevitável.”

François Varillon em Alegria de crer e de viver

A verdadeira liberdade

“A liberdade não consiste em fazer o que se quer, mas em querer o que se faz, quer dizer, em assumir a responsabilidade dos seus atos. Um homem não é autenticamente homem senão quando assume a responsabilidade da sua vida. A verdadeira liberdade consiste na capacidade de enfrentar a morte, não necessariamente a morte final, definitiva, mas essa morte cotidiana exigida pela justiça, a verdade, a liberdade. Não é possível, ao mesmo tempo, dar-se e reservar-se para si. Quando alguém se dá verdadeiramente, quando se compromete a fundo com os outros, é evidente que isso faz sofrer, pede verdadeiros sacrifícios. É preciso saber morrer a si mesmo, porque se é, sobretudo, escravo de si mesmo, desse “querer-viver” que levamos nas entranhas. Cristo é o modelo de homem livre: preferiu morrer a negar-se. Ele é a testemunha da liberdade eterna de Deus.”

François Varillon em Alegria de crer e de viver