Momento negativo da liberdade

“Dizendo que esta “coisa”, a língua, pode-se mover em duas direções perfeitamente opostas, admitimos desde o começo que ela é ambígua. A ambiguidade da língua, ao lado de sua origem, permanece talvez, para o conhecimento humano, o enigma supremo. Como é possível que da essência da língua faça parte a perfeita ambiguidade de sua utilização? Como é possível que o que é destinado a abrir, exprimir e apropriar-se, seja, no entanto, capaz de esconder, de provocar desvios e de intrigar?
O mais simples seria imaginarmos que se trata de um instrumento divino que se perverte uma vez que passa a ter utilização humana. O homem pode ser um indigno da linguagem, um utilizador ambíguo, apto a desviar este utensílio de seu modo imaginário de emprego. Ou melhor: porque o homem é livre e decaído, pode igualmente utilizar a língua pela linha da verdade, seja pela da mentira. A mentira não pode ser de fato entendida senão como momento negativo da liberdade. E então tudo se torna claro: o mal, o crime, a política, ou seja, todas as coisas que são possíveis apenas pela escroqueria verbal que as precede. O fato de a língua, empregada do utilizador humano, poder dizer não apenas o que é, mas o que não é – ou seja, o fato de uma palavra poder dizer não apenas a verdade, mas também mentir – explica por que a história do homem é, em sua essência, uma corrente de desastres.”

Gabriel Liiceanu em Da mentira

Não pensamos no presente

“Examine cada um os seus pensamentos. Vai encontrá-los todos ocupados com o passado ou com o futuro. Quase não pensamos no presente, e se nele pensamos é somente para nele buscar luz para dispormos do futuro. O presente nunca é o nosso fim.
O passado e o presente são os nossos meios; só o futuro é o nosso fim. Assim não vivemos nunca, mas esperamos viver e, sempre nos dispondo a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.”

Pascal em Pensamentos

A consciência do ato

“Ela agarrou-me os braços com ambas as mãos, procurando afastá-los do seu pescoço, e eu como que esperava justamente aquilo, golpeei-a com o punhal, com toda a força, do lado esquerdo, abaixo das costelas.
Quando as pessoas dizem que, presas do furor, não têm consciência do que fazem, é um absurdo, é mentira. Eu me lembrava de tudo, e não deixei de lembrá-lo um segundo sequer. Quanto mais fortemente eu cultivava em mim o meu furor, tanto mais nitidamente acendia-se em mim a luz da consciência, com a qual eu não podia deixar de ver o que fazia. A cada segundo, eu sabia o que estava fazendo. Não posso dizer que soubesse de antemão o que ia fazer, mas, no segundo em que o realizava, até, se não me engano, um pouco antes, eu sabia o que fazia, como se fosse para tornar possível o arrependimento, para que eu pudesse dizer a mim mesmo que eu podia ter parado. Eu sabia que estava golpeando abaixo das costelas e que o punhal penetraria ali. No momento em que o fazia, eu sabia que realizava algo terrível, algo que eu nunca fizera, e que teria consequências horríveis. Mas a noção disso perpassou como um raio, seguida imediatamente pela ação. E a consciência desta era de uma nitidez extraordinária. Eu senti e lembro a resistência momentânea da cinta, de alguma coisa mais, e, em seguida, a penetração da lâmina em algo macio. Ela agarrou-se ao punhal com as mãos, cortou-as, mas não conseguiu segurá-lo. Mais tarde, na prisão, depois que passei pela minha crise moral, eu pensei muito sobre esse instante, lembrava o que podia e refletia. Lembro que houve por um momento, mas um momento apenas, aquele que precedeu o ato, a consciência terrível de que eu estava matando, de que matara uma mulher, uma mulher indefesa, a minha esposa. Lembro o horror dessa consciência e daí concluo, e até lembro confusamente, que tendo cravado o punhal, no mesmo instante o retirei, querendo corrigir, deter, o que já fora realizado. Por um instante, fiquei imóvel, esperando o que ia acontecer, procurando ver se era possível corrigir aquilo.”

Tolstói em A Sonata a Kreutzer

A vida corre vazia

“Pois bem, começamos a nossa vida na cidade. Ali, a vida é melhor para as pessoas infelizes. Na cidade, um homem pode viver cem anos e nem perceber que já morreu e apodreceu há muito. Não há tempo para examinar a si mesmo, está tudo ocupado. Os negócios, as relações sociais, a saúde, as artes, a saúde dos filhos, a sua educação. Ora é preciso receber esses e aqueles, ir visitar uns e outros; ora é preciso encontrar-se com esta, ouvir aquele ou aquela. Na cidade, a qualquer momento, há uma, ou simultaneamente duas, três celebridades, que não se pode deixar de ver. Ora é preciso tratar-se ou providenciar o tratamento de outrem, ora são os professores, explicadores, governantas, e a vida corre vazia, vazia.”

Tolstói em A Sonata a Kreutzer

Ilusão completa

“É surpreendente como acontece uma ilusão tão completa, no sentido de que a beleza é o bem. Uma mulher bonita diz tolices, e você ouve e não percebe as tolices, mas só palavras inteligentes. Ela diz e pratica ignomínias, e você vê algo simpático. E quando ela não diz tolices nem ignomínias, mas é bela, você no mesmo instante se convence de que ela é maravilhosa, inteligente e moral.”

Tolstói em A Sonata a Kreutzer

Indesculpáveis

Eu acreditaria que o ser humano não sabe fazer o bem se ele não se protegesse quando diante do mal. Nossa proteção ou revide revelam nossa consciência. Se todos se protegem para guardar a própria vida, todos sabem o que é preciso para guardar a vida do outro.

Laion Monteiro