Fraqueza de quem ama

DEUS TORNA-SE FRACO porque ama. Quem mais ama é sempre mais fraco. Não será essa a grande característica das mulheres? Quase sempre amam mais, e, por isso, sofrem mais. Porém, nessa fraqueza consentida não estará a maior liberdade?

Nessa fraqueza a pessoa vence todo o egoísmo, todo o desejo de prevalecer, toda a preguiça de aceitar maiores desafios. Exige mais de si própria, vai mais longe, além das suas forças. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (João 15.13). Aí está também a expressão suprema da liberdade.

A fraqueza de Deus vai até a ponto de se tornar suplicante. O versículo predileto do saudoso teólogo latino-americano Juan Luís Segundo diz; “Eis que estou batendo na porta: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo (Apocalipse 3.20).

Deus bate na porta e aguarda. Se não é atendido, afasta-se e continua o caminho. Somente entra se é convidado. Depende do convite da pessoa. Deus torna-se pedinte, suplicante.

José Comblin

Publicado em:  on Dezembro 22, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Deus é inocente

O primeiro dos dilemas é criar ou não criar. O segundo é criar com liberdade ou sem liberdade. O terceiro é assumir o ônus da liberdade ou deixar este ônus nas mãos da criatura. Deus faz as escolhas que o machucam, que lhe causam dor, que o fazem sofrer, que o diminuem. Simone Weil diz que “Deus e todas as suas criaturas é menos do que Deus sozinho”. Deus escolhe criar. Escolhe criar um ser livre, pois não fosse livre não seria à imagem do Criador. E escolhe arcar com ônus da liberdade que concede à sua criatura. Na cruz de Cristo está Deus, dando ao rebelde o direito de existir. Na cruz de Cristo está Deus, entregando sua vida, voluntariamente, em favor dos pecadores. O mal deflagrado pela raça humana levanta sua sombra sobre o trono de Deus. E Deus se levanta como um Cordeiro que se doa, pois escolhera morrer, em detrimento de matar. Na cruz de Cristo está o Deus que morre para que todos tenham vida, vida completa, abundante vida.

Ed René Kivitz

Publicado em:  on Dezembro 21, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Fé cega

“Os discernimentos da fé são gerais, vagos e precisam ser conceituados para que possam ser comunicados à mente, integrados e compatibilizados. Sem a razão, a fé fica cega. Sem a razão, não saberemos usar os discernimentos da fé nos assuntos concretos da existência. A adoração da razão é arrogância, e denuncia uma privação de inteligência. A rejeição da razão é covardia, e denuncia a ausência da fé.”

Abraham Joshua Heschel em Deus em Busca do Homem

Publicado em:  on Dezembro 11, 2009 at 7:06 pm Comentários desativados

Nossos deuses

“O pensamento, a crença e o sentimento religiosos estão entre as mais enganosas atividades do espírito humano. Afirmamos, frequentemente, que é em Deus que acreditamos, mas, na realidade, pode ser que acreditemos num símbolo de nossos interesses pessoais, no qual insistimos. Podemos admitir que nos sentimos atraídos por Deus, mas, na verdade, pode ser que o verdadeiro objeto de nossa adoração seja outro poder qualquer desse mundo.”

Abraham Joshua Heschel em Deus em Busca do Homem

Publicado em:  on at 2:23 am Comentários desativados

O Senhor não se prende

“O mundo da retribuição, e não só da retribuição temporal, não é a morada de Deus. Quando muito, Ele o visita. O Senhor não se prende ao esquema “dou se me deres”. Nada, nenhuma obra, por valiosa que seja, merece a graça. Se assim fosse, deixaria de sê-lo. Este é o núcleo da mensagem de Jó.”

Gustavo Gutiérrez em O Deus da Vida

Publicado em:  on Dezembro 8, 2009 at 10:36 pm Comentários desativados

Entrar na história

“Buscar o Reino e a justiça de Deus significa para o cristão, e para toda a Igreja, entrar na história humana, solidarizar-se com os pobres e oprimidos, encontrar o Senhor no rosto dos mais necessitados.”

Gustavo Gutiérrez em O Deus da Vida

Publicado em:  on Dezembro 5, 2009 at 7:20 pm Comentários desativados

Exageradamente humano

JESUS NÃO SE FANTASIOU, não encarnou por um breve período, mas assumiu a contingência humana com todas as consequências, inclusive a de morrer. Exageradamente humano, libertou homens e mulheres da exigência de se tornarem deuses.

Ricardo Gondim

Publicado em:  on Dezembro 4, 2009 at 12:13 am Comentários desativados

Entre nós

“Deus está onde seu projeto de vida se faz carne.”

Gustavo Gutiérrez em O Deus da Vida

Publicado em:  on Novembro 30, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Perceber Deus

EMPOLGO-ME COM DEUS porque já não o percebo como objeto de estudo. Ele não está lá, em algum recôndito espiritual, transcendental, paradisíaco, nirvânico, esperando ser adulado, pesquisado, definido. Percebo Deus na vida, com tudo o que ela tem de beleza e de horror. Vejo Deus nos verdes matizados da floresta, no vigor dos mares, na poeira que a bruma espalha, nas mudanças bruscas do tempo.

Ricardo Gondim

Publicado em:  on Novembro 28, 2009 at 2:05 am Comentários desativados

Palavras encarnadas

“Deus não quer sacrifícios, mas corações arrependidos; não deseja vestes rasgadas, mas corações dilacerados pela dor da falta; não quer oferendas e orações que não levem em conta as injustiças e sofrimentos que se vivem neste mundo. Orar ao Deus da Bíblia não é uma maneira sutil de fugir da história, é sim ocasião de pronunciar palavras encarnadas.”

Gustavo Gutiérrez em O Deus da Vida

Publicado em:  on Novembro 27, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Um Deus imprevisível

“O que Jonas não perdoa – se é que podemos falar assim – é o perdão irrestrito e universal de Deus. Se se tratasse de um Deus que só se move no plano da justiça, seus atos seriam previsíveis; mas o Deus da Bíblia – como diz de modo inigualável o livro de Jó – é o que ama gratuitamente. Um Deus que não admite ser enclausurado em nossas categorias e em uma forma de conduta baseada no “toma lá, da cá”. Um Deus imprevisível.”

Gustavo Gutiérrez em O Deus da Vida

Publicado em:  on Novembro 25, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Beleza que se ouve

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Rubem Alves
[via Pavablog]

Publicado em:  on Novembro 23, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Última palavra

“Não há afirmação da vida sem passagem pela morte, sem confronto com ela. A mensagem da ressurreição do Senhor e da nossa juntamente com ele é clara: a vida, e não a morte, é a última palavra da história.”

Gustavo Gutiérrez em O Deus da Vida

Publicado em:  on Novembro 20, 2009 at 8:02 pm Comentários desativados

A maneira de Deus se revelar

“Na véspera de sua morte, ele tirou a vestimenta de cima, amarrou uma toalha em volta da cintura, colocou água numa bacia de cobre e lavou os pés de seus discípulos. Um mistério profundo: Deus se torna escravo. Isso implica, de modo bem específico, que ele deseja ser conhecido por meio do serviço. Essa é a maneira de Deus se revelar.”

Brennan Manning em O Impostor que Vive em Mim

Publicado em:  on at 2:39 am Comentários desativados

Corações não podem ser coagidos

“Mas se é o coração que importa, então os corações não podem ser coagidos; ninguém pode ser forçado. As pessoas podem ser convidadas, atraídas, intrigadas, instigadas e desafiadas – porém, não forçadas. E talvez aí resida a maior genialidade de uma parábola: ela não agarra alguém pelo colarinho e berra em seus ouvidos: “Arrependa-se seu pecador infame! Converta-se ou vai arder em chamas!” Pelo contrário, age gentilmente, de forma sutil e indireta. Ela respeita a sua dignidade. Não força alguém a se submeter, mas deixa livre para que descubra e escolha por si mesma.”

Brian McLaren em A Mensagem Secreta de Jesus

Publicado em:  on Novembro 7, 2009 at 8:33 pm Comentários desativados

A essência da fé cristã

Abraçar a essência da fé cristã significa precisamente deixar-se arrastar para além da zona do conforto e entrar no arriscado território marcado pelo compromisso de amar os próprios inimigos.

Miroslav Volf

Publicado em:  on Outubro 26, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

O maior desafio

O maior desafio do universo, que deveria envolver todas as religiões: transformar corações de pedra em corações de carne.

Ricardo Gondim

Publicado em:  on Outubro 19, 2009 at 9:27 pm Comentários desativados

Salvos da Perfeição

Deus de tão perfeito conheceu a plenitude do tédio. De tão cercado pelo idêntico a si mesmo, incapaz de dizer por que hoje não é apenas um reflexo de ontem, sem jamais ter sonhado com um outro dia, enfadado com a previsibilidade de um mundo impecável, inventou o amor. Ou seria, preferiu amar?

A invenção do amor, ou dos amigos, é o encontro com o imperfeito e aqui está a sua grandeza. Nada se compara ao êxtase da imaginação, à adrenalina do inusitado, ao ciúme diante do livre amante, à ardência do anseio pelo melhor, ao sabor fugidio do fugaz, à satisfação de um mundo transformado, ao descanso gostosamente dolorido diante do que não mais é caos. Sensações próprias da vida imperfeita, do que está para sempre para ser, dos que sempre podem desejar uma outra coisa. Dos humanos.

Logo depois de inventar o imperfeito, Deus conheceu a lágrima da frustração. A dor mais feliz que espíritos livres sentem. Viu as costas dos que mais amou. Duvidou sem desistir, o Criador chorou mais uma vez. Desta lágrima descobriu o perdão. Lágrima esquentada com afeto e graça.

Mal compreendido pelos amigos, inimigos tolos, pecado, recobriram-no de ídolo. De tão cansados do incerto, angustiados por tanta liberdade, os amigos inventaram ídolos, pretensos profetas e arrogantes senhores do futuro, sacerdotes e magos de um deus acuado, cristos milagreiros da mesmice ressurreta. Inventaram a religião, vestiram-se de absoluto.

Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau. Imperfeito, salvou-nos da perfeição.

Elienai Cabral Jr.

Publicado em:  on Outubro 18, 2009 at 5:41 pm Comentários desativados

Menos espirituais e mais humanos

“A verdadeira espiritualidade reside na santidade do gesto simples do cotidiano. Em Jesus Cristo não há megalomania, grandiloquência ou extravagância, mas a simplicidade do gesto humano, ternura e firmeza. Ouso afirmar que a verdadeira vida cristã significa sermos menos espirituais e mais humanos.”

Osmar Ludovico em Meditatio

Publicado em:  on Outubro 8, 2009 at 12:48 am Comentários desativados

Furiosa verdade

“É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda, e apenas um para mantê-lo de pé. Cair em qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evitá-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue de pé.”

G.K. Chesterton em Ortodoxia

Publicado em:  on Outubro 3, 2009 at 12:09 am Comentários desativados

Caminho estreito

“Dos incontáveis paradoxos do cristianismo histórico, esse é mais um: historicamente, os cristãos ignoraram o exemplo de Cristo e tornaram-se seguidores funcionais de João. O caminho de João Batista é o caminho dos monges do deserto, das ordens religiosas, das rádios evangélicas; é o caminho do ascetismo, das regras estabelecidas para “fazermos a diferença”; das abstenções, do recuo, do afastamento, da irrelevância, da exclusão e do preconceito.
O caminho de Jesus é o da inclusão, da presença, do abraço irrefletido e incondicional do mundo. É o caminho estreito que poucos trilham, a porta exigente pela qual poucos passam.”

Paulo Brabo em Em 6 Passos O Que Faria Jesus

Publicado em:  on Setembro 23, 2009 at 1:30 am Comentários desativados

O cristão é um peregrino

“O cristão é um peregrino. O cristão é um peregrino que caminha em comunhão. O cristianismo é a trilha da intimidade com Deus e com o próximo. Cristianismo é conexão.”

Ed René Kivitz

Publicado em:  on Setembro 20, 2009 at 4:04 pm Comentários desativados

A serpente é mentirosa

A serpente é mentirosa desde o príncípio porque desde o princípio ensina que para imitar Deus é preciso ser poderoso como ele.

Paulo Brabo

Publicado em:  on Setembro 19, 2009 at 9:32 pm Comentários desativados

O Egito e a natureza humana

“O Egito é o que acontece quando o pecado se torna estruturado e incrustado na sociedade.

O Egito mostra-nos com que facilidade a natureza humana curva-se no sentido do uso do poder para a manutenção de privilégios à custa do mais fraco.”

Rob Bell e Don Golden em Jesus Quer Salvar os Cristãos

Publicado em:  on Setembro 18, 2009 at 1:20 am Comentários desativados

Intolerância contra os religiosos

“Jesus, que comia com estelionatários, bebia com agiotas e era amigão de prostitutas, tolerava aparentemente tudo em todos. “Eu não condeno você”, ele ousou blasfemar aos ouvidos da mulher adúltera. O rabi puxava conversa com divorciadas promíscuas, pousava sua mão sobre leprosos de que todos desviavam o olhar e dormia nas camas rendadas de inimigos do povo. O sujeito conseguiu o feito inédito de sustentar a fama de homem de Deus ao mesmo tempo que abraçava os puxadores de fumo, traficantes, travestis e aidéticos do seu tempo.
Mas havia um limite para a sacanagem que ele podia engolir. A única classe de pessoas que fazia Jesus perder a paciência e a compostura era, formidavelmente, a dos religiosos.”

Paulo Brabo em Em 6 Passos O Que Faria Jesus

Publicado em:  on Setembro 17, 2009 at 1:13 am Comentários desativados

Se

Se conhecêssemos o Novo Testamento de cor, se ouvíssemos seus trovões soando em nossos ouvidos, distinguindo-os dos sons tolos e das sirenes persuasivas do mundo, se soubéssemos de cor ao menos uma sílaba de uma palavra dentro de uma sentença do Sermão do Monte, se déssemos ouvidos à voz da Águia de Patmos, se crêssemos que nos deixarmos ser amados por Deus é mais importante que amar a Deus, nunca mais toleraríamos as maquinações de religiosos manipuladores que distorcem a face de Deus. Nunca mais os que caíram seriam humilhados publicamente diante da congregação. Nunca mais pregadores destemperados teriam autorização para aterrorizar pessoas nos bancos das igrejas. Nunca mais nos colocaríamos ao lado de celebridades clericais e nos curvaríamos aos ricos e poderosos. Nunca mais a primazia de amar estaria subordinada a uma suposta ortodoxia.

Brennan Manning

Publicado em:  on Setembro 13, 2009 at 2:58 am Comentários desativados

Sejam sal, sejam luz.

“O que ecoa no meu peito são as palavras de dispersão. Vão – disse o mestre – sejam sal, sejam luz, sempre indo, caminhando, espalhando, dispersando, sumindo na multidão. Sal se dissolve e some. Dá gosto mas, depois que é espalhado, ninguém mais sabe onde está. Sumiu, mas salgou. Luz não se pega, não se toca, ninguém sabe descrever sua aparência. Sabemos que há luz porque tudo se torna visível – mas não sabemos onde ela está, não podemos tocá-la, descrevê-la.”

Tuco Egg

Publicado em:  on Setembro 9, 2009 at 2:00 pm Comentários desativados

Minha fé

“Nunca deixa de me surpreender que para o cristianismo Deus não enviou para nos salvar um apanhado de recomendações ou uma lista suficiente de crenças, mas uma pessoa. Minha espiritualidade não deve ser vivida ou expressa de forma menos revolucionária. Não pergunte em que acredito. Mande um email, pegue uma condução, venha até minha casa, tome um café na minha mesa e aceite o meu abraço. Não devo esperar ato maior de fé, e não tenho fé maior para oferecer.”

trecho do texto Minha fé não é aquilo em que acredito de Paulo Brabo.

Publicado em:  on Agosto 31, 2009 at 2:14 am Comentários desativados

Perfeição e proteção

“Os que acreditam em um Deus títere, que enlaçou cordões nos dedos para manipular o mundo, nem precisam dominar leis, basta ganhar o favor divino; quem conquista a simpatia celestial, vira preferido. “Deus fará qualquer coisa para deixar a vida dos seus filhos isenta de sobressaltos”, prometem. “E se por algum motivo acontecer imprevisto, basta orar com fé; Deus, que permitiu doença ou acidente, vingará seu nome com um livramento sobrenatural”.

Os sistemas religiosos monoteístas se fortalecem com esse discurso; discurso de quem conhece o segredo de agradar a Divindade. “Obedeça, cumpra, sacrifique, humilhe-se e seja bonzinho segundo a nossa prescrição e o Senhor lhe sorrirá; a sua vida vai aprumar-se”.

Israel tentou; seus líderes se revezaram para homogeneizar as ações do povo. Tudo era feito para escapar de exércitos poderosos, de epidemias que assolavam o mundo antigo, de gafanhotos na lavoura, de infertilidade feminina (os homens nunca eram responsabilizados quando as mulheres não engravidavam).

Porém, os esforços empacavam. Bastava um sair da risca para desabar a idéia da nação impecável. Abraão mentiu. Ló tomou um porre. Moisés, intempestivo, assassinou. Acã afanou o que não devia. A lista de personagens que jogaram na lata do lixo a possibilidade da recompensa por bom comportamento é longuíssima.

Buscar uma humanidade perfeita com o intuito de acabar com o sofrimento, não funciona. Homens e mulheres serão sempre sombras e luzes. Bem e mal, duas palavras que zunem como golpe de espada, também expressam a riqueza da virtude. Acabar com a ambiguidade, que mora na alma, aniquila a criatividade humana. A pedagogia que conduz à maturidade precisa acolher erro, deslizes, inadequação.

Deus não desejou criar gente absolutamente previsível, pateticamente conformada às suas leis. Ele criou para que aprendêssemos a trabalhar o vai-e-vem do coração; hora, doce, hora, amargo. Ele espera que descubramos, nas excursões para o interior da alma, a riqueza do eterno vir-a-ser.”

trecho do texto Perfeição e proteção de Ricardo Gondim

Publicado em:  on Agosto 22, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Os profetas

Ricardo Gondim

Os profetas marcaram a história judaica por se oporem ao cerimonialismo religioso sustentado pela lógica sacrificial e pelo peleguismo sacerdotal. Eles forneceram conteúdos éticos à consciência política e ao tecido social. Os profetas encararam o rei para defender viúvas pobres. Amargaram a pobreza para denunciar desvios morais entre o povo.

Os profetas eram moscas que atrapalhavam a sala do perfumista corrupto; suas palavras, martelos que despedaçavam corações de pedra. Seus olhos, faíscas do fogo consumidor da justiça. Se vidas corriam perigo, não temiam descer em fossas fétidas. Não havia dinheiro que os comprasse. Os profetas desmascaravam personagens que ritualizavam a espiritualidade, desdouravam promessas de paz e caminhavam na contramão do sucesso.

Os profetas detectavam os blefes do jogo do poder. De dedo em riste, saiam do palácio para clamar no deserto. Mesmo sabendo que não seriam ouvidos, insistiam em prenunciar os despenhadeiros que a falta de amor abria. Prometiam trevas pela falta de ética e morte pelo egoismo. Desprezados em vida, precisaram esperar que o futuro lhes desse razão. Mas mesmo assim perseveram sob ameaça de assassinato e ostracismo.

Os profetas sentiram as dores divinas. Percebendo que a história descambava, se colocavam na brecha. Vendo que os acontecimentos fugiam do controle divino, vociferavam maldições. Os profetas sofriam, indignados com a banalização da vida e com a morte desnecessária de inocentes. Mais que porta-vozes do além, encarnavam o coração paterno de Deus.

Os profetas foram sentinelas nas muralhas que protegiam as cidades, bússulas na incipiente ética primitiva, faróis da esperança futura. Israel deve a eles sua permanência histórica mesmo tendo sido considerado uma Sodoma e se mostrado mais vil que os povos inumanos que o rodeavam. O judeu só não desapareceu como esterco da história devido a Isaías, Ezequiel, Oséias e outros.

Os profetas continuam necessários. Sem eles, as pedras clamam, Deus não fala, o futuro inexiste, toda a perspectiva se esgarça e o inferno se viabiliza. Nunca se precisou tanto deles, principalmente, agora, nesse protestantismo cooptado pelo mercado e instrumentalizado pela ganância.

Soli Deo Gloria

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em:  on Agosto 7, 2009 at 9:48 pm Comentários desativados

A Igreja que não existe mais!

“Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos.” At 2. 43-47

Na época do surgimento da Igreja do Novo Testamento, a palavra igreja significava, apenas, uma reunião qualquer de um grupo organizado ou não. Assim, o texto nos revela que havia um grupo organizado em torno de sua fé (Todos os que criam estavam unidos) – todos acreditavam em Cristo.

Segundo o texto, os participantes do grupo do Cristo não tinham propriedade pessoal, tudo era de todos (tinham tudo em comum)– os membros desse grupo vendiam suas propriedades e bens e repartiam por todos – e isso era administrado a partir da necessidade de cada um; e se reuniam todos os dias no templo; e pensavam todos do mesmo jeito, primando pelo mesmo padrão de vida (unânimes); e comiam juntos todos os dias, repartidos em casas, que, agora, eram de todos, uma vez que não havia mais propriedade particular; e eram alegres e de coração simples; e viviam a louvar a Deus; e todo o povo gostava deles, e o grupo crescia diariamente. Diariamente, portanto, havia gente acreditando em Cristo, se unindo ao grupo, abrindo mão de suas propriedades e bens e colocando tudo a disposição de todos.

Essa Igreja era a Comunhão dos santos – chamados e trazidos para fora do império das trevas, para servirem ao Criador, no Reino da Luz.

Essa Igreja não precisava orar por necessidades materiais e sociais, bastava contar para os irmãos, que a comunidade resolvia a necessidade deles.

Deus havia respondido, a priori, todas as orações por necessidades materiais e sociais, fazendo surgir uma comunidade solidária.

O pedido: “O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje. (MT 6.9) ” estava respondido, e diariamente.

Então, para haver o “pão nosso” não pode haver o pão, o bem ou a propriedade minha, todos os bens e propriedades têm de ser de todos.

Mais tarde, eles elegeram um grupo de pessoas, chamadas de diáconos – garçons, para cuidar disso (At 6.3). Então, diante de qualquer necessidade, bastava procurar os garçons, que a comunidade cuidava de tudo. Era o princípio do direito: se alguém tinha uma necessidade, a comunidade tinha um dever.

Essa Igreja não existe mais!

Ariovaldo Ramos

fonte: PavaBlog

Publicado em:  on Julho 27, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

O amor que Deus tem por nós.

“O amor que Deus tem por nós, segundo o cristianismo, é ao contrário perfeitamente desinteressado, perfeitamente gratuito e livre: Deus nada tem a ganhar com ele, já que é infinito e perfeito, mas ao contrário se sacrifica por nós, se limita por nós, se crucifica por nós e sem outra razão a não ser um amor sem razão, sem outra razão a não ser o amor, sem outra razão a não ser ele mesmo renunciando a ser tudo. De fato, Deus não nos ama em função do que somos, que justificaria esse amor, porque seríamos amáveis, bons, justos (Deus também ama os pecadores, foi inclusive por eles que deu seu filho), mas porque ele é amor e o amor, em todo caso esse amor, não necessita de justificação.”

André Comte-Sponville em Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

Publicado em:  on Julho 20, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

O homem amado por Deus.

O amor divino não se dirige ao que já é em si digno de amor; ao contrário, ele toma como objeto o que não tem nenhum valor em si e lhe dá um valor. A ágape nada tem em comum com o amor que se funda na constatação do valor do objeto a que se dirige. A ágape não constata valores, cria-os. Ela ama e, com isso, confere valor. O homem amado por Deus não tem nenhum valor em si; o que lhe dá um valor é o fato de Deus amá-lo.

Anders Nygren

Publicado em:  on Julho 19, 2009 at 4:19 pm Comentários desativados

Protestantismo brasileiro.

“A repetição produz conforto. Os crentes estão sempre em busca do conforto quando vão às igrejas aos domingos. A repetição conforta porque ela afirma a imutabilidade da verdade. E na medida em que a verdade dita no momento é a verdade que alguém já está acostumado a ouvir, cria-se a certeza de ser-se senhor da verdade.

Não é por acidente, portanto, que o protestantismo brasileiro não tenha produzido teólogos. Só pode haver vocações para tarefas possíveis. Quando tudo já está feito, como se sentir vocacionado para fazê-lo? Um jovem estudante de teologia procurou um dos seus professores para dizer-lhe de seus planos de ir para a Europa estudar teologia. E isto foi o que lhe foi dito: “Moço, para que estudar teologia? Não há novidades. A teologia só pode repetir aquilo que você já estudou aqui. Por que, em vez de estudar teologia, você não estuda psicologia pastoral?”.”

Rubem Alves em Religião e Repressão

Publicado em:  on Julho 11, 2009 at 9:45 pm Comentários desativados

Idolatria

Deus dá a nostalgia pelo voo.
As religiões constroem gaiolas.
Quando o voo se transforma em gaiolas, isso é idolatria.

Rubem Alves

Publicado em:  on Julho 4, 2009 at 1:15 pm Comentários desativados

Interesses religiosos

“Os grupos “evangélicos” de hoje, ao contrário, não se preocupam com o destino da alma depois da morte. As pessoas não são convertidas para serem “salvas”. Elas se convertem para viver melhor esta vida. O que interessa é a vida antes da morte, neste mundo. O que se busca é a “benção”. Deus é o poder mágico que, se corretamente manipulado, conserta os estragos que o Diabo faz na vida de cada um.”

Rubem Alves em Religião e Repressão

Publicado em:  on Julho 3, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Sobre o inimigo

Ricardo Gondim

Caramba, como se fala no diabo! Fico impressionado como ele se tornou necessário. O diabo suga a fé, derruba crente, se infiltra em poderosas redes de televisão, envia pragas, fura pneu de carro, provoca terremotos, conhece os limites dos municípios e domina territórios. Compete e ganha de Deus. É diabo para cá e para lá o tempo todo.

Se alguém está triste, advinha quem mandou a tristeza. Se alguém duvida, advinha quem mandou a dúvida. Se alguém adoece, advinha quem mandou a enfermidade. Arre! Chega! Será que ninguém vai assumir o que faz? Fica fácil culpá-lo já que o mundo inteiro está controlado, guiado, dominado, manipulado e organizado por Satã. Mas o Bicho merece o estatus de espantalho, Judas, bode expiatório? Até quando os humanos vão projetar nele suas mazelas?

Dá para compreender tanta importância. Como se levantaria dinheiro nas igrejas se o Capeta não fosse a estrela do show da fé? Como televangelistas inculcariam pavor nas pessoas se o Coisa-Ruim não fosse tão medonho? Como as poderosas multinacionais da fé subsidiariam seus projetos se o Demo não adquirisse tanta força? Confesso. Tenho medo de uma religião em que o mal se torna o pivô da espiritualidade. Fico apreensivo com uma fé que não pode prescindir de ameaças e arredio com uma ética constrangida pela possibilidade de Satanás ter direitos legais para arrasar as pessoas que erram.

Não discuto a sua existência. Fico apenas suspeitoso com tanta badalação. Eu já não gostava dele, agora não aguento mais ouvir falar na Peste. Por mim, Belzebu não receberia nenhum jabá. Eu não permito que ele dê o tom do meu culto a Deus; não aceito que seja a minha motivação para agir. Enfim, não deixo que ele tome o lugar de Jesus.

Soli Deo Gloria

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em:  on Junho 18, 2009 at 4:00 pm Comentários desativados

Maturidade e dependência.

“Para um neném, a dependência é tudo; alguma outra pessoa tem de atender suas próprias necessidades ou a criança irá morrer. Os pais passam a noite toda acordados, limpam o vômito, ensinam a usar o vaso sanitário e realizam outras atividades rotineiras, tudo devido ao amor, pois percebem a dependência da criança. Mas tal padrão de procedimento não pode continuar indefinidamente. Uma águia sacode o ninho para obrigar seus filhotes a voar; uma mãe cobre o seio para desmamar o filho.
Nenhum pai sadio deseja que um filho seja permanentemente dependente. E, de igual forma, um pai não fica levando a filha num carrinho de neném, de um lado para o outro, a vida inteira, mas ensina-a a andar, sabendo que um dia ela poderá ir embora. Os bons pais encaminham seus filhos da dependência rumo à liberdade.
Os amantes, entretanto, revertem este modelo. Um amante possui liberdade, e no entanto escolhe abrir mão dela. “Sujeitando-vos uns aos outros”, diz a Bíblia, e qualquer casal pode lhe dizer que essa é uma descrição apropriada do processo de viver dia a dia em harmonia. Num casamento saudável, um dos cônjuges se submete voluntariamente aos desejos do outro, por amor. Num casamento problemático, a submissão se torna parte de uma luta pelo poder, um cabo-de-guerra entre egos em competição. A diferença entre esses dois relacionamentos mostra, creio eu, o que Deus procura em sua longa história com a raça humana. Ele não deseja o amor dependente, desamparado, de uma criança que não tem escolha alguma, mas o amor amadurecido, espontaneamente dado, de um amante.
Deus nunca obteve esse amor amadurecido por parte da nação de Israel. O registro bíblico mostra Deus estimulando a jovem nação em direção à maturidade: no dia em que Israel marchou entrando na Terra Prometida, cessou o maná. Deus providenciaria uma nova terra; agora era responsabilidade dos israelitas cultivarem seu próprio alimento. Numa reação tipicamente infantil, Israel imediatamente começou a adorar os deuses da fertilidade. Deus desejava uma amante; em vez disso, obteve uma criança raquítica.”

Philip Yancey em Decepcionado com Deus

Publicado em:  on Junho 17, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Amar a justiça

“Em vez de esmigalhar o poder do mal com a força divina; em vez de impor a justiça e destruir os ímpios; em vez de pacificar a Terra mediante o governo de um príncipe perfeito; em vez de reunir as crianças de Jerusalém sob suas asas, quer elas quisessem ou não, e de salvá-las dos horrores que angustiavam sua alma profética, ele deixou que o mal agisse à vontade enquanto existisse; Ele se satisfez com as formas lentas e desencorajadoras de ajudar apenas no essencial; tornando bons os homens; expulsando, e não simplesmente controlando Satanás…Amar a justiça é fazê-la crescer, não é vingá-la.”

George MacDonald
em Life Essential: The Hope of the Gospel

Publicado em:  on Junho 13, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Teologia é uma brincadeira

Hoje faria tudo diferente.
Começaria por informar meus leitores de que teologia é uma brincadeira, parecida com o jogo encantado das contas de vidro que Hermann Hesse descreveu, algo que se faz por puro prazer, sabendo que Deus está muito além de nossas tramas verbais.
Teologia não é rede que se teça para apanhar Deus em suas malhas, porque Deus não é peixe, mas Vento que não se pode segurar…
Teologia é rede que tecemos para nós mesmos, para nela deitar nosso corpo.
Ela não vale pela verdade que possa dizer sobre Deus (seria necessário que fôssemos deuses para verificar tal verdade); ela vale pelo bem que faz à nossa carne.

Rubem Alves

Publicado em:  on Maio 26, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Sobre Deus

Rubem Alves

Alguém disse que gosta das coisas que escrevo, mas não gosta do que penso sobre Deus. Não se aflijam. Nossos pensamentos sobre Deus não fazem a menor diferença. Nós nos afligimos com o que os outros pensam sobre nós. Pois que lhes digo que Deus não dá a mínima. Ele é como uma fonte de água cristalina. Através dos séculos os homens tem sujado essa fonte com seus malcheirosos excrementos intelectuais.

Disseram que ele tem prazer em ver o sofrimento dos homens, tanto assim que os homens, com medo, fazem as mais absurdas promessas de sofrimento e autoflagelação para obter o seu favor. Disseram que ele se compraz em ouvir repetições sem fim de rezas, como se ele tivesse memória fraca e a reza precisasse ser repetida constantemente para que ele não se esqueça. Em nome de Deus os que se julgavam possuidores das idéias certas fizeram morrer nas fogueiras milhares de pessoas.

Mas a fonte de água cristalina ignora as indignidades que os homens lhe fizeram. Continua a jorrar água cristalina, indiferente àquilo que os homens pensam dela. Você conhece a estória do galo que cantava para fazer nascer o sol? Pois havia um galo que julgava que o sol nascia porque ele cantava. Toda madrugada batia as asas e proclamava para todas as aves do galinheiro: “Vou cantar para fazer o sol nascer”. Ato contínuo subia no poleiro, cantava e ficava esperando. Aí o sol nascia. E ele então, orgulhos, disse: “Eu não disse?”. Aconteceu, entretanto, que num belo dia o galo dormiu demais, perdeu a hora. E quando ele acordou com as risadas das aves, o sol estava brilhando no céu. Foi então que ele aprendeu que o sol nascia de qualquer forma, quer ele cantasse, que não cantasse. A partir desse dia ele começou a dormir em paz, livre da terrível responsabilidade de fazer o sol nascer.

Pois é assim com Deus. Pelo menos é assim que Jesus o descreve. Deus faz o sol nascer sobre maus e bons, e a sua chuva descer sobre justos e injustos. Assim não fiquem aflitos com minhas idéias. Se eu canto não é para fazer nascer o sol. É porque sei que o sol vai nascer independentemente do meu canto. E nem se preocupem com suas idéias . Nossas idéias sobre Deus não fazem a mínima diferença para Ele. Fazem, sim, diferença para nós. Pessoas que tem idéias terríveis sobre Deus não conseguem dormir direito, são mais suscetíveis de ter infartos e são intolerantes. Pessoas que têm idéias mansas sobre Deus dormem melhor, o coração bate tranqüilo e são tolerantes.

Fui ver o mar. Gosto do mar quando a praia está vazia da perturbação humana, Nas tardes, de manhã cedo. A areia lisa, as ondas que quebram sem parar, a espuma, o horizonte sem fim. Que grande mistério é o mar! Que cenários fantásticos estão no seu fundo, longe dos olhos! Para sempre incognoscível! Pense no mar como uma metáfora de Deus. Se tiver dificuldades leia a Cecília Meirales, Mar Absoluto. Faz tempo que, para pensar sobre Deus, eu não leio teólogos; leio os poetas. Pense em Deus como um oceano de vida e bondade que nos cerca. Romain Rolland descrevia seu sentimento religioso como um “sentimento religioso”. Mas o mar, cheio de vida, é incontrolável. Algumas pessoas têm a ilusão que é possível engarrafar Deus. Quem tem Deus engarrafado tem o poder. Como na estória de Aladim e a lâmpada mágica. Nesse Deus eu não acredito. Não tenho respeito por um Deus que se deixa engarrafar. Prefiro o mistério do mar… Algumas pessoas não gostam do que penso sobre Deus porque elas deixam de acreditar que suas garrafas religiosas contenham Deus…

Publicado em:  on Maio 25, 2009 at 4:00 pm Comentários desativados

Jesus existiu mesmo?

Seria um milagre ainda mais incrível que apenas em uma geração uns tantos homens simples e rudes (pescadores muitos deles) inventassem uma personalidade tão poderosa e atraente como a de Jesus, uma moral tão elevada e uma tão inspiradora ideia da fraternidade humana. Depois de dois séculos de Alta Crítica as linha gerais da vida, do caráter e dos ensinamentos de Cristo permanecem razoavelmente claras e constituem o acontecimento mais fascinante da história do homem ocidental.

Will Durant

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em:  on Maio 24, 2009 at 8:00 pm Comentários desativados

A responsabilidade humana

“O infinito (Deus) despiu-se inteiramente de sua onipotência no finito. Ao criar o mundo, Deus, por assim dizer, lhe confiou a sua própria sorte, tornou-se impotente. E depois de ter-se dado totalmente no mundo, nada mais tem a oferecer-nos: cabe agora ao homem dar.

O homem pode fazê-lo cuidando para que não aconteça, ou não aconteça com demasiada frequência que, por causa do homem, Deus deva lamentar o fato de ter permitido que o mundo exista.”

Hans Jonas, filósofo aluno de Heidegger,
citado por Giorgio Agamben em O que Resta de Auschwitz

Publicado em:  on Maio 23, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

A Bíblia precisa ser estudada

“A Bíblia precisa ser estudada com profundidade, não superficialmente. Os extremistas não querem isso, pois o estudo livre e aprofundado da Bíblia pode fazer com que as pessoas saiam do domínio dos líderes carismáticos, pode libertar as pessoas das amarras da lavagem cerebral, podem levar as pessoas a questionar certas convicções que são importantes para a manutenção da ideologia destes grupos. E não foi por isso que os reformadores lutaram, trabalharam e deram suas vidas para que o povo pudesse ler a Bíblia no vernáculo? Não foi por isso que os reformadores abraçaram a causa da alfabetização e da educação?”

Ricardo Quadros Gouvêa em A Piedade Pervertida

Publicado em:  on Maio 20, 2009 at 1:00 pm Comentários desativados

Crise de fé

“Quando os jovens entram na faculdade e começam a ler um pouco mais, acabam por ver questionadas e problematizadas todas as ideias implantadas em suas mentes nas igrejas fundamentalistas. Isso os leva a uma grande crise de fé que os deixa desnorteados. Eles se sentem confusos e perdidos diante da constrangedora separação entre dois mundos, o da igreja e da fé, de um lado, e o da escola e do estudo, de outro lado. Isto acaba por gerar uma suave esquizofrenia que tende a levar o indivíduo para práticas escapistas, como o abuso de drogas recreativas legais e ilegais. Muitas vezes o indivíduo acaba por abandonar a fé cristã, enquanto outros decidem permanecer na igreja, mas tornam-se cidadãos relapsos e trabalhadores de segunda categoria, ou ao menos figuras estranhas à beira da sociopatia.”

Ricardo Quadros Gouvêa em A Piedade Pervertida

Publicado em:  on Maio 18, 2009 at 1:00 pm Comentários desativados

A respeito da [segunda] vinda de Jesus

Contam que, certa vez, perguntaram a Karl Barth se ele acreditava na segunda vinda de Jesus Cristo. Sua resposta foi no mínimo intrigante. Barth teria dito que acreditava em todas as vindas de Jesus, e não apenas na segunda. Na verdade, disse o célebre teólogo alemão, Jesus Cristo veio pela primeira vez na encarnação e, depois, pela segunda vez na ressurreição, e veio outra vez no Pentecoste, uma quarta vez na Igreja, que é o seu corpo, e, além dessas, Jesus Cristo vem toda vez que um pecador se arrepende e se reconcilia pessoalmente com Ele. Ao final, Barth teria dito que acreditava, sim, que Jesus Cristo viria consumar o reino de Deus no “fim da história”, mas essa seria a quinta ou sexta vinda de Jesus.

De fato, dá o que pensar, pois estamos acostumados às afirmações simplistas do tipo “Jesus veio quando nasceu (primeira vinda), foi embora após a sua ressurreição, e virá em triunfo no fim dos tempos (segunda vinda)”. Mas há algumas pontas soltas na construção das doutrinas escatológicas (relativas às últimas coisas) e nas interpretações das afirmações do Novo Testamento a respeito da parousia (vinda) de Jesus Cristo. Por exemplo, como explicar a afirmação “Eis que estou convosco até a consumação dos séculos” (Mateus 28.20)? Cristo está conosco ou devemos esperar por ele no futuro escatológico? Ou ainda, o que Jesus quis dizer quando prometeu àquele que obedece sua palavra: “Eu e meu Pai viremos a ele e faremos nele morada” (João 14.23)? Como podemos conciliar a afirmação de Jesus quanto ao fato de que o fim ocorrerá apenas quando o evangelho do reino de Deus tiver sido anunciado em todas as nações (Mateus 24.14), com sua promessa de que o Filho do Homem viria antes de os discípulos percorrerem todas as cidades de Israel (Mateus 10.23)? Mais ainda, como entender a declaração de Lucas ao afirmar que o livro de Atos registra as coisas que Jesus continuou a fazer após sua ressurreição e ascensão? Também há necessidade de esclarecer porque o livro do Apocalipse não descreve em detalhes a “segunda vinda de Jesus” e, aliás, em vez de dizer que vamos para o céu, diz que o céu vem a nós (Apocalipse 21.1-4).

Estas poucas questões indicam que não podemos nos ater ao literalismo das passagens bíblicas, isoladas umas das outras, mas devemos buscar compreender o sentido amplo de suas narrativas, que possibilitam enxergar os mesmos fatos e fenômenos em múltiplas dimensões e implicações. Em termos da “doutrina das últimas coisas”, a melhor interpretação sugere a “escatologia inaugurada”, que estabelece a tensão entre o “já” e o “ainda não” da salvação: ao mesmo tempo em que o dia da salvação é agora – já (2 Coríntios 6.2), também “em esperança somos salvos” – ainda não (Romanos 8.24).

Não é incorreto, portanto, afirmar que assim como o reino de Deus já veio e ainda está por vir: o reino de Deus chegou (Lucas 11.20) e “venha o teu reino” (Mateus 6.10), também Jesus Cristo já veio e ainda está por vir, pois se o esperamos no fim escatológico – a parousia, também é certo que Ele está conosco até a consumação dos séculos, pois ao afirmarmos a igreja como corpo de Cristo, declaramos que Jesus age na história por meio de homens e mulheres que invocam o seu nome. Como afirma Ariovaldo Ramos, “quando falamos da segunda vinda, dizemos de sua vinda, novamente, visível, mas é razoável a perspectiva de várias vindas e de uma derradeira, definitiva e visível, como o foi na sua ascensão, pois se esta derradeira vinda não for plausível, teremos de rever o rapto da igreja, a transformação dos que estiverem vivos e a ressurreição dos mortos”.

Aguardar a vinda de Jesus no fim dos tempos pode se tornar uma distração que nos impede a relação com Ele aqui e agora; negligenciar a vinda de Jesus no fim da história equivale a esvaziar a fé cristã de sua utopia do reino eterno de Deus e negar a promessa futura do novo céu e nova terra. Ambos os equívocos são perigosos e perniciosos à militância e esperança cristãs.

Ed René Kivitz

Publicado em:  on Maio 17, 2009 at 11:59 pm Comentários desativados

A pregação cristã.

“A pregação cristã não é persuasão (como o discurso de um senador romano), mas proclamação. E não busca sua fundamentação em provas externas ou na coerência interna, mas se baseia na autoridade de quem fala e na capacidade de quem ouve.”

Marilia Fiorillo em O Deus Exilado – breve história de uma heresia 

Publicado em:  on at 2:00 pm Comentários desativados

Uma igreja sem serviçais

“Olho para minha Jerusalém e vejo, com tristeza, gente que perdeu a visão do lava-pés. Gente que passou a buscar lenitivo para sua melancolia em cinema, televisão, festas, shoppings, happy-hours, viagens de trabalho, turismo, estudos, novos cargos, concursos etc. É claro que não há nada de errado com essas atividades em si mesmas. Porém, quando elas se transformam nas principais fontes de segurança, conforto psicológico, propósito, significado ou identidade, tornam-se anti-matéria da ordem sacerdotal do lava-pés.”

Rubem Amorese em Fábrica de Missionários

Publicado em:  on at 9:00 am Comentários desativados

Religiosidade do terceiro mundo

“Boa parte do fenômeno religioso do Brasil e da América Latina ainda é pré-moderno, e quando muito, moderno. Isto é, a religiosidade do terceiro mundo é mágica, mística, profundamente marcada pelas categorias das religiões indígenas e afro. Somos o povo das superstições, das mandingas, das simpatias. Ainda fazemos despachos nas esquinas, pulamos ondinhas na passagem de ano e lançamos flores ao mar para Iemanjá, fazemos correntes de oração e jejuns, subimos escadas de joelhos pagando promessas, acendemos velas, ungimos portas de casas com óleo e deixamos a Bíblia aberta no Salmo para afastar espíritos malignos, damos dinheiro na igreja para impedir a ação dos gafanhotos devoradores do dinheiro dos crentes, engrossamos romarias à Fátima, Lourdes e Aparecida do Norte, cultuamos o Padre Cícero e nos regozijamos com a canonização do Frei Galvão.”

Ed René Kivitz,
pastor da Igreja Batista da Água Branca

Publicado em:  on at 9:00 am Comentários desativados

O avivamento que necessitamos hoje.

“Sim, tenho consciência do “poder do evangelismo”, dos “encontros poderosos”, dos “reavivamentos do riso” e tudo o mais. Eles têm o seu lugar, mas não seria o poder que ansiamos ver não uma questão de chacoalhar os braços das pessoas, de emoção ou de aparato vocal, mas sim o poder para chacoalhar o nosso egoísmo, nossa intolerância, nosso preconceito, nossa preguiça e nosso medo? Estou esperando por um encontro de poder que resulte não apenas no falar em línguas, mas em um dízimo fiel; não apenas no anelo pela cura física, mas no esforço contínuo pela cura racial; não apenas nas manifestações emocionais, mas em uma arte melhor e em uma melhor ecologia e em pessoas mais prestativas. Isso para mim a essa altura seria miraculoso o bastante.”

Brian McLaren em A Igreja Do Outro Lado

Publicado em:  on at 8:00 am Comentários desativados