Só assim

“Não violentes a ti mesmo e respeita em ti as oscilações do sentimento, é a tua vida e a tua natureza: alguém mais sábio do que tu as fez. Não te abandones inteiramente ao instinto nem à vontade; o instinto é uma sereia, e a vontade, um déspota. Não sejas escravo de teus impulsos e de tuas sensações do momento, nem de um plano abstrato e geral. Abre-te ao que imprevistamente ofereça a vida, do interior e do exterior; mas dá unidade à tua vida, conduz o imprevisto às linhas de teu plano. Eleva a natureza ao espírito, e que o espírito volte a ser natureza. Só assim, harmonioso será teu desenvolvimento, e a serenidade do Olimpo, a paz do céu poderão iluminar a tua fronte; – sempre com a condição de que a tua paz esteja feita e que tenhas subido ao calvário.”

Amiel em Diário Íntimo

Este mundo é o teu

“Este mundo de lobos e raposas, de egoísmos destros e de ambições ativas, de vaidades sem limites […], este mundo dos homens, onde é preciso mentir pelo sorriso, pela conduta, pelo silêncio tanto como pela palavra, mundo desagradável para a alma reta e altiva, este mundo é o teu. É preciso saber aí viver.”

Amiel em Diário Íntimo

Não é ainda a voz de Deus

“Toda vez dúplice, dividida e combatida na consciência, não é ainda a voz de Deus. Desce ainda mais profundamente em ti, até que ouças somente uma voz simples, voz que apague toda dúvida e traga consigo a persuasão, a clareza, a serenidade. Felizes, diz o apóstolo, dos que estão de acordo consigo mesmos, e que não se condenam no partido que tomam.”

Amiel em Diário Íntimo

Oração ao Deus desconhecido

Antes de prosseguir no meu caminho
E lançar o meu olhar para frente
Uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti,
Na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas do meu coração,
Tenho dedicado altares festivos,
Para que em cada momento
Tua voz me possa chamar.

Sobre esses altares está gravada em fogo
Esta palavra: “ao Deus desconhecido”
Eu sou teu, embora até o presente
Me tenha associado aos sacrílegos.
Eu sou teu, não obstante os laços
Me puxarem para o abismo.
Mesmo querendo fugir
Sinto-me forçado a servir-Te.

Eu quero Te conhecer, ó Desconhecido!
Tu que que me penetras a alma
E qual turbilhão invades minha vida.
Tu, o Incompreensível, meu Semelhante.
Quero Te conhecer e a Ti servir.

Friedrich Nietzsche

O povo

“Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.

Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega:

“Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei: “O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica.

Nada mais distante dos textos bíblicos.

Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas.

Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se integrasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado!

Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!

Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão.

Até que ela o abandonou.

Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre.”.

Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.

O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.

As mentiras são doces; a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo.

No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões.

E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!

As coisas mudaram.

Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.

As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro “O Homem Moral e a Sociedade Imoral” observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem.

Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis.

Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.

É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.

Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado.

O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão.

Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.

Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.

O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam.

Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade.

Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.

Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.

Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.

Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.

O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.

O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer?
Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol.

Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.

Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção.”. Isso é tarefa para os artistas e educadores.

O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.

Rubem Alves

A realidade passava a oprimi-lo

“Olhava com mais atenção as pessoas que passavam diante dele; mas as pessoas estavam alheias, preocupadas, pensativas… E pouco a pouco a despreocupação de Ordínov foi sem querer esvaecendo; a realidade passava a oprimi-lo, a incutir nele uma espécie de temor involuntário, de respeito. Ele começava a se cansar desse afluxo de impressões novas, que até então ignorara, como um doente que alegremente se levantara pela primeira vez de seu leito de sofrimentos e caíra, atordoado pela luz, pelo brilho, pelo turbilhão da vida, pelo burburinho e pela miscelânea de cores da multidão que rodopiava ao seu redor, aturdido, entontecido pelo movimento. Foi ficando angustiado e triste. Começou a temer por sua vida, por toda sua atividade e até pelo futuro. Um novo pensamento vinha roubar-lhe a tranquilidade. De súbito ocorreu-lhe que havia passado sua vida inteira sozinho, que ninguém o havia amado, e que também ele nunca chegara a amar ninguém.”

Dostoiévski em A senhoria

Só uma possibilidade

“Permanecer na situação antiga e ser discípulo é impossível. A princípio isso era bem visível. O publicano teve que abandonar a coletoria; Pedro teve que largar as redes, para seguir a Jesus. Segundo nosso entendimento, teria havido outras soluções: Jesus poderia ter proporcionado ao publicano um novo conhecimento de Deus e permitir que ele continuasse em sua antiga situação. Isso seria possível se Jesus não fosse o Filho de Deus feito ser humano. Como, porém, Jesus é o Cristo, tinha que se tornar claro de antemão que sua mensagem não é uma doutrina, mas nova criação da existência. Tratava-se de caminhar realmente com Jesus. A pessoa que era chamada compreendia que, para ela, só havia uma possibilidade de fé em Jesus, a saber, abandonar tudo e ir com o Filho de Deus feito ser humano.”

Dietrich Bonhoeffer em Discipulado