Gramáticos e poetas.

Ricardo Gondim.

Infelizmente, o mundo continua dividido entre feiticeiros e químicos, cientistas e filósofos, gramáticos e poetas. Digo infelizmente porque não foi sempre assim.

Houve tempo em que os astrônomos se enamoravam pelo piscar das estrelas, os físicos acreditavam que uma linda bordadeira havia costurado o universo e os biólogos celebravam que o ser humano respirasse, mesmo tendo sido um boneco de barro.

Houve tempo em que os jumentos falavam, as estéreis geravam filhos (extra)ordinários, os anjos matavam milhares de soldados agressores, os cajados secos floresciam e o sol parava para esperar que os mais frágeis prevalecessem na guerra.

Houve tempo em que as fadas ajudavam as órfãs, o beijo do príncipe ressuscitava a princesa do sono, os espelhos se rebelavam para responderem com honestidade e as crianças, talhadas em madeira, viravam gente.

Houve tempo em que a metáfora reinava na literatura. A copa das árvores era um cálice verde de onde respinga orvalho da manhã, a saudade, uma mulher que arruma o quarto do filho que já morreu e a alma da lua se escondia na garganta do galo que soluça seu canto na madrugada.

Houve tempo em que se falava de Deus como suspiro, olfato ou paladar.

Nele, encontrávamos o colo materno, perdido desde a adolescência. Deus era pastor solitário que, sentado numa pedra, espiava suas ovelhas a pastar numa montanha distante; era o amante que abandona um harém para cortejar sua amada; era o juiz que assume a briga dos mais frágeis; era o médico que traz um bálsamo para aliviar a dor da alma; era o amigo que se achega como irmão; era o rei que anuncia a chegada de uma nova ordem; era o pai que educa seus filhos para uma existência madura e autônoma.

Houve tempo em que se liam os textos sagrados com reverência. Diante do numinoso, o mortal tremia; diante do sagrado, o pecador temia; diante do infinito, o finito se perdia, diante do eterno, o humano encolhia.

Lentamente, teólogos e exegetas, cientistas e técnicos, gramáticos e lingüistas, minaram os sonhos e fantasia dos meninos, esvaziaram a verdade dos poetas, quiseram explicar o mistério, captar a verdade, sistematizar Deus, dissecar o poema e criticar a alegoria. E conseguiram!

Eles exilaram os magos que correm atrás das estrelas; sumiram com os profetas alucinados que falam de rodas de fogo no céu; queimaram as mulheres que sentem no corpo, o êxtase do divino.

Esses assassinos da beleza, no ímpeto de explicar o impossível e mapear os rumos do Espírito, deixaram o mundo mais pobre, a fé mais segura, a oração menos incerta e Deus ficou pequeno.

Agora, quem precisar de milagre, pode dispor de hábeis evangelistas que ajudam a abrir as janelas do céu; quem tiver dúvidas, pode comprar exaustivos manuais sobre Deus; quando a vida parecer ameaçadora, é possível domesticá-la, contratando profetas de aluguel.

Minha alma, porém, anseia pela poesia que me abandone reticente; pela prosa que me ferva o sangue; pela ficção que me comova as entranhas; pelo drama que me arrepie a pele; pelos personagens que saltem dos palcos para encarnar em mim.

Sinto que Deus ainda vive no sonho das crianças; ainda habita onde reside a musa do poeta; ainda se revela no desejo do profeta; ainda se move além do horizonte utópico do guerreiro.

Sinto que sua habitação fica no vazio, no nada, e que sua glória se esconde numa nuvem espessa e ofuscante.

Sinto que posso perceber sua verdade no desconhecido absoluto e no inaudível, escutar sua voz.

Sinto que Deus é vento imperceptível, verdade diáfana e mistério espantoso.

Portanto, morro para o anseio de fazer análise sintática ou crítica textual dos textos sagrados. Já não invejo os apologetas, só quero que me devolvam o que roubaram de mim: a alma dos poetas, o coração dos meninos e a leveza dos bailarinos.

Soli Deo Gloria.

Publicado em:  on Dezembro 20, 2009 at 12:30 pm Comentários desativados

Que deus é esse?

“Esse deus que esporadicamente vem trazer livramento aos seus eleitos é uma construção ideológica para acalmar as multidões. A tragédia humana, reduzida a mera máquina na linha de produção de cigarro ou automatizada pelo vai e vem do trânsito ou apequenada abaixo de sua dignidade em monturos de lixo, não comporta a ideia de um Deus todo-poderoso. Que deus é esse que acorrentado a um rancor milenar, nada faz pela sorte de homens e mulheres, mas os abandona na sorte mais cruel? A concepção de uma divindade ofendida, que resfolega ódio contra tantas pessoas condenando-as sofrer agruras indescritíveis, é absurda. Precisamos recompor a imagem que fazemos de Deus.”

trecho do texto Deus e a tragédia humana de Ricardo Gondim.

Publicado em:  on Dezembro 13, 2009 at 1:36 pm Comentários desativados

Humildade e coragem

Humildade é como coragem, só se mede coragem diante da morte ou de algo parecido. A mesma coisa com a humildade: só se mede humildade quando você tem razões objetivas para não ter humildade. Assim como a coragem não brota entre covardes, a humildade é uma agonia apenas para quem tem razões de ser orgulhoso.

Fazendo um giro teológico no argumento (em nome do espírito natalino): Cristo não é grandioso em sua humildade porque era um pobre miserável filho de carpinteiro (isso seria fácil, logo não seria virtude nenhuma), mas porque era Deus, o “Cara”.

Luiz Felipe Pondé
[via Pavablog]

Publicado em:  on Dezembro 9, 2009 at 1:07 am Comentários desativados

Perder para ganhar

Da mesquinhez e da necessidade de vencer até embates contra os sobrinhos no videogame, quero distância. Sou testemunha de quão bem esses princípios funcionam. Abrir mão de “ter razão” num conflito deixa o caminho livre para recompensas mais duradouras do que vencer a discussão. “Perde-se” a briga, mas a paz preenche o espaço que antes era ocupado por conquistas muitas vezes obtidas às custas de feridas naqueles que ousaram se interpor em nosso caminho.

Sérgio Pavarini
[via Pavablog]

Publicado em:  on Dezembro 1, 2009 at 11:33 pm Comentários desativados

Mulato de existências

Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não de raças, mas de existências.

Mia Couto

Publicado em:  on Novembro 29, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Negação da carne

Essa nossa infantil negação da carne nos torna, entre outras coisas, companhia insuportável para todos ao nosso redor, e ainda para nós mesmos. Vivemos como se a espiritualidade (como se a verdadeira vida!) fosse terreno exclusivo do incorpóreo e do intelectual – da oração, da devocional, da meditação, do discurso, da leitura. Fora raras exceções determinadas por um emocionalismo arbitrário, não conseguimos ver nenhuma espiritualidade num abraço, numa caminhada pela praia, num jogo de cartas, numa escalada, num café, numa churrascada, numa flor, num pedaço de pão, na mão de um amigo, numa dor de dente, nas pessoas que estão com você na casa de praia.

Jesus não apenas tolerou a carne. Ele não apenas rebaixou-se à carne e por certo não aboliu: Jesus a redimiu. Somos constantemente ensinados sobre a importância de morrer e ressuscitar como Jesus, mas – ai de nós – não há quem nos ensine a encarnar.

Paulo Brabo

Publicado em:  on Novembro 22, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Armadilha

Ao longo dos anos, percebi que a maior armadilha da vida não é o sucesso, a popularidade ou o poder, mas a auto-rejeição. Sucesso, popularidade e poder podem representar grandes tentações, mas a capacidade de sedução que possuem tem origem no fato de comporem uma tentação mais ampla: a auto-rejeição. Quando chegamos a acreditar nas vozes que nos chamam de inúteis e indignos de amor, então, o sucesso, a popularidade e o poder são facilmente percebidos como soluções atraentes.

Henri Nouwen

Publicado em:  on Novembro 15, 2009 at 2:01 pm Comentários desativados

Trevas e Luz

Pela violência pode se matar um assassino,
mas não se pode matar o assassinato.
Pela violência pode-se matar um mentiroso,
mas não se pode estabelecer a verdade.
Pela violência pode-se matar alguém que odeia,
mas não se pode matar o ódio.
As trevas não podem acabar com as trevas.
Somente a luz pode fazê-lo.

Martin Luther King Jr.

Publicado em:  on Novembro 14, 2009 at 1:45 am Comentários desativados

Profissão de fé

A capacidade de aceitar carinho dos outros e a capacidade de fazer carinho nos outros são confortos que com frequência se recuperam simultaneamente, visto que correspondem a ausências que normalmente andam juntas. Para se oferecer carinho requer-se um grau de maturidade e autoestima quase tão grande quanto requer-se para aceitá-lo. A indicação mais inequívoca de que o discípulo amado e a mulher pecadora se embrenhavam sem volta no caminho da salvação está em que o primeiro reclinava a cabeça sobre o peito de Jesus e a segunda massageava-lhe os pés com essência perfumada – e faziam-no publicamente, sem receios, sem rodeios e sem subterfúgios. Naquele sacrossanto momento não apenas Jesus lhes bastava, mas bastavam-se a si mesmos; ousaram acreditar que seu toque corresponderia a menos que uma ofensa, e essa sua terna conformidade à gentileza e à graciosidade lhes foi contada como profissão de fé.

Paulo Brabo

Publicado em:  on Outubro 20, 2009 at 9:02 pm Comentários desativados

Silêncio cômodo

Amor: quando o silêncio a dois se torna cômodo.

Mario Quintana

Publicado em:  on Outubro 14, 2009 at 1:33 am Comentários desativados

Acordo de coexistência

Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra.

Mário Lago

Publicado em:  on Outubro 10, 2009 at 12:55 am Comentários desativados

Não basta pregar

Não basta pregar: é necessário fazer, para que os homens se convençam. Não basta fazer entender: é necessário provar. No matrimônio do céu com a terra, se o céu pede à terra que suba, a terra exige que o céu baixe. Todos os mártires o sabem.

Cecília Meireles

Publicado em:  on Outubro 4, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Amor e liberdade

Amar é não aceitar jogo de máscara; É dar liberdade para o outro ser exatamente quem é, sem medo de rejeição.

Ricardo Gondim

Publicado em:  on Outubro 3, 2009 at 6:12 pm Comentários desativados

Máquina de infelicidade

“A televisão é uma máquina de infelicidade, na medida em que ela nos obriga a comparar.”

Rubem Alves

Publicado em:  on Setembro 24, 2009 at 12:36 am Comentários desativados

O quanto dura a tristeza

Uma noite é o quanto dura a tristeza, mas com qual fita métrica mediremos essa noite carente de alicerce e de cerca?

Alysson Amorim

Publicado em:  on Setembro 20, 2009 at 12:56 pm Comentários desativados

Amar o vazio.

Sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o voo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas.

Rubem Alves

Publicado em:  on Setembro 13, 2009 at 3:05 am Comentários desativados

Um dia você acorda

Um dia você acorda e sente que já não é mais o mesmo, que o cheiro da vida mudou, que as antigas motivações não lhe servem mais, como roupas antigas e apertadas, desbotadas pelo uso excessivo.

Um dia você acorda e percebe que a luz está diferente, que os sons da vizinhança não lhe dizem mais respeito, que o som do seu coração está cansado das mesmas batidas na terra, seu coração está pedindo é para voar. Percebe que antigos sonhos estão voltando, mas não têm lugar naquele pouco espaço que lhes foi destinado, como uma revoada de passarinhos a fazer um barulho incrível no seu peito, batendo asas e soltando penas.

Você acorda e se dá conta do que não fez, de onde não chegou, dos arranjos e das coisas e gentes que usou para seu gozo, e no entanto, não conseguiu ser íntegro consigo mesmo.

Um dia acorda e percebe: decepcionado, quis crer em tantas crenças e doutrinas, se esforçou para agradar a gregos e troianos, disse “sim” quando queria dizer “não”, e deixou de falar “não” tantas vezes que já não sabia mais qual era o seu querer, quais eram os seus sabores preferidos e a direção que escolheu caminhar.

Da mesma forma, acorda e percebe que estava com saudade da sua música, seus livros, seus segredos e seu ócio. Acorda e olha para o teto, vê possibilidades acima do teto; sorri, simpatizando-se com a aranha tecendo teimosa a despeito das estocadas diárias da vassoura.Sem se render, ela recomeça toda noite, e agora você se dá conta que existe a coragem de recomeçar.

Um dia você acorda e lembra que riu, comeu e sentou a mesa com gente que de fato nunca se importou, e você oferecendo seu melhor sorriso em troca de aceitação. Que bobagem. Lembra que não protestou diante de absurdos, recolhendo-se à boa educação de sempre.Lembra que deu o relógio para a pessoa errada, e deixou de abraçar por puro preconceito, e que não tentou mais uma vez.

Um dia você acorda cansado de dizer que está cansado de viver, e decide que vai correr o risco de recapitular suas teologias e filosofias.

Um dia. Um dia você acorda.

Helena Beatriz Pacitti

Publicado em:  on Setembro 7, 2009 at 1:53 pm Comentários desativados

Sobre o amar e o ouvir

Amamos não a pessoa que fala bonito, mas a pessoa que escuta bonito… A arte de amar e a arte de ouvir estão intimamente ligadas. Não é possível amar uma pessoa que não sabe ouvir. Os falantes que julgam que por sua fala bonita serão amados são uns tolos. Estão condenados a solidão. Quem só fala e não sabe ouvir é um chato… O ato de falar é um ato masculino. Fala é falus: algo que sai, se alonga e procura um orifício onde entrar, o ouvido… Já o ato de ouvir é feminino: o ouvido é um vazio que se permite ser penetrado. Não me entenda mal. Não disse que fala é coisa de homem e ouvir é coisa de mulher. Todos nós somos masculinos e femininos ao mesmo tempo. Xerazade, quando contava as estórias das 1001 noites para o sultão, estava carinhosamente penetrando os vazios femininos do machão. E foi dessa escuta feminina do sultão que surgiu o amor. Não há amor que resista ao falatório.

Rubem Alves

Publicado em:  on Agosto 11, 2009 at 12:40 am Comentários desativados

Quem é o meu próximo?

E perguntaram a Jesus: “Quem é o meu próximo?” E ele lhes contou a seguinte parábola:

Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram: “Vá passando a carteira”. O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão.

Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas: “Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você.” Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: “Ego te absolvo…” Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião.

Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho: “Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!” O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, “aleluia!” e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma.

Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: “Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram. Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir.” Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma.

O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido.

Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: “Quem foi o próximo do homem ferido?”

Rubem Alves
Correio Popular, 21 de julho de 2002

fonte: PavaBlog

Publicado em:  on Agosto 1, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Vida

Às vezes ouço passar o vento;
e só de ouvir o vento passar,
vale a pena ter nascido.

Fernando Pessoa

Publicado em:  on Julho 10, 2009 at 12:30 pm Comentários desativados

Quero aprender a adorar.

“Quero aprender a adorar. Transformar genuflexão em serviço; descer do alto de meus privilégios para estender a mão ao mortiço que jaz na estrada próxima de Jericó. Desistir de suplicar qualquer graça que me distinga do resto da humanidade – longevidade, vingança, cura ou riqueza. Desejo ser brindado com a bênção de encarnar Deus entre homens e mulheres. E assim poder dizer que não vivi em vão.”

trecho do texto Despedidas e anseios de Ricardo Gondim

Publicado em:  on Julho 9, 2009 at 12:45 pm Comentários desativados

Idades e ideias.

“Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias. Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem ideias. Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias. Aos 60 ainda temos ideias mas esquecemos de que estávamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormimos.”

Mia Couto em Venenos de Deus, remédios do Diabo

Publicado em:  on Junho 29, 2009 at 2:00 pm Comentários desativados

Viagem

Ver o sofrimento de perto, tocar na ferida que não dói na nossa carne, mas que de alguma maneira pode nos humanizar. Andar na direção do outro é também fazer uma viagem. Mas não leve muita coisa. Não tenha medo das ausências que sentirá. Ao adentrar o território alheio, quem sabe assim os seus olhos se abram para enxergar de um jeito novo o território que é seu. Não leve os seus pesos. Eles não lhe permitirão encontrar o outro. Viaje leve, leve, bem leve. Mas se leve.

Fábio de Melo
fonte: PavaBlog

Publicado em:  on Junho 28, 2009 at 10:00 am Comentários desativados

Quero voltar ao início de tudo

“São pobres, mas enriquecem muita gente; de tudo carecem, mas em tudo abundam. São desonrados, e nas desonras são glorificados; injuriados, são também justificados. Insultados, bendizem; ultrajados, prestam as devidas honras.”

trecho da Carta a Diogneto,
testemunho sobre os cristãos escrito cerca de 120 d.C. [via Pavazine Ano 3 - N.º 106]

Publicado em:  on Junho 23, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Inquietações

QUE É O HOMEM, para que tanto o estimes,
e ponhas nele o teu cuidado,
e cada manhã o visites,
e cada momento o ponhas à prova?
Até quando não apartarás de mim a tua vista?
Até quando não me darás tempo de engolir
a minha saliva?

Jó 7.17-19

Publicado em:  on Junho 16, 2009 at 10:26 pm Comentários desativados

Aliás, qual o sentido da vida?

“Aliás, qual o sentido da vida? Acertar com um roteiro previamente escrito? Procurar a Verdade? Aquela verdade definitiva que explica o porquê da flor no topo da montanha ou do vulcão submarino que alimenta as bactérias com o enxofre que a terra cospe?

Esgarçamos como punho de camisa. Não passamos de um sono furtivo; o sono dos cansados, que não percebem as longas horas da noite. Somos o conto ligeiro que a mãe lê para os filhos agitados.”

trecho do texto o que são cinco décadas? de Ricardo Gondim

Publicado em:  on Junho 11, 2009 at 6:21 pm Comentários desativados

A vida

Ricardo Gondim

A vida é emoção. Apaixonados, lutamos contra os dias que escorrem como água entre os dedos. Imprecisa, não-evidente, enviesada, carente de construção, a vida espera ser talhada por artesãos. No caldo da angústia universal, confia que alquimistas transformarão atrevimento em circunspeção. Quer converter Valquírias em Marias, bárbaros em samaritanos.

A vida é mistério. De onde vem o sentimento de beleza? Por que entesouramos os instantes delicados do passado? Por que a morte desfigura e esfumaça os olhos? Para onde se expande a margem extrema do universo? Que mecanismo impede a mente de ressentir dores? Por que nos vemos como outra pessoa nos sonhos, mas sempre sendo nós?

Infelizmente começamos com afirmações e esquecemos as perguntas. Não transformamos os pontos de interrogação em lupas. Presunçosos, não carregamos o pente fino da dúvida no bolso do colete. Cegos, temos medo das aporias. Desistimos dos porquês infantis e ficamos com as certezas que nos entorpecem.

A vida é triste. Agonizamos com a lama burocrática que encobre o vilarejo pobre. Impotentes, tentamos resistir o mal sistêmico que prescinde das pessoas. Não entendemos como as elites conseguiram inventara o motor-contínuo para energizar a máquina da injustiça. Perdidos, procuramos fazer com que bondade e misericórdia não desapareçam do vocabulário religioso. Abatidos, vemos a sordidez sentar na cadeira da polidez. A implacabilidade ganhar da bondade. A ambigüidade moral amordaçar a solidariedade.

A vida é bela – e sempre desejável, dizia o poeta. O dilúvio não descolore a aquarela que se refrata na neblina. Homens e mulheres continuam a esperar por um novo céu e uma nova terra, onde crianças brincam com serpentes. Percebemos o divino no bailar da folha enamorada do vento. Celebramos a formosura de viver no ancião que planta uma árvore, na mãe que ensina a filha surda a falar com as mãos, no menino que, na capoeira, faz da luta uma dança.

A vida é trágica. Subimos no palco sem roteiro. Não passamos de atores sem texto para decorar. Personagens que atuam sem noção do instante que as cortinas descerão. Contracenamos com gente que acabamos de encontrar. Vez por outra escutamos apupos e procuramos as máscaras sorridentes, que disfarçam os constrangimentos. Sem coxia, não temos para onde correr. Assumimos diferentes papeis mesmo sabendo que a tragédia é inevitável. Sofremos. Quando nos acostumamos com os holofotes, o diretor grita: acabou o espetáculo.

Soli Deo Gloria

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em:  on Junho 7, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Contingência e o vôo 447

Ricardo Gondim

O mundo está em choque. De novo a contingência mostra sua cara na tragédia do vôo da Air France. Vale lembrar: contingência significa que os acontecimentos não são sempre necessários. Quando ocorre alguma coisa sem uma razão que a explique ou justifique. Contingência gera imprevisto; fatos que escapam à engrenagem da causa e do efeito. Um avião cai porque o mundo é contingente, não porque tenha sido vítima do destino ou de um plano de Deus.

Diz-se no senso comum que as pessoas só morrem quando chega a hora. Caso isso fosse verdadeiro, o destino reuniu em uma aeronave as pessoas que deveriam morrer naquele dia. Isso daria à fatalidade um poder apavorante. Impossível pensar que gente de mais de trinta países entrou no vôo 447 sem saber que obedecia a uma força cega, que determinava aquele como o último dia de suas vidas.

Igualmente, acreditar que Deus permite a queda do avião porque tem algum propósito, soa esquisito. Cada pessoa, com histórias, projetos, sonhos, foram arrancadas da existência para que se cumprisse qual objetivo? Um objetivo macro? Isto é, para que a humanidade aprendesse ou se arrependesse? Isso faria com que as biografias fossem descartáveis, desprezíveis. O Divino Oleiro, sem precisar se explicar, afogaria tanta gente para conduzir a macro história para o fim glorioso? Sim? Mesmo que exista esse deus, eu não o quero.

Também, algumas pessoas aceitam que Deus tem um plano para cada morte individual. Verdade, ele é Deus, tem todo o poder e é capaz de reunir, em um só lugar, quem deveria morrer. Mas também é bom. Então todos os passageiros foram eleitos para cumprir qual bem? Satisfaz pensar que o bem de ceifar tantas vidas, mesmo sem nenhum sentido do lado de cá, na eternidade está garantido? (Deus sabe o que faz?!?!) Como explicar tal conceito para pais, filhos e parentes desolados? Todos acorrentados à trágica realidade que lhes roubou de seus queridos.

A idéia de que Deus tem um plano para cada morte se esvazia diante dos números. Um avião caiu, mas o que dizer dos incontáveis acidentes de todos os dias? O que dizer das balas perdidas que aleijam transeuntes? E dos erros médicos ou dos acidentes de trânsito? Recentemente uma senhora de nossa comunidade caiu da laje da casa em construção. Ela fotografava a obra para que a filha ajudasse com as despesas do acabamento. Quebrou a coluna e ficou paraplégica. A última explicação que se poderia dar é que Deus tinha um plano em deixá-la aleijada.

Jesus nunca cogitou o mundo sem contingência. Pelo contrário, não atrelou a queda de uma torre aos desígnios divinos; não disse que a cegueira do homem era consequência causal das ações interiores, dele ou de seus pais; advertiu que os seus discípulos enfrentariam tempestade, aflição e morte.

Contingência é o espaço da liberdade, portanto, da condição humana. Sem contingência nos desumanizaríamos. A consciência do risco de adoecer e da imprevisibilidade da morte súbita é o preço que pagamos por nossa humanidade.

O desastre do avião mostra a inutilidade de pensar que o exercício correto da religião e a capacidade tecnológica mais excelente sejam suficientes para anular a contingência. Nossa vida é imprecisa e efêmera. Portanto, vivamos intensamente. Cada instante pode ser o último – Carpe Diem!

Soli Deo Gloria

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em:  on Junho 4, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Sentido

Não sei se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
Se não tocarmos o coração das pessoas.

Cora Coralina

Publicado em:  on Junho 3, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Clichês e frases feitas

Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência. Se respondêssemos todo o tempo a esta exigência, logo estaríamos exaustos.

Hannah Arendt

Publicado em:  on Maio 25, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Determinação

Ricardo Gondim

Há momentos em que nada faz sentido. Os acessos ficam comprometidos, as frestas entupidas, as janelas cerradas. Decepção substitui confiança, tristeza apaga o ímpeto e abatimento contamina a gesta heróica. O calor da peleja traiçoeiramente solapa a energia fundamental de viver. As pedras de arranque cedem sob os pés e se esgota o entusiasmo. As balizas do sentido caem. Os diques das emoções se rompem.

Há momentos em que o silêncio absoluto e impenetrável da covardia abafa a coragem. O império da culpa confisca a confiança. O pavor do inesperado transforma a alma em masmorra e os sonhos definham em um imobilismo soturno. A poesia versifica o tédio e procura rima para fatiga. O espírito entra no compasso do soluço.

Há momentos em que determinação vira sinônimo de teimosia. As escolhas acontecem, empurradas, forçadas. A vida é tangida sem ânimo. Opta-se por constrangimento. Vai-se adiante, simplesmente. O horário cumprido, a tarefa realizada, e só. No tabuleiro, o peão cumpre as regas; no palco, a marionete dança com os dedos do títere; na vida, as pessoas decoram roteiros.

Há momentos em que não se pode retroceder. O próximo, o próximo, o próximo, dita a voz soturna que ordena a fila que desce a vertiginosa ladeira existencial. Assim, resilientes e determinados, os humanos caminham. De dever em dever, chegarão ao último e inusitado compromisso, a morte.

Soli Deo Gloria

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em:  on Maio 23, 2009 at 6:00 pm Comentários desativados

Do lado esquerdo do peito

“Nosso pecado original não é moral. É o vazio dolorido que mora em nós. Vivemos a vida toda à procura de algo que preencherá esse vazio e nos completará. Quando isso parece acontecer, como na experiência do apaixonado, encontramos a felicidade. Estamos completos. Mas o que é isso que encontramos – ou imaginamos encontrar – na pessoa amada?”

Rubem Alves em Cantos do Pássaro Encantado

Publicado em:  on Maio 21, 2009 at 10:00 pm Comentários desativados

Antes do altar

“Diante da possibilidade de casamento, só existe uma pergunta a ser feita – terei prazer em conversar com essa pessoa até o fim dos meus dias? Pois é com os tênues fios da conversa que se tece o amor.”

Friedrich Nietzsche

Publicado em:  on at 7:00 pm Comentários desativados

Entre quatro paredes

“Um dos maiores erros que a igreja pode cometer é fechar-se em si mesma. Chamemos a isto de guetoísmo. Pregamos para nós mesmos e cantamos para nós mesmos. Não nos preocupamos sequer em usar uma linguaguem que seja mais compreensível para aqueles que não frequentam nossos guetos. Consideramo-nos melhores que os outros, melhores que os perdidos, sem perceber que só não somos perdidos por termos sido alcançados pela graça e, consequentemente, termos sido vocacionados, em Cristo, para viver em amor e serviço pelos perdidos.”

Ricardo Quadros Gouvêa em A Piedade Pervertida

Publicado em:  on Maio 20, 2009 at 7:00 pm Comentários desativados

A humildade

Ricardo Gondim

Sobre a humildade, concordo com André Comte-Sponville: “Não é a ignorância do que somos, mas, ao contrário, conhecimento, ou reconhecimento de tudo o que não somos”. É a admissão de que cheguei onde estou sem gabar-me: “sou o que sou pela graça”.

Quando penso em humildade, acompanho Dwight Moody: “O homem pode demonstrar um falso amor, uma falsa fé, uma falsa esperança e outras graças, mas jamais poderá simular humildade”. Também concordo com Stanley Jones: “A essência do divino é a humildade. O primeiro passo para encontrar a Deus é destruir nosso orgulho”.

A humildade não sobrevive sem que se aniquilem as falsas onipotências. O petulante não admite fragilidades, não reconhece limites, não aceita inadequações. O soberbo se embrutece porque é insaciável. Apropria-se da pergunta do poeta: “Por que não é infinito o poder humano, como o desejo?” Dionisíaco, atropela quem estiver na frente. Odeia ser frustrado.

Spinoza dizia que “a humildade é uma tristeza nascida do fato de o homem considerar sua impotência ou sua fraqueza”. Nietzsche bateu o martelo: “Conheço-me demais para me glorificar do que quer que seja”. E Comte-Sponville conclui: “O que é mais ridículo do que bancar o super-homem?… A humildade é o ateísmo na primeira pessoa: o homem humilde é ateu de si, como o não-crente o é de Deus”.

A humildade e a gratidão necessitam uma da outra. O humilde sabe que não se fez; não é o self-made man, que se recusa a reconhecer os que lhe ajudaram nos primeiros degraus. Sente-se devedor dos pais que se sacrificaram para que estudasse, dos professores que lhe incutiram valores, dos amigos que nunca censuraram na vergonha, dos poetas que traduziram beleza, dos profetas que lhe falaram em nome de Deus. Nos solilóquios, repete: “Não sou a causa de mim mesmo; vejo nos outros a raiz da minha alegria; celebro o meu presente como um dom”.

A humildade é esvaziamento. O prepotente não consegue amar. Só quem abre mão dos controles sabe deixar-se invadir pela compaixão.

Simone Weil afirmou que “o amor consente tudo e só comanda os que consentem em ser comandados”. Amor é renúncia. Não existe a possibilidade de coerção e amor se misturarem. O pretensioso é inflexível, impaciente e estúpido. O humilde recua, na recusa de exercer força, poder, violência.

A humildade é demasiadamente discreta. Se pretendo, um dia, ser humilde ninguém pode perceber. Mas, espero aprender a não cobiçar a divindade.

Soli Deo Gloria

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em:  on Maio 18, 2009 at 4:00 pm Comentários desativados

Amar não acaba

Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia. Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

Clarice Lispector

Publicado em:  on Maio 17, 2009 at 7:00 am Comentários desativados

Ética cristã

Se a ética cristã fosse posta em prática, resolveríamos problemas de convivências que a cada dia se complica mais, pois leva à solidão e à agressividade. Infelizmente o que vemos em certos círculos religiosos é um cristianismo puramente de fachada.

Érico Veríssimo

Publicado em:  on Maio 16, 2009 at 10:00 pm Comentários desativados

A maior solidão

Não, a maior solidão é a do ser que não ama.
A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

Vinícius de Moraes

Publicado em:  on at 7:00 pm Comentários desativados

Amamos tão pouco

Amamos tão pouco e tão mal, com uma metade ou até mesmo com um quarto de nós mesmos. E amamos, no outro, alguns pedaços escolhidos, os mais conhecidos, aqueles que nos causam menos medo. É tão raro amarmos alguém por inteiro, com aquilo que nos agrada e com aquilo que não nos agrada. É tão raro sermos amados por inteiro, com nossas cavidades de sombra, com nossos dorsos de luz.

Jean-Yves Leloup

Publicado em:  on at 5:00 pm Comentários desativados

Excelência e amor

Ricardo Gondim

Padre Antônio Vieira contou uma breve parábola sobre o amor.

Certo homem saiu para caçar. Tentou acertar vários animais, mas errou todos. Ruim de pontaria e mal sucedido em abater um bicho que alimentasse a família, voltava triste para o lar. A poucos metros da porta de casa, viu uma cobra enrolada no pescoço do filho caçula. Sem hesitar retesou o arco e flechou a serpente. Acertou-lhe em cheio e salvou a vida do filho.

Vieira então pergunta: “O que fez o pai para acertar a cabeça da áspide, se era um péssimo caçador, ruim de pontaria?”. Por que, de repente, o homem fez-se exímio no arco e flecha? Vieira responde: “O amor”. O amor sempre forja especialista, sempre cria excelência. As pessoas tornam-se criteriosas devido ao afeto.

Quem ama não aceita a lógica do “de qualquer jeito”; aliás, detesta “jeitinhos”. Extravagante nos gestos, refina atitudes. Os amantes caminham milhas extras sem perceber; transformam as decisões banais em mandamentos divinos. O esmero nasce do amor.

Soli Deo Gloria

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em:  on Maio 15, 2009 at 8:00 pm Comentários desativados

Breve existência

Lembra-te de como é breve
a minha existência!
Pois criarias em vão
todos os filhos dos homens!
Que homem há, que viva e não veja a morte?
Ou que livre a sua alma das garras do sepulcro?

Salmos 89:47-48

Publicado em:  on at 3:00 pm Comentários desativados

Cremos na paz

“Cremos na paz e bateremos a todas as portas para alcançar o seu reino. Queremos a paz entre os homens, como os caminhantes esperam água no caminho para restabelecer a força perdida. De minha parte, entrei em todas as casas sem me abriam a porta.
Quis conversar com toda a gente. Não temi o contágio dos contrários, dos inimigos. E prosseguirei fazendo-o. Penso que o diálogo não pode esgotar-se, que nenhum conflito é um túnel fechado e que pode entrar a luz do entendimento pelas duas extremidades.”

Pablo Neruda , em discurso pronunciado no Teatro Municipal de Santiago do Chile.

Publicado em:  on at 10:00 am Comentários desativados

Prisioneiro das necessidades

“Considerando a liberdade como o aumento e a rápida satisfação das necessidades, os homens deformam a sua natureza e fazem nascer em si um número cada vez maior de desejos insensatos e hábitos absurdos. Vive-se apenas para a inveja, a satifação dos instintos e a ostentação. Dar banquetes, viajar, possuir luxuosas carruagens, hierarquia social e criados, considera-se tudo isso uma tal necessidade que, por ela, sacrificam-se a vida, a honra, o amor à humanidade, e até se suicidam quando não podem satisfazê-la.

O mesmo se vê entre os que não são ricos; quanto aos pobres, a insatisfação das necessidades e a inveja são, por enquanto, abafadas pela embriaguez. Em breve, porém, em lugar de vinho, vão embebedar-se de sangue. [...] Aonde irá este prisioneiro das numerosas necessidades por ele mesmo inventadas? [...] O mundo zomba do noviciado, do jejum e da oração, mas só eles encerram o caminho para a verdadeira liberdade: suprimem-se as necessidades supérfluas, doma-se e flagela-se a vontade egoísta e soberba e atinge-se, com a ajuda de Deus, a liberdade do espírito e, com ela, a alegria espiritual.”

Dostoiévski

Publicado em:  on Maio 14, 2009 at 11:00 am Comentários desativados

Gosto do inacabado

“… Por que livrar-se do que se amontoa, como em todas as casas, no fundo das gavetas? Vide Manuel Bandeira: para que ela me encontre com “a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar”? (…) Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão.”

Clarice Lispector

Publicado em:  on at 9:00 am Comentários desativados

Pior cegueira

Não há pior cegueira que a de não ver o tempo,
E nós já não temos lembrança
senão daquilo que os outros fazem recordar
Quem hoje passeia a nossa memória
pela mão são exatamente aqueles que, ontem,
nos conduziram à cegueira.

Mia Couto

Publicado em:  on Maio 13, 2009 at 6:00 pm Comentários desativados

Viver

É PRECISO amar a vida mais que o sentido da vida.

Dostoiévski

Publicado em:  on at 12:00 pm Comentários desativados

Servir: privilégio de poucos

É natural ao coração humano a busca de conforto, status, poder e tudo quanto vem agregado a estas realidades. Tiago, João e sua mãe foram até Jesus solicitar tais privilégios na consumação do reino de Deus. Jesus não disse nem que sim, nem que não, mas aproveitou para reforçar que o reino de Deus é reino de servos e, portanto, os servos são os verdadeiros governantes do mundo. No reino de Deus, o privilégio e o ônus de governar não é das “pessoas importantes”, mas dos servos, até porque, governar é servir. No reino de Deus, a maneira de governar não é exercendo domínio sobre os governados, mas servindo os governados, até porque, governar é servir. Na lógica do reino de Deus, o oposto também é verdadeiro: servir é governar.

Para servir é necessário sair da zona de conforto, isto é, fazer o indesejado, dedicar tempo para tarefas pouco atraentes, assumir responsabilidades desprezadas pela maioria, fazer “o trabalho sujo”, enfim fazer o que ninguém gosta de fazer. Para servir é necessário vencer o orgulho, isto é, se dispor a ser tratado como escravo, ter os direitos negligenciados, ser desprestigiado, sofrer injustiças, conviver com quase nenhum reconhecimento, enfim, não se deixar diminuir pela maneira como as pessoas tratam os que consideram em posição inferior. Para servir é necessário abrir mão dos próprios interesses, isto é, pensar no outro em primeiro lugar, ocupar-se mais em dar do que em receber, calar primeiro, perdoar sempre, sempre pedir perdão, enfim, fazer o possível para que os outros sejam beneficiados ainda que às custas de prejuízos e danos pessoais.

Não é por menos que em qualquer sociedade humana existem mais clientes do que servos. Servir não é privilégio de muitos. Servir é para gente grande. Servir é para gente que conhece a si mesma, e está segura de sua identidade, a tal ponto que nada nem ninguém o diminui. Servir é para gente que conhece o coração das gentes, de tal maneira que nada nem ninguém causa decepção suficiente para que o serviço seja abandonado. Servir é para quem conhece o amor, de tal maneira que desconhece preço elevado demais para que possa continuar servindo. Servir é para quem conhece o fim a que se pode chegar servindo e amando, de tal maneira que não é motivado pelo reconhecimento, a gratidão ou a recompensa, mas pelo próprio privilégio de servir. Servir é para gente parecida com Jesus. Servir é para muito pouca gente.

A comunidade cristã – a Igreja, pode e deve ser vista, portanto, como uma escola de servos. Uma escola onde aprendemos que somos portadores do dna de Deus, dignidade que ninguém nos pode tirar. Uma escola onde aprendemos que, por mais desfigurado que esteja, todo ser humano carrega a imagem de Deus. Uma escola onde aprendemos a amar, e descobrimos que, se “não existe amor sem dor”, jamais se ama em vão. Uma escola onde aprendemos que “mais bem aventurada coisa é dar do que receber”.

Servir é mesmo privilégio de poucos. De minha parte, preferiria ser servido. Mas aí teria de abrir de mão do reino de Deus. Teria de abrir mão de desfrutar do melhor de mim mesmo. Teria de abrir mão de você. Definitivamente, me custaria muito caro. Nesse caso, continuo na escola.

Ed René Kivitz

Publicado em:  on at 8:00 am Comentários desativados

A farpa da Cruz

Eu estive lá. E participei do ato.

Ao final, toquei no madeiro. Um fiapo penetrou na palma da mão. Levei comigo.

Nada a se comparar com a Sua dor, Seu último suspiro. Era um pedaço de lembraça – sem poder, sem mágica, sem efeitos outros. A não ser, o de martelar em minha memória o quão real foi o Seu momento. E o quão ligado eu estaria ao Seu sacrifício.

A hora nona pesava sobre todos. O céu se tornou em noite escura.

Mais tarde ao limpar os vestígios de minha cumplicidade, percebi que o culpado tinha sido eu, e Ele inocente tinha sido levado ao matadouro.

Volney Faustini

Publicado em:  on Maio 11, 2009 at 11:00 pm Comentários desativados

É fácil…

Ricardo Gondim

Culpar o diabo pelos demônios que o próprio coração cria;

Transferir para a natureza corrompida, a iniqüidade que a soberba produz;

Jogar nas costas dos pais, a podridão que a cobiça provoca;

Projetar no próximo, o que a vaidade não deixa o espelho mostrar.

Soli Deo Gloria

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em:  on at 4:00 pm Comentários desativados

Sociedade atual

“A sociedade atual não se inspira em ideais superiores em termos de civilização, como no Iluminismo. O que nos dá a sensação de progredir é comprar, comprar, comprar. Essa lógica apenas aumenta nossa insatisfação.”

Luc Ferry, filósofo francês

Publicado em:  on at 3:00 pm Comentários desativados