Escravo de seu meio

“Quem segue a corrente, quem não se dirige segundo princípios superiores, quem não tem ideal, nem convicção é somente uma parcela do mobiliário terrestre, um objeto movido, não personalidade-motora, um boneco, não uma criatura razoável, um eco, não uma voz. Quem não tem vida interior é escravo de seu meio, como o barômetro é obediente criado do ar imóvel, e a ventoinha, a humilde servidora do ar agitado.”

Amiel em Diário Íntimo

Envelhecer é mais difícil que morrer

“Envelhecer é mais difícil que morrer, porque renunciar uma vez e em bloco a um bem, custa menos que renovar o sacrifício diariamente e por miúdo. Suportar a própria decadência, aceitar a própria diminuição é uma virtude mais amarga e mais rara que desafiar a morte. Há uma auréola na morte trágica e prematura; e não há senão uma longa tristeza na caducidade crescente. Mas olhemos melhor a isso: a velhice resignada e religiosa parece então mais comovedora que o ardor heroico dos anos juvenis. A maturação da alma vale mais que o brilho das faculdades e do que a abundância das forças, e o eterno que existe em nós deve tirar proveito de todas as devastações que faz o tempo.”

Amiel em Diário Íntimo

Dormir a todo custo

“Por que sempre conversação frívola e frases, pesares e aborrecimentos, e jamais ação? Por que estas flagelações hipócritas, a que não segue melhoramento algum? Por que estas censuras vãs, esta afetação de arrependimento, este gesticular no vácuo, senão para enganar-te a ti mesmo, para dar-te a ilusão do movimento, e o decoro da vida moral? De fato, pagas a tua consciência apenas com disfarces, teu bom senso com aparências, tu te agitas sem te moveres, tentas sempre enganar a tua dor ou as tuas exigências, e dissipas a todo custo a seriedade que te atormenta. Na realidade, tens medo de viver, querer é para ti um suplício, agir, uma agonia, e te esforças por dormir a todo custo.”

Amiel em Diário Íntimo

A verdadeira humildade

“A unidade e a simplicidade do ser, a confiança e a espontaneidade da vida estão em caminho de desaparecer. É por isso que não podes agir, que não tens caráter.
É preciso renunciar a tudo saber, a tudo querer, a tudo abarcar, é preciso fechar-se em alguma parte, contentar-se de alguma coisa, comprazer-se em alguma obra, ousar ser o que se é, resignar de boa vontade tudo quanto não se tem, apegar-se à própria pele, crer na própria individualidade.
A desconfiança de ti próprio te corrói; confia-te, abandona-te, liberta-te, crê e estarás a caminho da cura. A prova de que essa tendência é má está em que ela te torna infeliz e te impede de agir. A incredulidade é a morte; e a ironia de si próprio, como o abatimento, são incredulidade. É mais fácil condenar-se que santificar-se, e o desgosto de si próprio vem mais do orgulho que da humildade… A verdadeira humildade é contentamento.”

Amiel em Diário Íntimo

O mais doce contentamento

“Dá testemunho da verdade que recebeste, ajuda os outros a viver e a bem viver, não contristes nenhuma alma nem coração algum, ousa mais seguidamente ser sério, verdadeiro, simples, amante; sê menos circunspecto, mais franco, mais acessível, e mais vezes terás ocasião de fazer bem; e fazer bem é o mais doce contentamento que se possa experimentar. Ser compreendido, apreciado e amado só vem mesmo depois, pois a satisfação da consciência é mais intensa ainda que a do coração.”

Amiel em Diário Íntimo

Sublime realidade

“Obrigado, meu Deus, pela honra que acabo de passar em tua presença, de joelhos. Reconheci a tua vontade, medi as minhas faltas, contei minhas misérias, senti a tua bondade para comigo. Tive o sabor do meu nada. Tu me deste a tua paz. No amargor está a doçura, na aflição a alegria, na fraqueza a força, no Deus que pune o Deus que ama; o mel está na goela do leão. Perder a sua vida para ganhá-la, oferecê-la para recebê-la, nada possuir para tudo conquistar, renunciar a seu próprio eu para que Deus se dê a nós, que problema impossível e que sublime realidade!”

Amiel em Diário Íntimo