Para recomeçar o infinito

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Pablo Neruda

Publicado em:  on Dezembro 3, 2009 at 1:30 am Comentários desativados

A saudade

Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Chico Buarque

Publicado em:  on Novembro 28, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

A verdade dividida

A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

Publicado em:  on Novembro 25, 2009 at 10:46 pm Comentários desativados

Doce revelação

Como relâmpagos para crianças que dormem tranquilas
Como uma doce revelação
A verdade precisa deslumbrar gradualmente
Ou todos ficarão cegos.

Emily Dickinson

Publicado em:  on Novembro 16, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Um mundo num grão de areia

Ver um mundo num grão de areia
E o céu numa flor silvestre,
Ter o infinito na palma da sua mão
E a eternidade numa hora.

William Blake

Publicado em:  on Novembro 1, 2009 at 10:41 am Comentários desativados

O pior dos erros

Cometi o pior dos pecados
que um homem possa cometer:
Não fui feliz.

Jorge Luiz Borges

Publicado em:  on Setembro 20, 2009 at 4:14 pm Comentários desativados

É preciso não esquecer nada

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a ideia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Cecília Meireles

Publicado em:  on Setembro 11, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Hermandad

Soy hombre: duro poco
Y es enorme la noche.
Pero miro hacia arriba:
Las estrellas escriben.
Sin entender compreendo:
También soy escritura
Y en este mismo instante
Alguien me deletrea.

Octavio Paz

fonte: PavaBlog

Publicado em:  on Setembro 6, 2009 at 1:48 pm Comentários desativados

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante.

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.

Vinicius de Moraes

fonte: Timilique!

Publicado em:  on at 1:16 pm Comentários desativados

Nascer do dia

Como clareia: é aos golpes,
no céu, a escuridão
puxada aos movimentos.

Guimarães Rosa

Publicado em:  on Agosto 28, 2009 at 2:13 am Comentários desativados

Pelas costas

A serpente se pensava segura
em seu aposento extremo no primeiro livro,
inteiramente à salvo das justiças que se fizeram depois.
Porém do Apocalipse saiu uma espada,
e rasgou a última capa de dentro para fora;
sua lâmina curva contornou o livro,
perfurou-lhe a capa e penetrou o Gênese –
e a serpente foi pega inteiramente de surpresa.

Paulo Brabo

fonte: A Bacia das Almas

Publicado em:  on Agosto 14, 2009 at 2:17 am Comentários desativados

O meu chão

Vivo unido ao retumbante fracasso
de um Messias que amou os desvalidos.

Cogito ligado ao magistral escândalo
de um Deus que morreu.

Sigo conectado à louca mensagem
de um Andarilho que inspirou pescadores.

Ricardo Gondim

Publicado em:  on Julho 28, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Saudade é…

Saudade é um parafuso
que dentro da rosca cai,
só entra se for torcendo
porque batendo não vai,
e quando enferruja dentro,
nem destorcendo sai.

Candéia,
seringueiro do Acre

Publicado em:  on Julho 22, 2009 at 4:00 pm Comentários desativados

O amor é como o mar.

O amor é como o mar: sendo infinito
espera ainda em outra água se completar.

Mia Couto

Publicado em:  on Julho 3, 2009 at 4:00 pm Comentários desativados

A coisa que mais quero

Amor é a coisa mais alegre.
Amor é a coisa mais triste.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre.
Amor é a coisa mais triste.
Amor é a coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra-sabão.
Alegre ou triste,
amor é a coisa que mais quero.

Adélia Prado

Publicado em:  on Junho 14, 2009 at 1:23 pm Comentários desativados

Alegria

A tristeza se desfaz
Como a neve em maio,
Como se algo tão gelado assim não existisse.

The Flower,
por George Herbert

Publicado em:  on Junho 10, 2009 at 4:00 pm Comentários desativados

Na dor da minha saudade

Conta-se de um homem que era apaixonado por sua mulher. A morte, entretanto, indiferente ao amor, levou-a. Ele ficou dilacerado pela dor e dirigiu-se aos deuses, pedindo que trouxessem a sua mulher da casa dos mortos. Os deuses responderam que não tinham poder sobre a morte, mas tinham poder sobre o sofrimento dele. Eles poderiam curá-lo do sofrimento.
- Como assim? – o homem perguntou.
- O seu sofrimento se deve ao fato de que você se lembra dela e sente saudades. Se nós a apagarmos da sua memória, você deixará de ter saudades e ficará feliz…
- Tudo menos isso! – ele gritou. – Porque é na dor da minha saudade que ela continua viva…

Rubem Alves

Publicado em:  on Maio 22, 2009 at 12:00 pm Comentários desativados

Saudade de Deus

Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
Como a parte da praia onde o mar não chega.
[...]
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também…

Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa…

Álvaro de Campos

Publicado em:  on Maio 21, 2009 at 4:00 pm Comentários desativados

Nosso amor

O nosso amor
Vai ser assim
Eu pra você
Você pra mim.

Tom Jobim e Vinícius de Moraes

Publicado em:  on at 1:00 pm Comentários desativados

Amei-te muito antes

Quando te vi amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.

Fernando Pessoa

Publicado em:  on at 10:00 am Comentários desativados

Conhecer é desobedecer

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou…

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!…

Alberto Caeiro

Publicado em:  on Maio 17, 2009 at 3:00 pm Comentários desativados

Amar (sempre) se aprende amando

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

Carlos Drummond de Andrade

fonte: PavaBlog

Publicado em:  on Maio 16, 2009 at 11:59 pm Comentários desativados

Verdade e mentira

A verdade, pisoteada no chão, renascerá;
São dela os anos eternos de Deus.
O erro, porém, ferido, contorce-se de dor,
E morre entre seus admiradores.

William Cullen Bryant

Publicado em:  on at 9:00 pm Comentários desativados

Sonho Impossível

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

Chico Buarque,
e sua formidável tradução de uma letra
da ópera de Dom Quixote de La Mancha

Publicado em:  on at 8:00 pm Comentários desativados

Instante

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Carlos Drummond de Andrade,
trecho do poema As Sem-Razões do Amor

fonte: Timilique!

Publicado em:  on at 4:00 pm Comentários desativados

Fio de silêncio

A missanga, todas a vêem.

Ninguém nota o fio que,
em colar vistoso, vai compondo as missangas.

Também assim é a voz do poeta:
um fio de silêncio costurando o tempo.

Mia Couto

Publicado em:  on Maio 15, 2009 at 11:00 pm Comentários desativados

Tarde

TARDE?
O dia dura menos que um dia.
O corpo ainda não parou de brincar
E já estão chamando da janela:
É tarde.

Ouço sempre este som: é tarde, tarde.
A noite chega de manhã?
Só existe a noite e seu sereno?

O mundo não é mais, depois das cinco?
É tarde.
A sombra me proíbe.
Amanhã, mesma coisa.
Sempre tarde antes de ser tarde.

Carlos Drummond de Andrade

Publicado em:  on at 12:00 pm Comentários desativados

A vida num ritmo diferente

A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante..
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.

Ele é o eterno errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibiidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
Olhando o espaço imenso da sua alma.
O Poeta sorri.

Vinicius de Moraes

Publicado em:  on Maio 13, 2009 at 5:00 pm Comentários desativados

Vale a pena viver

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um ‘não’.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo…

Fernando Pessoa

Publicado em:  on at 11:00 am Comentários desativados

Criação

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Alberto Caeiro

Publicado em:  on at 7:00 am Comentários desativados

Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes

Publicado em:  on Maio 11, 2009 at 9:00 pm Comentários desativados

Metade de mim

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
Mas a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é a platéia
A outra metade é a canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Oswaldo Montenegro

Publicado em:  on at 8:00 pm Comentários desativados

Um doce som

Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem…

Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a natureza.

Alberto Caeiro

Publicado em:  on at 7:00 pm Comentários desativados

O rio

Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.

Um rio nasceu.

Vinicius de Moraes

Publicado em:  on at 6:00 pm Comentários desativados

O avesso de mim

Quando digo o que sou, de alguma
forma eu o faço para também dizer
o que não sou. O “não ser está no avesso
do ser”, assim como o tecido
só é tecido porque há um avesso que o nega, não
sendo outro, mas complementado-o.
O que não sou também é uma forma de ser.
Eu sou eu e meu avessos.

Fábio de Melo

Publicado em:  on at 11:00 am Comentários desativados

Ama-me por amor do amor somente

Não digas:
“Amo-a pelo seu olhar,
o seu sorriso, ou modo de falar
honesto e brando.
Amo-a porque
se sente minh’alma em
comunhão constantemente
com a sua”.

Porque pode mudar isso tudo,
em si mesmo,
ao perpassar do tempo,
ou para ti unicamente.

Nem me ames
pelo pranto
que a bondade
de tuas mãos enxuga,
pois se em mim secar,
por teu conforto
esta vontade de chorar,
teu amor pode ter fim!

Ama-me por amor do Amor,
E assim me hás de querer
por toda a eternidade.

Elizabeth Barrett Browning
tradução: Manuel Bandeira

fonte: Pavablog

Publicado em:  on Maio 10, 2009 at 9:00 pm Comentários desativados

Beba o cálice!

Tão bom viver dia a dia
A vida, assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos,
como essas nuvens do céu.

Mario Quintana

Publicado em:  on at 12:41 pm Comentários desativados

O mundo de Deus

Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade.”
E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho…
Ora, quem acha que um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres…
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro
- existirão milagres mais estranhos?

Walt Whitmann

Publicado em:  on Maio 9, 2009 at 9:00 am Comentários desativados

Na minha a tua ferida

essa a vida que eu quero,
querida

encostar na minha
a tua ferida

Paulo Leminski

Publicado em:  on at 8:00 am Comentários desativados

Viagem

esta vida é uma viagem
pena eu estar
     só de passagem

Paulo Leminski

Publicado em:  on Maio 8, 2009 at 8:00 pm Comentários desativados

Deus logo chega

Não vejo nada.
Deus logo chega
de improviso,
um assovio às costas,
e fecha meus olhos
com suas mãos
perguntando quem é.

Fabrício Carpinejar

Publicado em:  on at 2:00 pm Comentários desativados

Sou o intervalo

COMEÇO A CONHECER-ME. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou a metade desse intervalo, porque também há vida…
Sou isso, enfim…
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos
       no corredor
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Álvaro de Campos

Publicado em:  on at 1:00 pm Comentários desativados

Era uma vez um Deus que ninguém amava

Era uma vez um Deus que ninguém amava…
Pudera, inalcançável era.
Só conseguia fazer com que o buscassem; desesperadamente.
Era um Todo Poderoso que ninguém imitava.
Só conseguia fazer com que o temessem.
Sublime e triste,
só conseguia que o cultuassem.
Até que gostava dos cultos, sacrifícios, respeito…
Mas tudo virava tédio. Solene tédio.

Como um Deus – pensava ele – pode não poder algo?
Sou capaz de amar, mas não me fazer amar…
Resolveu arriscar – vou me confessar, pessoalmente.
Seja o que Eu quiser!

Auto-transformou-se em alguém fragilmente amável
e veio brincar no quintal do mundo.
Agora corria, sorria e transpirava;
tocava, abraçava e fugia;
chorava, comia e bebia;
sofria, gritava e gemia…
Até que finalmente ele conseguiu que alguém dissesse:
Um Deus assim eu consigo amar…

Dizem que nunca mais foi o mesmo,
e que ainda é visto andando por aí…
Nas ruas, campos e praças a esmo,
mas já não o podem ver aonde vai.
Dizem até que foi sonho,
e jamais houve um Deus pra se amar.

Era uma vez um Deus que ninguém amava…

Wilson Tonioli

fonte: Verticontes

Publicado em:  on Maio 7, 2009 at 1:00 pm Comentários desativados

A paixão de Jacó

“Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo:`Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta vida´.”

Luís Vaz de Camões
em Sonetos para amar o amor
Publicado em:  on Maio 6, 2009 at 6:00 pm Comentários desativados

Imagem viageira

“Bem, as tardes ao cair na terra rompem-se em pedaços, se estrelam contra o solo. Daí esse ruído, esse vazio do crepúsculo terrestre, essa vozearia misteriosa que não é senão o esmagar-se vespertino do dia. Aqui, a tarde cai em silêncio letal, como o inclinar de uma escura entretela sobre a água. E a noite nos tapa os olhos de surpresa, sem que se ouçam os seus passos, querendo saber se foi reconhecida, ela, a infinita inconfundível.”

trecho de Imagem Viageira,
prosa poética escrita por Pablo Neruda sobre uma de suas viagens ao Brasil.

Publicado em:  on at 9:00 am Comentários desativados

Fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões

Publicado em:  on Maio 4, 2009 at 9:00 pm Comentários desativados

Sinal de fumaça

Às vezes o silêncio é necessário.
Mesmo que incomode ou decepcione.
Que desperte saudade da voz que se calou.

Muitos me perguntam por que eu não escrevo mais.
Indagam o motivo da minha ausência.
Eu tentei explicar. Mas a razão é chata e rasa.

“Talvez eu volte, um dia eu volto, quem sabe”.

fonte: Le Bal Masqué

Publicado em:  on at 7:00 pm Comentários desativados

Fases

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

Vinicius de Moraes

Publicado em:  on at 4:00 pm Comentários desativados

Não vive

Ricardo Gondim

quem não celebra cada refeição;
quem não conversa com alma e sua transgressão;
quem não chora de satisfação;
quem não se despede do passado fugido;
quem não relaxa diante do futuro tardio;
quem não acha Deus no olhar desconhecido;
quem não tolera o silêncio na solidão;
quem não baila no escuro anoitecido;
quem não inspira o vento perdido;
quem não teme a morte e sua visitação.

Soli Deo Gloria.

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em:  on Maio 3, 2009 at 4:00 pm Comentários desativados

A Ingaia ciência.

“A madureza, essa terrível prenda
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,
todo o sabor gratuito de oferenda
sob a glacialidade de uma estela,

a madureza vê, posto que a venda
interrompa a surpresa da janela,
o círculo vazio, onde se estenda,
e que o mundo converte numa cela.

A madureza sabe o preço exato
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência

e nem contra si mesma. O agudo olfato,
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.”

Carlos Drummond de Andrade

Publicado em:  on at 9:00 am Comentários desativados