“I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.”
trecho de Invictus, filme dirigido por Clint Eastwood
“I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.”
trecho de Invictus, filme dirigido por Clint Eastwood
“Ser cristão é ser livre da necessidade de ser alguma coisa.”
Ed René Kivitz em Outra Espiritualidade
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era
e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Álvaro de Campos
“TALVEZ O BILLY GRAHAM do século 21 devesse mudar o método de Jesus e não conclamar os pecadores para o arrependimento, mas antes conclamar os próprios religiosos para se arrependerem, uma vez que eles se tornaram a melhor desculpa para os pecadores continuarem pecando e para os cínicos continuarem se comportando da mesma maneira.”
Brian McLaren em Em busca de uma fé que é real
Há uma via-sacra de sofrimento com estações que nunca acabam no pequeno e pobre pais do Haiti. Sofrimento no corpo, na alma, no coração, na mente assaltada por fantasmas de pânico e de morte.
Há também muito sofrimento em todos os humanos que não perderam o senso mínimo de humanidade e de solidariedade. Desta com-paixão universal nasce uma misteriosa comunidade que anula as diferenças, as religiões, as ideologias que antes nos separavam e até nos dividam.
Agora só conta a comum humanitas absurdamente maltratada e que deve ser socorrida.
Em cada haitiano que sofre soterrado ou que morre de sede e de fome, morremos um pouco também todos nós junto com eles. Finalmente somos irmãos e irmãs da única e mesma família humana. Como não sofrer?
Mas há também um sofrimento profundo e dilacerante nas pessoas de fé que proclamam que Deus é Pai e Mãe de bondade e de amor.
Como continuar a crer? Queixosos nos perguntamos: “Deus, onde estavas quando se formou aquele tremor raso que dizimou os teus filhos e filhas mais pobres e sofridos de todo o extremo Ocidente? Por que não intervieste? Não és o Criador da Terra com seus continentes e suas placas tectônicas? Não és Pai e Mãe de ternura, especialmente, daqueles que são como teu Filho Jesus os injustamente crucificados da história? Por que”?
Este silêncio de Deus é aterrador porque ele simplesmente não tem resposta. Por mais que gênios como Jó, Buda, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Leibniz e outros tivessem arquitetado argumentos para isentar Deus e esclarecer a dor, nem por isso a dor desaparece e a tragédia deixa de existir.
A compreensão da dor não suspende a dor, assim como ouvir receitas culinárias não faz matar a fome.
O próprio Jesus não foi poupado da angústia do sofrimento. Do alto da cruz lançou um brado lancinante ao céu, queixando-se:”Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste”?
Damos razão a Jó, irritado com seus “amigos” que lhe queriam explicar o sentido de sua dor:”Vós não sois senão charlatães, não sois senão médicos de mentira; se ao menos vos calásseis, os homens tomar-vos-iam por sábios”. Mas não podemos calar.
A dor é demasiada e a noite, tenebrosa. Precisamos de alguma luz.
Mesmo sem luz, continuamos a crer com o coração partido, porque estamos convencidos de que o caos e a tragédia não podem ter a última palavra. Deus é tão poderoso que pode tirar um bem do mal. Apenas não sabemos como.
Esperançosos, fazemos uma aposta nesta possibilidade que não deixa nossas lágrima serem vãs. Ademais, cremos que Deus pode ser aquilo que nós não compreendemos. Acima da razão que quer explicações, há o mistério que pede silêncio e reverência.
Ele esconde o sentido secreto de todos os eventos também daqueles trágicos.
Identifico-me com o poema de um grande argentino que perdeu um filho na repressão militar: Juan Gelman:
“Pai, desce do céus, esqueci as orações que me ensinou minha avó, pobrezinha, ela agora repousa, não tem mais que lavar, limpar, não tem mais que preocupar-se, andando o dia todo atrás da roupa, não tem mais que velar de noite, penosamente, rezar, pedir-te coisas, resmungando docemente”.
“Pai, desce dos céus, se estás, desce, então, pois morro de fome nesta esquina, não sei para que serve haver nascido, olho as mãos inchadas, não tem trabalho, não tem, desce um pouco, contempla isto que sou, este sapato roto, esta angústia, este estômago vazio, esta cidade sem pão para meus dentes, a febre, cavando-me a carne, este dormir assim, sob a chuva, castigado pelo frio, perseguido”.
“Te digo que não entendo, Pai, desce, toca-me a alma, toca-me o coração, eu não roubei, nem assassinei, fui criança e em troca me golpeiam e golpeiam, te digo que não entendo, Pai, desce, se estás, pois busco resignação em mim e não tenho e vou encher-me de raiva e estou disposto a brigar e vou gritar até estourar o pescoço de sangue, porque não posso mais, tenho rins, e sou um homem, desce”.
“Que fizeram de tua criatura, Pai? Um animal furioso que mastiga a pedra da rua? Pai, desce”.
Que o Pai desça sobre os haitianos com seu amor.
Leonardo Boff
Encontros e Despedidas por Maria Rita
Coisa que gosto é poder partir sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar quando quero
A boa difusão de uma mensagem requer arautos fiéis aos seus termos. A difusão de uma mensagem específica, a do evangelho, sempre exigiu mais. O ato de disseminar o evangelho em nada se compara ao árduo labor de copistas medievais, dobrados com fidelidade canina aos seus manuscritos; não se trata, em termos menos sinuosos, de ser fiel à letra, ao que foi gravado acerca das boas novas em tinta prudentemente estável.
O que perdemos de vista foi o escândalo da encarnação e o que dele decorre: o evangelho só pode avançar pela mesma via ardente em que trafega o sangue humano. O reino, que está potencialmente entre nós, é instaurado pelo afeto, não pela pregação expositiva; pela compaixão, não pela defesa ensandecida de sublimados sistemas.
Desbastando os helenismos que foram se acumulando em camadas rígidas sobre o evento encarnacional, chegaremos ao elementar princípio de que não fomos comissionados ao patronato de ideias abstratas; é dizer, não nos foi dada carta branca para amalhoar todas as culturas nas cercanias de nossos castelos conceituais.
Ninguém pode, com o plano de salvação no bolso do casaco, fazer o evangelho avançar meia légua que seja, pela boa razão de que plano de salvação, assim universalmente estabelecido, é delirante ilusão e doce segurança contra as exigências vertiginosas da contingência e da liberdade. É o já denunciado devaneio de que a salvação virá pela difusão das crenças corretas.
Não é demasiado lembrar que o Filho do Homem tecia para cada circunstância um gesto próprio, que de ninguém se aproximava com planos inflexíveis e respostas prontas, e que chavões não frequentavam sua boca indomável. Antes, acercava-se da gente com penetrante respeito e assombro, como quem se aproxima de universos ainda indevassados.
Em seu exemplo apreendemos que a mensagem do evangelho é de tal natureza que para ser expandida depende fundamentalmente não de nossa voz e de nossa lógica, mas de nossa coragem e de nosso sangue. Não depende tanto de uma especial aptidão em expor conceitos, suplica antes a disposição em sentar-se generosamente com adúlteras e banquetear sem recato com publicanos.
Ao arauto cumpre abandonar as solenes proclamações e tornar-se, na precariedade de sua carne, a própria mensagem.
Alysson Amorim
“Quando eu quero ser bom com alguém do jeito como eu acho que favorece minha visão de mim ou dos outros acerca de mim, não estou ofertando, mas realizando um comércio.”
Nilton Bonder em Tirando os Sapatos
“Na sociedade do espetáculo, a ética, como tudo mais, é coreografada pela mídia e obedientemente dançada pela sociedade. São os meios de comunicação que selecionam, embalam e entregam em domicílio o que deve propriamente nos chocar, motivar e comover. Num mundo inteiramente esvaziado de absolutos, é apenas pelos olhos seletivos da mídia que nos sentimos de alguma forma capazes de enxergar o que é certo e errado.”
Paulo Brabo em A Bacia das Almas
“HOJE EM DIA nenhum sistema religioso cristão bem-sucedido ousa acenar com promessas para a vida futura. Para serem ouvidos, incansáveis mensageiros evangélicos despejam em rádios e programas de televisão as mesmas esperanças de prosperidade financeira e pessoal oferecidas pelo capitalismo.
Uma felicidade que não seja para esta vida não interessa aparentemente a ninguém, mas a felicidade prometida para esta vida pode controlar quem quer que seja.”
Paulo Brabo em A Bacia das Almas
“Vezes sem conta tinha chorado de tristeza e de saudade naqueles cafundós. Vivia com o medo no coração, sem nenhuma esperança de dias melhores, sem a menor alegria, trabalhando como uma negra, e passando frio e desconforto… Tudo isso por quê? Porque era a sua sina. Mas uma pessoa pode lutar contra a sorte que tem. Pode e deve. E agora ela tinha enterrado o pai e o irmão e ali estava, sem casa, sem amigos, sem ilusões, sem nada, mas teimando em viver.”
Erico Veríssimo em Ana Terra
“Orar e pedir “em nome de Jesus”, conforme prescrito no Novo Testamento, era provavelmente para ser entendido como se lê; seria orar “como Jesus oraria”, ou pedir “imbuído do espírito de Jesus”. Com o tempo, o enfoque migrou do espírito para a letra; transferiu-se da pessoa e da postura de Jesus para as palavras, imbuídas supostamente de autoridade e poderes sobrenaturais (de forma semelhante ao Shem Hamphoras da tradição judaica medieval). O conteúdo reduziu-se a fórmula, abracadabra que abre – esperamos – todas as portas.”
Paulo Brabo em A Bacia das Almas
“O Deus da boa-nova requer ao mesmo tempo muito mais e muito menos. Para agradá-lo é preciso abrir mão de qualquer tentativa de agradá-lo – e começar a imitá-lo; para imitá-lo é necessário abrir mão de nossa tendência de enxergar diferenças de mérito entre bons e maus, e passar a conceder a todos o mesmo improvável tratamento e as mesmas chances. É preciso aprender a dispensar nosso sol e nossa chuva sobre justos e injustos, sobre os que nos agradam e sobre os que nos odeiam, sendo nisso singulares como Deus é singular – santos como Deus é santo.”
Paulo Brabo em A Bacia das Almas
Codinome Beija-flor por Ana Cañas
Eu protegi o teu nome por amor
Em um codinome, Beija-flor
“Fulano Malta achava que o mundo estava tão torto que para um homem ser bom não podia ser justo.”
“O homem sábio é o que sabe que há as coisas que nunca vai saber.”
“O amor nos pune de modo tão brando que acreditamos estar sendo acariciados.”
“O bom do caminho é haver volta. Para ida sem vinda basta o tempo.”
“Não se chora alto, a lágrima é uma serpente que, desperta, nos engole de cima e de baixo.”
“O ar é uma pele, feita de poros por onde escoa a luz, gota por gota, como um suor solar.”
“A terra estava aberta a futuros, como uma folha branca em mão de criança.”
“Sabe-se: a dor pede pudor. Na nossa terra, o sofrimento é uma nudez – não se mostra aos públicos.”
trechos do livro Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra, de Mia Couto
6- Outra Espiritualidade
Ed René Kivitz
5- Em busca de uma fé que é real
Brian McLaren
4- Tirando os Sapatos
Nilton Bonder
3- A Bacia das Almas
Paulo Brabo
2- Ana Terra
Erico Veríssimo
1- Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra
Mia Couto
total 1.400 págs.
“E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
com a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.”
João Cabral de Melo Neto em Morte e Vida Severina
“Tudo o que encontrei
na minha longa descida,
montanhas, povoados,
caieiras, viveiros, olarias,
mesmo esses pés de cana
que tão iguais me pareciam,
tudo levava um nome
com que poder ser conhecido.
A não ser esta gente
que pelos mangues habita:
eles são gente apenas
sem nenhum nome que os distingua;
que os distinga da morte
que aqui é anônima e seguida.”
João Cabral de Melo Neto em Morte e Vida Severina
DEUS TORNA-SE FRACO porque ama. Quem mais ama é sempre mais fraco. Não será essa a grande característica das mulheres? Quase sempre amam mais, e, por isso, sofrem mais. Porém, nessa fraqueza consentida não estará a maior liberdade?
Nessa fraqueza a pessoa vence todo o egoísmo, todo o desejo de prevalecer, toda a preguiça de aceitar maiores desafios. Exige mais de si própria, vai mais longe, além das suas forças. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (João 15.13). Aí está também a expressão suprema da liberdade.
A fraqueza de Deus vai até a ponto de se tornar suplicante. O versículo predileto do saudoso teólogo latino-americano Juan Luís Segundo diz; “Eis que estou batendo na porta: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo (Apocalipse 3.20).
Deus bate na porta e aguarda. Se não é atendido, afasta-se e continua o caminho. Somente entra se é convidado. Depende do convite da pessoa. Deus torna-se pedinte, suplicante.
José Comblin
O primeiro dos dilemas é criar ou não criar. O segundo é criar com liberdade ou sem liberdade. O terceiro é assumir o ônus da liberdade ou deixar este ônus nas mãos da criatura. Deus faz as escolhas que o machucam, que lhe causam dor, que o fazem sofrer, que o diminuem. Simone Weil diz que “Deus e todas as suas criaturas é menos do que Deus sozinho”. Deus escolhe criar. Escolhe criar um ser livre, pois não fosse livre não seria à imagem do Criador. E escolhe arcar com ônus da liberdade que concede à sua criatura. Na cruz de Cristo está Deus, dando ao rebelde o direito de existir. Na cruz de Cristo está Deus, entregando sua vida, voluntariamente, em favor dos pecadores. O mal deflagrado pela raça humana levanta sua sombra sobre o trono de Deus. E Deus se levanta como um Cordeiro que se doa, pois escolhera morrer, em detrimento de matar. Na cruz de Cristo está o Deus que morre para que todos tenham vida, vida completa, abundante vida.
Ed René Kivitz
Ricardo Gondim.
Infelizmente, o mundo continua dividido entre feiticeiros e químicos, cientistas e filósofos, gramáticos e poetas. Digo infelizmente porque não foi sempre assim.
Houve tempo em que os astrônomos se enamoravam pelo piscar das estrelas, os físicos acreditavam que uma linda bordadeira havia costurado o universo e os biólogos celebravam que o ser humano respirasse, mesmo tendo sido um boneco de barro.
Houve tempo em que os jumentos falavam, as estéreis geravam filhos (extra)ordinários, os anjos matavam milhares de soldados agressores, os cajados secos floresciam e o sol parava para esperar que os mais frágeis prevalecessem na guerra.
Houve tempo em que as fadas ajudavam as órfãs, o beijo do príncipe ressuscitava a princesa do sono, os espelhos se rebelavam para responderem com honestidade e as crianças, talhadas em madeira, viravam gente.
Houve tempo em que a metáfora reinava na literatura. A copa das árvores era um cálice verde de onde respinga orvalho da manhã, a saudade, uma mulher que arruma o quarto do filho que já morreu e a alma da lua se escondia na garganta do galo que soluça seu canto na madrugada.
Houve tempo em que se falava de Deus como suspiro, olfato ou paladar.
Nele, encontrávamos o colo materno, perdido desde a adolescência. Deus era pastor solitário que, sentado numa pedra, espiava suas ovelhas a pastar numa montanha distante; era o amante que abandona um harém para cortejar sua amada; era o juiz que assume a briga dos mais frágeis; era o médico que traz um bálsamo para aliviar a dor da alma; era o amigo que se achega como irmão; era o rei que anuncia a chegada de uma nova ordem; era o pai que educa seus filhos para uma existência madura e autônoma.
Houve tempo em que se liam os textos sagrados com reverência. Diante do numinoso, o mortal tremia; diante do sagrado, o pecador temia; diante do infinito, o finito se perdia, diante do eterno, o humano encolhia.
Lentamente, teólogos e exegetas, cientistas e técnicos, gramáticos e lingüistas, minaram os sonhos e fantasia dos meninos, esvaziaram a verdade dos poetas, quiseram explicar o mistério, captar a verdade, sistematizar Deus, dissecar o poema e criticar a alegoria. E conseguiram!
Eles exilaram os magos que correm atrás das estrelas; sumiram com os profetas alucinados que falam de rodas de fogo no céu; queimaram as mulheres que sentem no corpo, o êxtase do divino.
Esses assassinos da beleza, no ímpeto de explicar o impossível e mapear os rumos do Espírito, deixaram o mundo mais pobre, a fé mais segura, a oração menos incerta e Deus ficou pequeno.
Agora, quem precisar de milagre, pode dispor de hábeis evangelistas que ajudam a abrir as janelas do céu; quem tiver dúvidas, pode comprar exaustivos manuais sobre Deus; quando a vida parecer ameaçadora, é possível domesticá-la, contratando profetas de aluguel.
Minha alma, porém, anseia pela poesia que me abandone reticente; pela prosa que me ferva o sangue; pela ficção que me comova as entranhas; pelo drama que me arrepie a pele; pelos personagens que saltem dos palcos para encarnar em mim.
Sinto que Deus ainda vive no sonho das crianças; ainda habita onde reside a musa do poeta; ainda se revela no desejo do profeta; ainda se move além do horizonte utópico do guerreiro.
Sinto que sua habitação fica no vazio, no nada, e que sua glória se esconde numa nuvem espessa e ofuscante.
Sinto que posso perceber sua verdade no desconhecido absoluto e no inaudível, escutar sua voz.
Sinto que Deus é vento imperceptível, verdade diáfana e mistério espantoso.
Portanto, morro para o anseio de fazer análise sintática ou crítica textual dos textos sagrados. Já não invejo os apologetas, só quero que me devolvam o que roubaram de mim: a alma dos poetas, o coração dos meninos e a leveza dos bailarinos.
Soli Deo Gloria.
“Ofuscados pelas brilhantes conquistas do intelecto na ciência e na tecnologia, estamos convencidos não apenas de que somos os senhores do universo; estamos convencidos de que nossas necessidades e benefícios são o padrão definitivo do que é certo e do que é errado.”
Abraham Joshua Heschel em Deus em Busca do Homem
“Esse deus que esporadicamente vem trazer livramento aos seus eleitos é uma construção ideológica para acalmar as multidões. A tragédia humana, reduzida a mera máquina na linha de produção de cigarro ou automatizada pelo vai e vem do trânsito ou apequenada abaixo de sua dignidade em monturos de lixo, não comporta a ideia de um Deus todo-poderoso. Que deus é esse que acorrentado a um rancor milenar, nada faz pela sorte de homens e mulheres, mas os abandona na sorte mais cruel? A concepção de uma divindade ofendida, que resfolega ódio contra tantas pessoas condenando-as sofrer agruras indescritíveis, é absurda. Precisamos recompor a imagem que fazemos de Deus.”
trecho do texto Deus e a tragédia humana de Ricardo Gondim.
“Os discernimentos da fé são gerais, vagos e precisam ser conceituados para que possam ser comunicados à mente, integrados e compatibilizados. Sem a razão, a fé fica cega. Sem a razão, não saberemos usar os discernimentos da fé nos assuntos concretos da existência. A adoração da razão é arrogância, e denuncia uma privação de inteligência. A rejeição da razão é covardia, e denuncia a ausência da fé.”
Abraham Joshua Heschel em Deus em Busca do Homem
“O pensamento, a crença e o sentimento religiosos estão entre as mais enganosas atividades do espírito humano. Afirmamos, frequentemente, que é em Deus que acreditamos, mas, na realidade, pode ser que acreditemos num símbolo de nossos interesses pessoais, no qual insistimos. Podemos admitir que nos sentimos atraídos por Deus, mas, na verdade, pode ser que o verdadeiro objeto de nossa adoração seja outro poder qualquer desse mundo.”
Abraham Joshua Heschel em Deus em Busca do Homem
“A crítica da razão, o desafio e as dúvidas do descrente podem, entretanto, ser mais úteis para a integridade da fé do que a confiança em nossa própria fé.”
Abraham Joshua Heschel em Deus em Busca do Homem
Humildade é como coragem, só se mede coragem diante da morte ou de algo parecido. A mesma coisa com a humildade: só se mede humildade quando você tem razões objetivas para não ter humildade. Assim como a coragem não brota entre covardes, a humildade é uma agonia apenas para quem tem razões de ser orgulhoso.
Fazendo um giro teológico no argumento (em nome do espírito natalino): Cristo não é grandioso em sua humildade porque era um pobre miserável filho de carpinteiro (isso seria fácil, logo não seria virtude nenhuma), mas porque era Deus, o “Cara”.
Luiz Felipe Pondé
[via Pavablog]
“O mundo da retribuição, e não só da retribuição temporal, não é a morada de Deus. Quando muito, Ele o visita. O Senhor não se prende ao esquema “dou se me deres”. Nada, nenhuma obra, por valiosa que seja, merece a graça. Se assim fosse, deixaria de sê-lo. Este é o núcleo da mensagem de Jó.”
Gustavo Gutiérrez em O Deus da Vida
“Buscar o Reino e a justiça de Deus significa para o cristão, e para toda a Igreja, entrar na história humana, solidarizar-se com os pobres e oprimidos, encontrar o Senhor no rosto dos mais necessitados.”
Gustavo Gutiérrez em O Deus da Vida
Águas de Março por Tom Jobim e Elis Regina
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
JESUS NÃO SE FANTASIOU, não encarnou por um breve período, mas assumiu a contingência humana com todas as consequências, inclusive a de morrer. Exageradamente humano, libertou homens e mulheres da exigência de se tornarem deuses.
Ricardo Gondim
Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.
Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.
Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.
Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.
Pablo Neruda
“Uma das graves perversões do discípulo é crer que nossa condição de cristãos ou nossas responsabilidades na Igreja nos dão um poder de “senhores absolutos” sobre as outras pessoas.”
Gustavo Gutiérrez em O Deus da Vida
Da mesquinhez e da necessidade de vencer até embates contra os sobrinhos no videogame, quero distância. Sou testemunha de quão bem esses princípios funcionam. Abrir mão de “ter razão” num conflito deixa o caminho livre para recompensas mais duradouras do que vencer a discussão. “Perde-se” a briga, mas a paz preenche o espaço que antes era ocupado por conquistas muitas vezes obtidas às custas de feridas naqueles que ousaram se interpor em nosso caminho.
Sérgio Pavarini
[via Pavablog]
Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não de raças, mas de existências.
Mia Couto
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Chico Buarque
EMPOLGO-ME COM DEUS porque já não o percebo como objeto de estudo. Ele não está lá, em algum recôndito espiritual, transcendental, paradisíaco, nirvânico, esperando ser adulado, pesquisado, definido. Percebo Deus na vida, com tudo o que ela tem de beleza e de horror. Vejo Deus nos verdes matizados da floresta, no vigor dos mares, na poeira que a bruma espalha, nas mudanças bruscas do tempo.
Ricardo Gondim
“Deus não quer sacrifícios, mas corações arrependidos; não deseja vestes rasgadas, mas corações dilacerados pela dor da falta; não quer oferendas e orações que não levem em conta as injustiças e sofrimentos que se vivem neste mundo. Orar ao Deus da Bíblia não é uma maneira sutil de fugir da história, é sim ocasião de pronunciar palavras encarnadas.”
Gustavo Gutiérrez em O Deus da Vida
A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Carlos Drummond de Andrade
“O que Jonas não perdoa – se é que podemos falar assim – é o perdão irrestrito e universal de Deus. Se se tratasse de um Deus que só se move no plano da justiça, seus atos seriam previsíveis; mas o Deus da Bíblia – como diz de modo inigualável o livro de Jó – é o que ama gratuitamente. Um Deus que não admite ser enclausurado em nossas categorias e em uma forma de conduta baseada no “toma lá, da cá”. Um Deus imprevisível.”
Gustavo Gutiérrez em O Deus da Vida
“A norma de comportamento do povo que crê no Deus da vida será justamente dar a vida. O que equivale a agir de modo a que a vida esteja presente contra toda força que queira destruí-la. Contra a morte e, como consequência, contra a opressão, a fome, o egoísmo, a doença, a injustiça e, em última instância, contra o pecado, que é o selo característico da morte.”
Gustavo Gutiérrez em O Deus da Vida
Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.
Rubem Alves
[via Pavablog]