Um homem cheio de misérias

“deixe-se um rei a sós, sem nenhuma satisfação dos sentidos, sem nenhuma preocupação no espírito, sem companhias e sem divertimentos, pensar em si totalmente à vontade, e ver-se-á que um rei sem divertimento é um homem cheio de misérias. Assim, evita-se isso cuidadosamente e nunca falta ao redor da pessoa do rei muita gente que cuida de fazer com que o divertimento suceda aos negócios e que fica a observar todo o seu tempo de ócio para fornecer-lhes prazeres e jogos de modo que não haja nenhum vazio. Quer dizer que eles são cercados de pessoas que têm um maravilhoso cuidado para evitar que o rei fique sozinho e em estado de pensar em si, sabendo perfeitamente que ele ficará miserável, muito embora seja rei, se pensar em si.”

Pascal em Pensamentos

Justiça e liberdade

“Você deve ter percebido que desde o início venho afirmando que Deus não é o Deus do igualitarismo fardado e absolutista. O igualitarismo não deu certo em nenhum lugar do mundo. Em Cuba, no tempo do “Che”, o projeto gerou ociosidade, improdutividade e injustiça: pois alguns trabalhavam muito e outros recebiam a mesma medida. O próprio Fidel Castro está reconhecendo isso agora.
Na União Soviética o mesmo se deu. O líder Mikhail Gorbachev disse no seu discurso de 6 horas seguidas no início de 86, que o igualitarismo está obsoleto, e que ele só gerou burocracia, funcionalismo, parasitismo, corrupção (porque os ambiciosos arranjaram maneiras de ganhar mais do que o nível instituído, através dos mercados negros de “quase tudo” na União Soviética) e esclerosamento funcional.
Não era preciso esperar tanto para saber que isso era inevitável e não daria certo. Bastava que se tivesse crido na política econômica do Reino de Deus: igualdade proporcional, praticada com a consciência de que a fronteira da liberdade de ter vai até onde o ter não implica no empobrecer do meu próximo.
Liberdade e justiça têm que andar juntas! Liberdade sem justiça se converte imediatamente em libertinagem do ego e orgia econômica da sociedade. E justiça sem liberdade é injustiça mascarada pelo igualitarismo que ora premia os ociosos, ora suprime os direitos do homem.
A justiça é a fronteira da liberdade e liberdade é o âmago da justiça.
Diante disso fica claro que o cristão não pode nortear sua filosofia de administração dos recursos por nenhum dos dois “esquemas econômicos” que dividem este mundo. Ambos são corrompidos.
No capitalismo que apregoa a liberdade, falta a visão de que a liberdade não pode acontecer às custas dos outros, especialmente dos pobres a da matéria-prima do 3° mundo. Já o comunismo que apregoa a justiça, peca por suprimir as liberdades e não recompensar de modo justo – logicamente para ser justo não pode ser exacerbado – o trabalho e o esforço dos que mais se afadigam. Além disso, peca também por não dar ao homem direito à voz. É estranho: no primeiro sistema os líderes fecham os ouvidos para não ouvirem os clamores. No segundo, eles fecham as bocas das pessoas para que elas não falem. Em ambos o silêncio é a lei.”

Caio Fábio,
Uma graça que poucos desejam, 1986

Momento negativo da liberdade

“Dizendo que esta “coisa”, a língua, pode-se mover em duas direções perfeitamente opostas, admitimos desde o começo que ela é ambígua. A ambiguidade da língua, ao lado de sua origem, permanece talvez, para o conhecimento humano, o enigma supremo. Como é possível que da essência da língua faça parte a perfeita ambiguidade de sua utilização? Como é possível que o que é destinado a abrir, exprimir e apropriar-se, seja, no entanto, capaz de esconder, de provocar desvios e de intrigar?
O mais simples seria imaginarmos que se trata de um instrumento divino que se perverte uma vez que passa a ter utilização humana. O homem pode ser um indigno da linguagem, um utilizador ambíguo, apto a desviar este utensílio de seu modo imaginário de emprego. Ou melhor: porque o homem é livre e decaído, pode igualmente utilizar a língua pela linha da verdade, seja pela da mentira. A mentira não pode ser de fato entendida senão como momento negativo da liberdade. E então tudo se torna claro: o mal, o crime, a política, ou seja, todas as coisas que são possíveis apenas pela escroqueria verbal que as precede. O fato de a língua, empregada do utilizador humano, poder dizer não apenas o que é, mas o que não é – ou seja, o fato de uma palavra poder dizer não apenas a verdade, mas também mentir – explica por que a história do homem é, em sua essência, uma corrente de desastres.”

Gabriel Liiceanu em Da mentira

Não pensamos no presente

“Examine cada um os seus pensamentos. Vai encontrá-los todos ocupados com o passado ou com o futuro. Quase não pensamos no presente, e se nele pensamos é somente para nele buscar luz para dispormos do futuro. O presente nunca é o nosso fim.
O passado e o presente são os nossos meios; só o futuro é o nosso fim. Assim não vivemos nunca, mas esperamos viver e, sempre nos dispondo a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.”

Pascal em Pensamentos

A consciência do ato

“Ela agarrou-me os braços com ambas as mãos, procurando afastá-los do seu pescoço, e eu como que esperava justamente aquilo, golpeei-a com o punhal, com toda a força, do lado esquerdo, abaixo das costelas.
Quando as pessoas dizem que, presas do furor, não têm consciência do que fazem, é um absurdo, é mentira. Eu me lembrava de tudo, e não deixei de lembrá-lo um segundo sequer. Quanto mais fortemente eu cultivava em mim o meu furor, tanto mais nitidamente acendia-se em mim a luz da consciência, com a qual eu não podia deixar de ver o que fazia. A cada segundo, eu sabia o que estava fazendo. Não posso dizer que soubesse de antemão o que ia fazer, mas, no segundo em que o realizava, até, se não me engano, um pouco antes, eu sabia o que fazia, como se fosse para tornar possível o arrependimento, para que eu pudesse dizer a mim mesmo que eu podia ter parado. Eu sabia que estava golpeando abaixo das costelas e que o punhal penetraria ali. No momento em que o fazia, eu sabia que realizava algo terrível, algo que eu nunca fizera, e que teria consequências horríveis. Mas a noção disso perpassou como um raio, seguida imediatamente pela ação. E a consciência desta era de uma nitidez extraordinária. Eu senti e lembro a resistência momentânea da cinta, de alguma coisa mais, e, em seguida, a penetração da lâmina em algo macio. Ela agarrou-se ao punhal com as mãos, cortou-as, mas não conseguiu segurá-lo. Mais tarde, na prisão, depois que passei pela minha crise moral, eu pensei muito sobre esse instante, lembrava o que podia e refletia. Lembro que houve por um momento, mas um momento apenas, aquele que precedeu o ato, a consciência terrível de que eu estava matando, de que matara uma mulher, uma mulher indefesa, a minha esposa. Lembro o horror dessa consciência e daí concluo, e até lembro confusamente, que tendo cravado o punhal, no mesmo instante o retirei, querendo corrigir, deter, o que já fora realizado. Por um instante, fiquei imóvel, esperando o que ia acontecer, procurando ver se era possível corrigir aquilo.”

Tolstói em A Sonata a Kreutzer

A vida corre vazia

“Pois bem, começamos a nossa vida na cidade. Ali, a vida é melhor para as pessoas infelizes. Na cidade, um homem pode viver cem anos e nem perceber que já morreu e apodreceu há muito. Não há tempo para examinar a si mesmo, está tudo ocupado. Os negócios, as relações sociais, a saúde, as artes, a saúde dos filhos, a sua educação. Ora é preciso receber esses e aqueles, ir visitar uns e outros; ora é preciso encontrar-se com esta, ouvir aquele ou aquela. Na cidade, a qualquer momento, há uma, ou simultaneamente duas, três celebridades, que não se pode deixar de ver. Ora é preciso tratar-se ou providenciar o tratamento de outrem, ora são os professores, explicadores, governantas, e a vida corre vazia, vazia.”

Tolstói em A Sonata a Kreutzer

Ilusão completa

“É surpreendente como acontece uma ilusão tão completa, no sentido de que a beleza é o bem. Uma mulher bonita diz tolices, e você ouve e não percebe as tolices, mas só palavras inteligentes. Ela diz e pratica ignomínias, e você vê algo simpático. E quando ela não diz tolices nem ignomínias, mas é bela, você no mesmo instante se convence de que ela é maravilhosa, inteligente e moral.”

Tolstói em A Sonata a Kreutzer