Desde que saiu do Espírito Santo, com um mês de vida, a previsibilidade não fez parte de sua senda. Passou alguns anos viajando, de cidade em cidade, experimentando o que é não ter nada. Andava sem dinheiro algum, tranquilamente. Para comoção geral da família, abandonou a promissora carreira no exército e hoje, além de partilhar suas ideias no blog Observar e Absorver, faz desenhos a nanquim, pintura a óleo, cenários pra teatro, sempre focado em sensibilizar, questionar, conscientizar. Eduardo Marinho é o nome dele. O papo foi pra lá de prazeroso e, logo abaixo, você pode conferir um pouco do que se passa na cabeça de um cara que decidiu fazer parte da família humana.
LAION – Pra começar, quem é Eduardo Marinho?
EDUARDO MARINHO – Bom, Eduardo Marinho tem pelo menos uns oito ou dez, só no orcute. Esse que sou eu é um cara que nasceu na parte abastada e viveu em meio social privilegiado por todos os direitos e oportunidades, embora não nas camadas mais elevadas e minoritárias. Apenas o suficiente para estudar em boas escolas, frequentar bons clubes, fazer todos os esportes que eu quisesse, passar em concursos… E que depois desceu ao subsolo da sociedade, pra ver como era, e afundou por ali um tempão, tendo em contrapartida uma liberdade de ações, posturas e movimentos não conhecida antes. Um grande retorno pra um investimento de grande risco, pra falar a língua do sistema, contra o próprio sistema. Agora estou sobre o solo, sem expectativa nem desejos de grandes alturas sociais.
Como você se define ideologicamente?
EDUARDO MARINHO – Ideologicamente, eu não me defino. Vou me definindo pela vida, fazendo mudanças, sem uma definição definitiva. A gente se define por atitudes, sentimentos, caráter, desejos, uma série de fatores pessoais únicos, de cada um. E cada um é o conjunto de todas essas coisas, umas conscientes, outras não. Não dá pra definir, mas é possível sentir, intuir. É uma frequência vibracional. E não tô querendo ser esotérico, não, todo mundo e tudo o que existe emana uma onda. No caso do ser humano, essa frequência tem muito mais complexidade, mais elaboração que todos os outros seres. Muita gente sabe do que eu tô falando, muitos outros desacreditam. Bem, não é uma verdade, é só uma opinião, um “sentimento”.
Desigualdade social, em todas as vertentes, é um tema que levanta muitas discussões. Na sua opinião, a que se deve a enorme disparidade entre as classes, principalmente, no Brasil?
EDUARDO MARINHO – Egoísmo. Não só no Brasil, parece que é no planeta todo. Pra evoluir a um modelo menos predatório de sociedade, é preciso evoluir para um ser humano menos predatório. Isso, só a evolução da consciência pode realizar. O sentido maior da existência, a meu ver, é o trabalho de aprender e ensinar, de desenvolver a consciência e os sentimentos. A tentativa constante de enxergar cada vez mais, perceber os mecanismos de condução de opinião, de deformação da realidade, da imposição de comportamentos, para conseguir condições de converter esse processo centrífugo (de concentração) em centrípeto (de distribuição). Como, com tanta tecnologia, com tanta informação disponível, com tanta produção e tanta facilidade de transporte, com tanto desenvolvimento acadêmico e científico, não se exterminou a miséria, a fome, o analfabetismo, a ignorância e tantas mazelas vergonhosas para o grupo humano como um todo? É porque não se quer. As classes dominantes, o topo das classes, representado pelas gigantes transnacionais, não permitem que os Estados invistam em seus povos. E contam, pra isso, com as classes dominantes locais e seus políticos, em franca promiscuidade sobre os direitos da maioria, sentindo uma espécie de “superioridade humana” diante do povo, na mesma medida da subalternidade diante dos seus “patrões”, pra quem entregam as riquezas do país.
Para você, o que é mais impressionante na pessoa de Jesus?
EDUARDO MARINHO – Rapaz, eu não me lembro de ter conhecido Jesus. Sei o que sempre me disseram a respeito dele, os quatro evangelhos frequentaram minha infância toda. Depois conheci outros evangelhos – dizem que foram mais de 60, os apresentados para a codificação na Bíblia. Eu acho que foram bem mais, embora o índice de analfabetismo fosse muito maior do que hoje. Parece que o cara era impressionante e, em cada lugar que ele passou, alguém teria escrito sobre ele. Devia saber o que estava fazendo no mundo, como fica claro a cada relato. Depois peguei relatos esparsos, preservados na tradição oral do Líbano, da Síria, até do Tibet, e alguns escritos. Um dito atribuído a ele, no Líbano, guardei na memória – “só os fracos se vingam; os fortes perdoam, e é honra, para o injuriado, perdoar”. Jesus é todo impressionante.
Em uma de suas declarações, você afirma que gostou do pensamento de Karl Marx, mas não suportou a empáfia dos marxistas. Poderia dizer o mesmo em relação a Jesus e os cristãos?
EDUARDO MARINHO – Empáfia? Não usei esta palavra. Algumas pessoas têm, outras não. Isso é caráter, não ideologia. Mas eu disse que achei os marxistas “péssimos”. Não como pessoas, mas pela forma de pensar em revolução, sem considerar a realidade da população. Falando uma língua que ninguém entende, arrebanhando em vez de conscientizar, doutrinando ao invés de esclarecer, submetendo em lugar de emancipar. Cheios de “certezas”, confundindo falta de conhecimento com falta de inteligência, sobrepondo o saber à sabedoria, colocando seu pensamento a reboque de filosofias externas e extemporâneas, em geral, européias, sem levar em conta a situação única de mistura de todos os povos do planeta, suas culturas, suas místicas, suas sabedorias e saberes. Antes de pensar em revolução, é preciso estar com o povo, falar sua língua, aprender com quem aprende, ensinar com quem ensina, aprender ensinando e ensinar aprendendo. Há quem faça, mas se todos os que se pretendem revolucionários se integrassem, de coração, na luta por uma tomada de consciência, a coisa andaria. Pelo que vejo, o povo não se deixa arrebanhar, a não ser pela televisão. A esquerda devia aprender a se comunicar com a mídia privada. E parar com essa história de “conduzir as massas”. Chega de lideranças, precisamos de clareza, de consciência, de conhecimento. Precisamos saber, todos ou o máximo possível, o que acontece de verdade. E de assembléias pra manifestar nossa vontade e impô-la aos governantes, que devem se comportar como o que são – nossos empregados, escolhidos para administrar o que é nosso, em benefício de todos. Os cristãos são uma coletividade, como os marxistas, só que muito maior e variada. Se você estudar a história do cristianismo, vai ver que até certo ponto eles foram heróis de resistência, de contestação e mudança, e depois se tornaram vilões, tiranos, torturadores e assassinos. Mas é muito difícil tratar disso, porque os exemplos de santidade pululam em todos os credos e religiões. Já vi santo ateu, que morreu certo de que não veria mais nada e deve ter encontrado um largo sorriso esperando por ele do outro lado, de tão bom, humano e solidário que era. É preciso considerar o indivíduo, ainda que sob a influência de uma doutrina. Caráter se desenvolve, não se doutrina. E não retrocede.
Em seu texto “Carta a Isnard”, você diz que “as necessidades mais importantes são abstratas“. Abstração também nos remete à arte. De que maneira a arte pode contribuir para nossa formação como seres humanos?
EDUARDO MARINHO – Arte é justamente a materialização do abstrato. É do invisível que sai a forma, é do inaudível que sai a música, do impalpável brota a cena. O artista é a antena que capta. Capta e exprime para o mundo, as pessoas, de acordo com sua individualidade, seu filtro, do conjunto de sentimentos, ideias, desejos, enfim, do seu ser. O trabalho com arte acontece no limite entre o visível e o invisível, é um intercâmbio. A imaginação é um poderoso veículo que pode nos levar a infinitos mundos, situações, inclusive na mudança de realidades. É uma potente ferramenta de potenciais ainda ignorados. Vejo a arte como um trabalho de grande responsabilidade, pelos efeitos inegáveis no mundo de cada um e de todos nós. Vejo no artista uma grande responsabilidade social, diante de uma sociedade tão perversa, tão covarde, tão aprisionada. Não há real sensibilidade que não esteja ferida diante do espetáculo deprimente da fome, do abandono, da miséria a que são relegados enormes contingentes da nossa humanidade, não há como, com um mínimo de solidariedade, não se entregar à luta por mudanças, por esclarecimento, sensibilização e conscientização. Quem se aliena desta luta ainda não atingiu o patamar de “humanidade”, como bem definiu Milton Santos. “Ainda estamos nos ensaios”. A arte é um veículo para se comunicar com a alma humana. Em alguns casos, também com as dos animais – eu penso que tudo tem alma, ou melhor, a cada corpo físico, corresponde um corpo etérico. O uso egocêntrico do dom da arte a mediocriza e a corrompe, se não em técnica e harmonia de formas, pelo menos em substância, em intenção e grandeza moral. Não condeno os artistas do entretenimento, cada um deve sempre agir de acordo com a própria consciência, cada um colhe os frutos que planta, na minha opinião. Eles apenas não me interessam, não quero entretenimento, tenho mais o que fazer. Se entreter é para os que não têm o que fazer. Ou não sabem.
A leitura teve papel fundamental na construção dos seus ideais? Se sim, quais autores mais o influenciam?
EDUARDO MARINHO – A leitura teve papel fundamental na minha formação pessoal. Os meus ideais nasceram da minha vivência. Não posso citar autores, pois todos influenciaram, mas não o bastante. Poderia citar um monte, mas poucos desses filósofos acadêmicos, cheios de seguidores, de “istas”. Certezas sempre me incomodaram. Sobretudo as absolutas. Trabalho com meu orgulho todo o tempo, procuro ter opiniões, não certezas. E acho que se deve ler os pensadores, mas não pra eles pensarem por nós. É preciso se expor ao erro pra melhor aprender, o que só se faz com humildade. O orgulho é um grande obstáculo ao aprender, é um grande produtor de cegueira voluntária, cegueira de espírito.
“A televisão é uma máquina de infelicidade, na medida em que ela nos obriga a comparar“, disse Rubem Alves. Em paralelo a esse assunto, Luís Fernando Veríssimo, também escritor, afirmou que “às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data“. Enfim, como você define o papel da mídia na sociedade brasileira?
EDUARDO MARINHO – A televisão é uma máquina. Ponto. O uso que é dado a esse veículo é que é uma infelicidade. A mídia privada se apossou do espaço público com a única intenção de produzir lucro privado a partir do público. É o maior instrumento de controle social, de formação de mentalidade, de cultura, de valores, de padrões de comportamento, de estímulo ao consumo, de produção de objetivos de vida. Tudo isso de forma criminosa, aboletada numa posição inatingível pela massa de prejudicados. É a maior mantenedora desta situação social absurda, desta sociedade dominada pelo poder econômico, e ataca com fúria histérica todo e qualquer movimento de conscientização, reivindicação, manifestação, resistência ou defesa da maioria da população. Qualquer veículo de informação que dependa de publicidade pra existir estará inevitavelmente a serviço do consumo, da concentração de riquezas, na defesa dos interesses das grandes empresas, dos bancos, dos grupos econômicos e, automaticamente, contra os direitos e os interesses da grande maioria. Pouquíssimos escapam.
Na sua opinião, como podemos romper com a ordem desumanizante do sistema?
EDUARDO MARINHO – O primeiro passo é parar de se deixar levar. Reconhecer os implantes no inconsciente, feitos com maestria, com arte e minúcia por profissionais de publicidade, de psicologia, de estatística, especialistas vários, de alto nível em conhecimentos e salários, durante gerações seguidas. Se não nos reconhecemos condicionados, pelo menos em grande parte, ainda não temos condições de trabalhar em outro sentido. Precisamos resgatar nossa própria capacidade de formar valores, de medir e pesar acontecimentos, de formar opinião, desenvolver autonomia moral e ideológica. E perceber prazeres não consumistas, redescobrir a própria humanidade. Acho que estamos em meio a um processo integrado no universo. Aqueles que têm o privilégio de trabalhar no sentido das mudanças, no sentido contrário ao imposto pelos poderes vigentes, encontram um verdadeiro sentido na vida. Isso vem num aumentando, vem num crescendo, desde sempre, creio eu. Ainda assim, é preciso agir como um velho plantador de nogueiras. Ele sabe que não colherá as nozes, pois a nogueira demora muito a produzir, desde o plantio. Mas está plantando pra humanidade, não pra si, e é isso que o satisfaz, o sentimento sagrado de ser útil à coletividade. A expectativa de retorno das ações acaba esmorecendo o trabalho e gera frustração e desânimo.
O que é a vida pra você?
EDUARDO MARINHO – A parte material é a passagem que começa no nascimento e termina com a morte. Mas eu acho que a gente não começa ao nascer, nem termina ao morrer. E aos que dizem que isso é a necessidade de não enxergar o fim, respondo que gostaria que a maioria das minhas opiniões estivesse errada. Não me permito o mecanismo de interferir com minha vontade nas ideias e acreditar no que me convém, como grande parte das pessoas. Mas posso estar errado, claro, embora sinta que não. Como eu disse, não porto verdades.
Uma mensagem para os leitores deste blog…
EDUARDO MARINHO – Quem não se respeita a si mesmo, não tem condições de respeitar nada.