A nossa vez

“Em cada dor, em cada mudança no nosso corpo, em cada diminuição de nossa capacidade, vemos indicações da nossa mortalidade. E, vendo o declínio sutil, ou não tão sutil, dos nossos pais, entendemos que estamos prestes a perder o escudo que nos separa da morte e que, depois que eles se forem, será a nossa vez.”

Judith Viorst em Perdas necessárias

Uma face linda e outra hedionda

“O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo. O ser humano, tal como imaginamos, não existe. É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez. Somos aquela pureza e somos aquela miséria. Ora aparecemos varados de luz, como um santo de vitral, ora surgimos como faunos de tapete. Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva. O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas. O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: ‘Senhoras e senhores, eu sou um canalha’. Não há nada que fazer pelo ser humano: o homem já fracassou.”

Nelson Rodrigues,
em entrevista nos anos 80

Paulistano, nascido em 1987, filho de Letícia e José.
Casado com a Nicolette, meu amor e mãe dos nossos filhos.

És o verso que Camões não soube escrever.

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A dor, o sofrimento, o luto

“A dor já passou, foi transformada em algo diferente: conheceu-a, gemeu, a seguir ocultou-a dos olhos do mundo, de algum modo, dissecou-a para poder conservá-la como uma múmia suntuosa na sala dos mortos da sua memória. Não vale a pena enganares-te, porque o sofrimento causado pelo amor também desaparece. Fica o luto, um certo tipo de ritual oficial da memória. A dor é uma coisa diferente: um grito selvagem, apesar de ser silencioso. Os animais gritam dessa maneira, quando não compreendem qualquer coisa no mundo – a claridade das estrelas ou os cheiros estranhos – começam a tremer e a gemer. O luto é diferente, é uma questão de razão e de vivência. Mas a dor, um dia, transforma-se; tudo aquilo que se apresentava como orgulho ou ofensa por causa da ausência do outro, vai ser consumido pelas chamas obstinadas e purificadoras do sofrimento para dar lugar à recordação que se pode manejar, amansar e colocar em algum lugar.”

Sándor Márai em A gaivota

Maldita doença

“Por vezes tinha esperança de que a minha filha reconsiderasse, de que se curasse dessa maldita doença, e vocês os dois chegassem a entender-se. Sabia tudo – continuava presunçoso e completamente mal informado. – Esse homem foi como uma doença infecciosa para Ili. Uma doença que mata o doente, mas este não quer livrar-se dela. Há pacientes e doentes assim – disse com a satisfação de um perito que conhecia o assunto. – Nesses casos só um milagre pode ajudar. Eu acreditava nesse milagre – acrescentou contristado. Não, por favor, deixe-me falar. Sabia tudo sobre si e sobre esse homem, tudo, durante aqueles quatro anos em que Ili andou na faculdade, mas não podia imaginar até que ponto aquela infecção era tão perigosa. Como podia saber que esse patife iria matá-la? Quando ler as cartas, perceberá tudo. – Respirava com dificuldade, estava perto de sofrer um ataque. – O que sei ainda? – perguntou calmamente. – É que também se pode matar com delicadeza, sem veneno, sem armas, sem palavras. É possível fazê-lo com um determinado comportamento – respondeu com um tom ingênuo e assustado, como se ele próprio se surpreendesse com a importância da sua descoberta. – Um homem é capaz de acabar com uma outra pessoa por não a deixar partir, mas, ao mesmo tempo, não a abandonar também. Acercando-se dela por completo, atando-a a si mesmo e não a devolvendo ao mundo. Ao manter uma distância, não cria uma aliança com ela. Uma pessoa escolhida e separada deste modo do mundo, acaba por morrer. Uma vez que fica sozinha, mas não completamente, porque vive com uma espécie de vínculo, mas quem a tem prisioneira não se preocupa com ela… percebe isso? Mas eu não posso ir à esquadra. A polícia nada pode fazer com estas cartas. São cartas corteses, não há nelas nenhuma ameaça concreta… simplesmente em cada linha, em cada palavra, sente-se uma força perversa, uma força com que esse homem a enfeitiçou, a prendeu, e não a largou, não deixando, no entanto, que se aproximasse muito. Segurava-a com uma corda curta e nunca a soltou completamente… Ela debatia-se assim, enfeitiçada.”

Sándor Márai em A gaivota

A única força

“A única força que garante a preocupação é o amor. O dever não basta. O dever detém-se sempre à superfície. Só quem ama compreende e conhece. Entra nos pensamentos e nos sentimentos da pessoa amada, partilha o seu sofrimento, as suas ansiedades, antecipa as suas necessidades, resolve os seus problemas. É assim que procede o verdadeiro amigo, o enamorado. É assim que procedem o marido e a mulher porque, não obstante as crises, o casamento continua a ser o lugar mais importante da intimidade e da atenção.”

Francesco Alberoni em Viagem pela alma humana

Aceitação da realidade

“O único acordo possível é a aceitação da realidade, o respeito a ela. É possível ter opiniões diversas com relação a uma coisa, mas, quando está diante de nós, ela mesma impõe sua estrutura, obriga a concordar parcialmente, estabelece uma espinha dorsal com a qual é preciso contar, à qual se podem acrescentar matizes que não são necessariamente inconciliáveis. O mau é que cada um “invente” uma realidade inexistente e se apegue a ela sem admitir outra possibilidade. É a própria fórmula do fanatismo, que por sua vez é uma das variedades de aviltamento do homem.”

Julián Marías em Tratado sobre a Convivência