Protestantismo brasileiro.

“A repetição produz conforto. Os crentes estão sempre em busca do conforto quando vão às igrejas aos domingos. A repetição conforta porque ela afirma a imutabilidade da verdade. E na medida em que a verdade dita no momento é a verdade que alguém já está acostumado a ouvir, cria-se a certeza de ser-se senhor da verdade.

Não é por acidente, portanto, que o protestantismo brasileiro não tenha produzido teólogos. Só pode haver vocações para tarefas possíveis. Quando tudo já está feito, como se sentir vocacionado para fazê-lo? Um jovem estudante de teologia procurou um dos seus professores para dizer-lhe de seus planos de ir para a Europa estudar teologia. E isto foi o que lhe foi dito: “Moço, para que estudar teologia? Não há novidades. A teologia só pode repetir aquilo que você já estudou aqui. Por que, em vez de estudar teologia, você não estuda psicologia pastoral?”.”

Rubem Alves em Religião e Repressão

Publicado em: on Julho 11, 2009 at 9:45 pm Comments Off

Power of your love

Power of your love por Oslo Gospel Choir

Lord I’ve come to know
The weakenesses I see in me
Will be stripped away
By the power of Your love

Publicado em: on at 12:00 pm Comments Off

A simplicidade…

“A simplicidade é esquecimento de si, de seu orgulho e de seu medo: é quietude contra inquietude, alegria contra preocupação, ligeireza contra seriedade, espontaneidade contra reflexão, amor contra amor próprio, verdade contra pretensão…”

André Comte-Sponville em Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

Publicado em: on Julho 10, 2009 at 5:00 pm Comments Off

Vida

Às vezes ouço passar o vento;
e só de ouvir o vento passar,
vale a pena ter nascido.

Fernando Pessoa

Publicado em: on at 12:30 pm Comments Off

Quero aprender a adorar.

“Quero aprender a adorar. Transformar genuflexão em serviço; descer do alto de meus privilégios para estender a mão ao mortiço que jaz na estrada próxima de Jericó. Desistir de suplicar qualquer graça que me distinga do resto da humanidade – longevidade, vingança, cura ou riqueza. Desejo ser brindado com a bênção de encarnar Deus entre homens e mulheres. E assim poder dizer que não vivi em vão.”

trecho do texto Despedidas e anseios de Ricardo Gondim

Publicado em: on Julho 9, 2009 at 12:45 pm Comments Off

Maior mistério

“O amor não está em nosso poder, nem pode estar. Quem escolhe amar? O que pode a vontade sobre um sentimento? O amor não se comanda; a generosidade sim: basta querer. O amor não depende de nós; é o maior mistério, por isso escapa às virtudes, por isso é uma graça, e a única.”

André Comte-Sponville em Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

Publicado em: on Julho 6, 2009 at 12:00 pm Comments Off

Idolatria

Deus dá a nostalgia pelo voo.
As religiões constroem gaiolas.
Quando o voo se transforma em gaiolas, isso é idolatria.

Rubem Alves

Publicado em: on Julho 4, 2009 at 1:15 pm Comments Off

O amor é como o mar.

O amor é como o mar: sendo infinito
espera ainda em outra água se completar.

Mia Couto

Publicado em: on Julho 3, 2009 at 4:00 pm Comments Off

Interesses religiosos

“Os grupos “evangélicos” de hoje, ao contrário, não se preocupam com o destino da alma depois da morte. As pessoas não são convertidas para serem “salvas”. Elas se convertem para viver melhor esta vida. O que interessa é a vida antes da morte, neste mundo. O que se busca é a “benção”. Deus é o poder mágico que, se corretamente manipulado, conserta os estragos que o Diabo faz na vida de cada um.”

Rubem Alves em Religião e Repressão

Publicado em: on at 12:00 pm Comments Off

Ontem e hoje

…imaginei ter mais amigos
do que realmente tenho.
Hoje meus amigos são os livros.
Só assim posso ter emoções,
sensações e sentimentos
que estavam esquecidos dentro de mim.

Fabiana Zuniga

Publicado em: on Junho 30, 2009 at 12:00 pm Comments Off

Idades e ideias.

“Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias. Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem ideias. Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias. Aos 60 ainda temos ideias mas esquecemos de que estávamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormimos.”

Mia Couto em Venenos de Deus, remédios do Diabo

Publicado em: on Junho 29, 2009 at 2:00 pm Comments Off

Língua anterior

Laion“-Me receite um remédio para eu desmaiar.
O português ri-se. Também a ele lhe apetecia uma intermitente lucidez, uma pausa na obrigação de existir.

Riem-se. Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso.”

Mia Couto
em Venenos de Deus, remédios do Diabo

Publicado em: on Junho 28, 2009 at 12:00 pm Comments Off

Viagem

Ver o sofrimento de perto, tocar na ferida que não dói na nossa carne, mas que de alguma maneira pode nos humanizar. Andar na direção do outro é também fazer uma viagem. Mas não leve muita coisa. Não tenha medo das ausências que sentirá. Ao adentrar o território alheio, quem sabe assim os seus olhos se abram para enxergar de um jeito novo o território que é seu. Não leve os seus pesos. Eles não lhe permitirão encontrar o outro. Viaje leve, leve, bem leve. Mas se leve.

Fábio de Melo
fonte: PavaBlog

Publicado em: on at 10:00 am Comments Off

Ficar vivo não é viver

“-Cure-me de sonhar, Doutor.
 - Sonhar é uma cura.
 - Um sonhadeiro anda por aí, por lonjuras e aventuras, sei lá fazendo o quê e com quem…Não haverá um remédio que me anule o sonho?
O médico ri-se, sacudindo a cabeça. Retira da sacola o estetoscópio, mas o doente, mal pressente a intenção, ergue-se, esquivo. Sidónio deixa escapar o aparelho que tomba entre chaves de fenda, alicates e apetrechos do ex-mecânico. Bartolomeu espreita de lado, com desconfiança de bicho:
 - Todos elogiam o sonho, que é o compensar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa viver para descansar dos sonhos.
 - Sonhar só o faz ficar mais vivo.
 - Para quê? Estou cansado de ficar vivo. Ficar vivo não é viver, Doutor.”

Mia Couto em Venenos de Deus, remédios do Diabo

Publicado em: on Junho 26, 2009 at 4:00 pm Comments Off

Se o amor me acompanhou

“Penso com alegria que tudo que vivi e escrevi serviu para nos aproximar. E o primeiro dever do humanista e a fundamental tarefa da intelîgência consiste em assegurar o entendimento entre todos os homens. Valeu a pena ter vivido se o amor me acompanhou.”

Pablo Neruda em Pelas Praias do Mundo

Publicado em: on at 12:00 pm Comments Off

Ser feliz

LaionSer feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

Fernando Pessoa

Publicado em: on Junho 24, 2009 at 12:00 pm Comments Off

Quero voltar ao início de tudo

“São pobres, mas enriquecem muita gente; de tudo carecem, mas em tudo abundam. São desonrados, e nas desonras são glorificados; injuriados, são também justificados. Insultados, bendizem; ultrajados, prestam as devidas honras.”

trecho da Carta a Diogneto,
testemunho sobre os cristãos escrito cerca de 120 d.C. [via Pavazine Ano 3 - N.º 106]

Publicado em: on Junho 23, 2009 at 12:00 pm Comments Off

O rio

Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.

Um rio nasceu.

Vinícius de Moraes

Publicado em: on Junho 20, 2009 at 3:02 pm Comments Off

Sobre o inimigo

Ricardo Gondim

Caramba, como se fala no diabo! Fico impressionado como ele se tornou necessário. O diabo suga a fé, derruba crente, se infiltra em poderosas redes de televisão, envia pragas, fura pneu de carro, provoca terremotos, conhece os limites dos municípios e domina territórios. Compete e ganha de Deus. É diabo para cá e para lá o tempo todo.

Se alguém está triste, advinha quem mandou a tristeza. Se alguém duvida, advinha quem mandou a dúvida. Se alguém adoece, advinha quem mandou a enfermidade. Arre! Chega! Será que ninguém vai assumir o que faz? Fica fácil culpá-lo já que o mundo inteiro está controlado, guiado, dominado, manipulado e organizado por Satã. Mas o Bicho merece o estatus de espantalho, Judas, bode expiatório? Até quando os humanos vão projetar nele suas mazelas?

Dá para compreender tanta importância. Como se levantaria dinheiro nas igrejas se o Capeta não fosse a estrela do show da fé? Como televangelistas inculcariam pavor nas pessoas se o Coisa-Ruim não fosse tão medonho? Como as poderosas multinacionais da fé subsidiariam seus projetos se o Demo não adquirisse tanta força? Confesso. Tenho medo de uma religião em que o mal se torna o pivô da espiritualidade. Fico apreensivo com uma fé que não pode prescindir de ameaças e arredio com uma ética constrangida pela possibilidade de Satanás ter direitos legais para arrasar as pessoas que erram.

Não discuto a sua existência. Fico apenas suspeitoso com tanta badalação. Eu já não gostava dele, agora não aguento mais ouvir falar na Peste. Por mim, Belzebu não receberia nenhum jabá. Eu não permito que ele dê o tom do meu culto a Deus; não aceito que seja a minha motivação para agir. Enfim, não deixo que ele tome o lugar de Jesus.

Soli Deo Gloria

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em: on Junho 18, 2009 at 4:00 pm Comments Off

Terra de Santa Cruz

“Fantástica terra.”

Pablo Neruda, em visita ao Brasil.

Publicado em: on at 12:00 pm Comments Off

Maturidade e dependência.

“Para um neném, a dependência é tudo; alguma outra pessoa tem de atender suas próprias necessidades ou a criança irá morrer. Os pais passam a noite toda acordados, limpam o vômito, ensinam a usar o vaso sanitário e realizam outras atividades rotineiras, tudo devido ao amor, pois percebem a dependência da criança. Mas tal padrão de procedimento não pode continuar indefinidamente. Uma águia sacode o ninho para obrigar seus filhotes a voar; uma mãe cobre o seio para desmamar o filho.
Nenhum pai sadio deseja que um filho seja permanentemente dependente. E, de igual forma, um pai não fica levando a filha num carrinho de neném, de um lado para o outro, a vida inteira, mas ensina-a a andar, sabendo que um dia ela poderá ir embora. Os bons pais encaminham seus filhos da dependência rumo à liberdade.
Os amantes, entretanto, revertem este modelo. Um amante possui liberdade, e no entanto escolhe abrir mão dela. “Sujeitando-vos uns aos outros”, diz a Bíblia, e qualquer casal pode lhe dizer que essa é uma descrição apropriada do processo de viver dia a dia em harmonia. Num casamento saudável, um dos cônjuges se submete voluntariamente aos desejos do outro, por amor. Num casamento problemático, a submissão se torna parte de uma luta pelo poder, um cabo-de-guerra entre egos em competição. A diferença entre esses dois relacionamentos mostra, creio eu, o que Deus procura em sua longa história com a raça humana. Ele não deseja o amor dependente, desamparado, de uma criança que não tem escolha alguma, mas o amor amadurecido, espontaneamente dado, de um amante.
Deus nunca obteve esse amor amadurecido por parte da nação de Israel. O registro bíblico mostra Deus estimulando a jovem nação em direção à maturidade: no dia em que Israel marchou entrando na Terra Prometida, cessou o maná. Deus providenciaria uma nova terra; agora era responsabilidade dos israelitas cultivarem seu próprio alimento. Numa reação tipicamente infantil, Israel imediatamente começou a adorar os deuses da fertilidade. Deus desejava uma amante; em vez disso, obteve uma criança raquítica.”

Philip Yancey em Decepcionado com Deus

Publicado em: on Junho 17, 2009 at 12:00 pm Comments Off

Inquietações

QUE É O HOMEM, para que tanto o estimes,
e ponhas nele o teu cuidado,
e cada manhã o visites,
e cada momento o ponhas à prova?
Até quando não apartarás de mim a tua vista?
Até quando não me darás tempo de engolir
a minha saliva?

Jó 7.17-19

Publicado em: on Junho 16, 2009 at 10:26 pm Comments Off

Não, não quero partir.

“Dizem os poemas sagrados que o Criador, depois de terminada a sua obra, parou e, com os olhos extasiados, disse:
“Que lindo…”
É por isso que, às vezes, eu sinto uma terrível tristeza, uma vontade de não partir. Queria ser como a Fênix, ressurgir sempre das cinzas. Que não me consolem com promessas de imortalidade da alma. Sou um ser deste mundo. Meu corpo precisa dos cheiros, das cores, dos gostos, dos sons, das carícias…Poderia, por acaso, haver um caqui espiritual, ou um mar que não fosse água? Lembro-me da Cecília Meireles: “Pergunto se este mundo existe, e se, depois que se navega, a algum lugar enfim se chega…O que será, talvez, mais triste. Nem barca, nem gaivota: somente sobre-humanas campanhias…” Não, não quero partir.”

Rubem Alves em Tempus Fugit

Publicado em: on Junho 14, 2009 at 4:00 pm Comments Off

A coisa que mais quero

Amor é a coisa mais alegre.
Amor é a coisa mais triste.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre.
Amor é a coisa mais triste.
Amor é a coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra-sabão.
Alegre ou triste,
amor é a coisa que mais quero.

Adélia Prado

Publicado em: on at 1:23 pm Comments Off

Beleza do momento

“Passagem de ano é o velho relógio que toca o seu carrilhão.
O sol e as estrelas entoam a melodia eterna:
“Tempus fugit”.
É porque temos medo da verdade que só aparece no silêncio solitário da noite, reunimo-nos para espantar o terror, e abafamos o ruído tranquilo do pêndulo com enormes gritarias. Contra a música suave da nossa verdade, o barulho dos rojões…
Pela manhã, seremos, de novo, o tolo Coelho da Alice:
“Estou atrasado, estou atrasado…”
Mas o relógio não desiste. Continuará a nos chamar à sabedoria:
Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será…”

Rubem Alves em Tempus Fugit

Publicado em: on Junho 13, 2009 at 10:00 pm Comments Off

Sujeição e amor.

“Deus se segura; se esconde; chora. Por quê? Porque deseja o que o poder jamais consegue conquistar. Ele é um rei que não deseja a sujeição, mas o amor. Em vez de esmagar Jerusalém, Roma e todas as outras potências mundiais, ele optou pelo caminho lento e difícil da Encarnação, amor e morte.”

Philip Yancey em Decepcionado com Deus

Publicado em: on at 4:00 pm Comments Off

Amar a justiça

“Em vez de esmigalhar o poder do mal com a força divina; em vez de impor a justiça e destruir os ímpios; em vez de pacificar a Terra mediante o governo de um príncipe perfeito; em vez de reunir as crianças de Jerusalém sob suas asas, quer elas quisessem ou não, e de salvá-las dos horrores que angustiavam sua alma profética, ele deixou que o mal agisse à vontade enquanto existisse; Ele se satisfez com as formas lentas e desencorajadoras de ajudar apenas no essencial; tornando bons os homens; expulsando, e não simplesmente controlando Satanás…Amar a justiça é fazê-la crescer, não é vingá-la.”

George MacDonald
em Life Essential: The Hope of the Gospel

Publicado em: on at 12:00 pm Comments Off

Pérolas (15)

“A vida é como uma caixa de bombons.
Você nunca sabe o que vai encontrar dentro.”

trecho de Forrest Gump , filme dirigido por Robert Zemeckis

Publicado em: on Junho 12, 2009 at 12:00 pm Comments Off

Aliás, qual o sentido da vida?

“Aliás, qual o sentido da vida? Acertar com um roteiro previamente escrito? Procurar a Verdade? Aquela verdade definitiva que explica o porquê da flor no topo da montanha ou do vulcão submarino que alimenta as bactérias com o enxofre que a terra cospe?

Esgarçamos como punho de camisa. Não passamos de um sono furtivo; o sono dos cansados, que não percebem as longas horas da noite. Somos o conto ligeiro que a mãe lê para os filhos agitados.”

trecho do texto o que são cinco décadas? de Ricardo Gondim

Publicado em: on Junho 11, 2009 at 6:21 pm Comments Off

Alegria

A tristeza se desfaz
Como a neve em maio,
Como se algo tão gelado assim não existisse.

The Flower,
por George Herbert

Publicado em: on Junho 10, 2009 at 4:00 pm Comments Off

Incapaz de apagar

“‘De que outra maneira procederia eu?’ Ou, em outras palavras, ‘Que mais posso fazer?’ A pungente pergunta de Deus a Jeremias ressalta o dilema de um Deus onipotente que deu espaço à liberdade. As andorinhas nos céus conhecem as estações, a maré chega na hora certa, a neve sempre cobre as montanhas elevadas, mas os seres humanos não se parecem a qualquer outra coisa na natureza. Deus não pode controlá-los. Por outro lado, ele é incapaz de simplesmente deixá-los de lado. Ele é incapaz de apagar a humanidade de seu pensamento.”

Philip Yancey em Decepcionado com Deus

Publicado em: on at 12:00 pm Comments Off

O homem que não brinca

“Em minha casa coleciono brinquedos pequenos e grandes, sem os quais não poderia viver. O menino que não brinca não é menino, mas o homem que não brinca perdeu para sempre o menino que vivia nele e que lhe fará muita falta. Por isso também edifiquei minha casa como um brinquedo e brinco nela de manhã à noite.”

Pablo Neruda em Pelas Praias do Mundo

Publicado em: on Junho 9, 2009 at 12:00 pm Comments Off

A vida

Ricardo Gondim

A vida é emoção. Apaixonados, lutamos contra os dias que escorrem como água entre os dedos. Imprecisa, não-evidente, enviesada, carente de construção, a vida espera ser talhada por artesãos. No caldo da angústia universal, confia que alquimistas transformarão atrevimento em circunspeção. Quer converter Valquírias em Marias, bárbaros em samaritanos.

A vida é mistério. De onde vem o sentimento de beleza? Por que entesouramos os instantes delicados do passado? Por que a morte desfigura e esfumaça os olhos? Para onde se expande a margem extrema do universo? Que mecanismo impede a mente de ressentir dores? Por que nos vemos como outra pessoa nos sonhos, mas sempre sendo nós?

Infelizmente começamos com afirmações e esquecemos as perguntas. Não transformamos os pontos de interrogação em lupas. Presunçosos, não carregamos o pente fino da dúvida no bolso do colete. Cegos, temos medo das aporias. Desistimos dos porquês infantis e ficamos com as certezas que nos entorpecem.

A vida é triste. Agonizamos com a lama burocrática que encobre o vilarejo pobre. Impotentes, tentamos resistir o mal sistêmico que prescinde das pessoas. Não entendemos como as elites conseguiram inventara o motor-contínuo para energizar a máquina da injustiça. Perdidos, procuramos fazer com que bondade e misericórdia não desapareçam do vocabulário religioso. Abatidos, vemos a sordidez sentar na cadeira da polidez. A implacabilidade ganhar da bondade. A ambigüidade moral amordaçar a solidariedade.

A vida é bela – e sempre desejável, dizia o poeta. O dilúvio não descolore a aquarela que se refrata na neblina. Homens e mulheres continuam a esperar por um novo céu e uma nova terra, onde crianças brincam com serpentes. Percebemos o divino no bailar da folha enamorada do vento. Celebramos a formosura de viver no ancião que planta uma árvore, na mãe que ensina a filha surda a falar com as mãos, no menino que, na capoeira, faz da luta uma dança.

A vida é trágica. Subimos no palco sem roteiro. Não passamos de atores sem texto para decorar. Personagens que atuam sem noção do instante que as cortinas descerão. Contracenamos com gente que acabamos de encontrar. Vez por outra escutamos apupos e procuramos as máscaras sorridentes, que disfarçam os constrangimentos. Sem coxia, não temos para onde correr. Assumimos diferentes papeis mesmo sabendo que a tragédia é inevitável. Sofremos. Quando nos acostumamos com os holofotes, o diretor grita: acabou o espetáculo.

Soli Deo Gloria

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em: on Junho 7, 2009 at 12:00 pm Comments Off

Sinais

“Alguns cristãos anseiam por um mundo bem abastecido de milagres e sinais espetaculares da presença de Deus. Ouço sermões pungentes sobre a divisão das águas do Mar Vermelho, as dez pragas e sobre o maná diário no deserto, como se os pregadores ansiassem que Deus liberasse seu poder daquele modo nos dias de hoje. Mas a viagem dos israelitas, em que estes tinham um roteiro preestabelecido, deve nos levar a fazer uma pausa. Será que uma erupção de milagres sustentaria a fé? Provavelmente não; pelo menos, não sustentaria o tipo de fé em que Deus parece estar interessado. Os israelitas são uma grande demonstração de que os sinais só conseguem nos tornar viciados em sinais, não em Deus.”

Philip Yancey em Decepcionado com Deus

Publicado em: on Junho 6, 2009 at 9:09 pm Comments Off

Curiosidade diurna e noturna

“O homem não quer isolar-se. A solidão contraria a natureza. O ser humano tem curiosidade diurna e noturna pelo ser humano. Os animais apenas se olham ou se percebem. Só os cães, os homens e as formigas demonstram irresistível curiosidade pela própria espécie, e se olham, se tocam, se cheiram.”

Pablo Neruda em Pelas Praias do Mundo

Publicado em: on Junho 4, 2009 at 4:00 pm Comments Off

Contingência e o vôo 447

Ricardo Gondim

O mundo está em choque. De novo a contingência mostra sua cara na tragédia do vôo da Air France. Vale lembrar: contingência significa que os acontecimentos não são sempre necessários. Quando ocorre alguma coisa sem uma razão que a explique ou justifique. Contingência gera imprevisto; fatos que escapam à engrenagem da causa e do efeito. Um avião cai porque o mundo é contingente, não porque tenha sido vítima do destino ou de um plano de Deus.

Diz-se no senso comum que as pessoas só morrem quando chega a hora. Caso isso fosse verdadeiro, o destino reuniu em uma aeronave as pessoas que deveriam morrer naquele dia. Isso daria à fatalidade um poder apavorante. Impossível pensar que gente de mais de trinta países entrou no vôo 447 sem saber que obedecia a uma força cega, que determinava aquele como o último dia de suas vidas.

Igualmente, acreditar que Deus permite a queda do avião porque tem algum propósito, soa esquisito. Cada pessoa, com histórias, projetos, sonhos, foram arrancadas da existência para que se cumprisse qual objetivo? Um objetivo macro? Isto é, para que a humanidade aprendesse ou se arrependesse? Isso faria com que as biografias fossem descartáveis, desprezíveis. O Divino Oleiro, sem precisar se explicar, afogaria tanta gente para conduzir a macro história para o fim glorioso? Sim? Mesmo que exista esse deus, eu não o quero.

Também, algumas pessoas aceitam que Deus tem um plano para cada morte individual. Verdade, ele é Deus, tem todo o poder e é capaz de reunir, em um só lugar, quem deveria morrer. Mas também é bom. Então todos os passageiros foram eleitos para cumprir qual bem? Satisfaz pensar que o bem de ceifar tantas vidas, mesmo sem nenhum sentido do lado de cá, na eternidade está garantido? (Deus sabe o que faz?!?!) Como explicar tal conceito para pais, filhos e parentes desolados? Todos acorrentados à trágica realidade que lhes roubou de seus queridos.

A idéia de que Deus tem um plano para cada morte se esvazia diante dos números. Um avião caiu, mas o que dizer dos incontáveis acidentes de todos os dias? O que dizer das balas perdidas que aleijam transeuntes? E dos erros médicos ou dos acidentes de trânsito? Recentemente uma senhora de nossa comunidade caiu da laje da casa em construção. Ela fotografava a obra para que a filha ajudasse com as despesas do acabamento. Quebrou a coluna e ficou paraplégica. A última explicação que se poderia dar é que Deus tinha um plano em deixá-la aleijada.

Jesus nunca cogitou o mundo sem contingência. Pelo contrário, não atrelou a queda de uma torre aos desígnios divinos; não disse que a cegueira do homem era consequência causal das ações interiores, dele ou de seus pais; advertiu que os seus discípulos enfrentariam tempestade, aflição e morte.

Contingência é o espaço da liberdade, portanto, da condição humana. Sem contingência nos desumanizaríamos. A consciência do risco de adoecer e da imprevisibilidade da morte súbita é o preço que pagamos por nossa humanidade.

O desastre do avião mostra a inutilidade de pensar que o exercício correto da religião e a capacidade tecnológica mais excelente sejam suficientes para anular a contingência. Nossa vida é imprecisa e efêmera. Portanto, vivamos intensamente. Cada instante pode ser o último – Carpe Diem!

Soli Deo Gloria

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em: on at 12:00 pm Comments Off

Pequena folha

Casa_do_Marcelo_-_Natal_2008Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

Publicado em: on Junho 3, 2009 at 4:00 pm Comments Off

Sentido

Não sei se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
Se não tocarmos o coração das pessoas.

Cora Coralina

Publicado em: on at 12:00 pm Comments Off

Chuva.

“Chuva, amiga dos sonhadores e dos desesperados, companheira dos inativos e dos sedentários, agita, esfarela tuas borboletas de vidro sobre os metais da terra, corre pelas antenas e as torres, estatela-te contra as casas e os telhados, desmantela o desejo de agir e ajuda a solidão diante ou atrás das janelas, a solidão que solicita tua presença.”

Pablo Neruda em Pelas Praias do Mundo

Publicado em: on Junho 2, 2009 at 12:00 pm Comments Off

A vida de um homem

“Comecei a viver em tantos lugares e em tantas horas diferentes de nossa época que não sei por onde começar: pelo grande ou pelo pequeno, pelo dentro ou pelo fora, pelo casaco ou pelo coração. Tudo se funde dentro da gente, fora de gente, as vidas e os nascimentos, formando um círculo de folhas, de lágrimas, de fogo, de conhecimentos, de lembranças: e a vida de um homem é como a existência de um dia.”

Pablo Neruda em Pelas Praias do Mundo

Publicado em: on Maio 31, 2009 at 12:57 pm Comments Off

Teologia é uma brincadeira

Hoje faria tudo diferente.
Começaria por informar meus leitores de que teologia é uma brincadeira, parecida com o jogo encantado das contas de vidro que Hermann Hesse descreveu, algo que se faz por puro prazer, sabendo que Deus está muito além de nossas tramas verbais.
Teologia não é rede que se teça para apanhar Deus em suas malhas, porque Deus não é peixe, mas Vento que não se pode segurar…
Teologia é rede que tecemos para nós mesmos, para nela deitar nosso corpo.
Ela não vale pela verdade que possa dizer sobre Deus (seria necessário que fôssemos deuses para verificar tal verdade); ela vale pelo bem que faz à nossa carne.

Rubem Alves

Publicado em: on Maio 26, 2009 at 12:00 pm Comments Off

Pérolas (14)

“Será que todos sempre são amados simplesmente pelo que são?”

trecho de Elizabeth – A Era de Ouro, filme dirigido por Shekhar Kapur

Publicado em: on Maio 25, 2009 at 8:00 pm Comments Off

Sobre Deus

Rubem Alves

Alguém disse que gosta das coisas que escrevo, mas não gosta do que penso sobre Deus. Não se aflijam. Nossos pensamentos sobre Deus não fazem a menor diferença. Nós nos afligimos com o que os outros pensam sobre nós. Pois que lhes digo que Deus não dá a mínima. Ele é como uma fonte de água cristalina. Através dos séculos os homens tem sujado essa fonte com seus malcheirosos excrementos intelectuais.

Disseram que ele tem prazer em ver o sofrimento dos homens, tanto assim que os homens, com medo, fazem as mais absurdas promessas de sofrimento e autoflagelação para obter o seu favor. Disseram que ele se compraz em ouvir repetições sem fim de rezas, como se ele tivesse memória fraca e a reza precisasse ser repetida constantemente para que ele não se esqueça. Em nome de Deus os que se julgavam possuidores das idéias certas fizeram morrer nas fogueiras milhares de pessoas.

Mas a fonte de água cristalina ignora as indignidades que os homens lhe fizeram. Continua a jorrar água cristalina, indiferente àquilo que os homens pensam dela. Você conhece a estória do galo que cantava para fazer nascer o sol? Pois havia um galo que julgava que o sol nascia porque ele cantava. Toda madrugada batia as asas e proclamava para todas as aves do galinheiro: “Vou cantar para fazer o sol nascer”. Ato contínuo subia no poleiro, cantava e ficava esperando. Aí o sol nascia. E ele então, orgulhos, disse: “Eu não disse?”. Aconteceu, entretanto, que num belo dia o galo dormiu demais, perdeu a hora. E quando ele acordou com as risadas das aves, o sol estava brilhando no céu. Foi então que ele aprendeu que o sol nascia de qualquer forma, quer ele cantasse, que não cantasse. A partir desse dia ele começou a dormir em paz, livre da terrível responsabilidade de fazer o sol nascer.

Pois é assim com Deus. Pelo menos é assim que Jesus o descreve. Deus faz o sol nascer sobre maus e bons, e a sua chuva descer sobre justos e injustos. Assim não fiquem aflitos com minhas idéias. Se eu canto não é para fazer nascer o sol. É porque sei que o sol vai nascer independentemente do meu canto. E nem se preocupem com suas idéias . Nossas idéias sobre Deus não fazem a mínima diferença para Ele. Fazem, sim, diferença para nós. Pessoas que tem idéias terríveis sobre Deus não conseguem dormir direito, são mais suscetíveis de ter infartos e são intolerantes. Pessoas que têm idéias mansas sobre Deus dormem melhor, o coração bate tranqüilo e são tolerantes.

Fui ver o mar. Gosto do mar quando a praia está vazia da perturbação humana, Nas tardes, de manhã cedo. A areia lisa, as ondas que quebram sem parar, a espuma, o horizonte sem fim. Que grande mistério é o mar! Que cenários fantásticos estão no seu fundo, longe dos olhos! Para sempre incognoscível! Pense no mar como uma metáfora de Deus. Se tiver dificuldades leia a Cecília Meirales, Mar Absoluto. Faz tempo que, para pensar sobre Deus, eu não leio teólogos; leio os poetas. Pense em Deus como um oceano de vida e bondade que nos cerca. Romain Rolland descrevia seu sentimento religioso como um “sentimento religioso”. Mas o mar, cheio de vida, é incontrolável. Algumas pessoas têm a ilusão que é possível engarrafar Deus. Quem tem Deus engarrafado tem o poder. Como na estória de Aladim e a lâmpada mágica. Nesse Deus eu não acredito. Não tenho respeito por um Deus que se deixa engarrafar. Prefiro o mistério do mar… Algumas pessoas não gostam do que penso sobre Deus porque elas deixam de acreditar que suas garrafas religiosas contenham Deus…

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Clichês e frases feitas

Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência. Se respondêssemos todo o tempo a esta exigência, logo estaríamos exaustos.

Hannah Arendt

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Jesus existiu mesmo?

Seria um milagre ainda mais incrível que apenas em uma geração uns tantos homens simples e rudes (pescadores muitos deles) inventassem uma personalidade tão poderosa e atraente como a de Jesus, uma moral tão elevada e uma tão inspiradora ideia da fraternidade humana. Depois de dois séculos de Alta Crítica as linha gerais da vida, do caráter e dos ensinamentos de Cristo permanecem razoavelmente claras e constituem o acontecimento mais fascinante da história do homem ocidental.

Will Durant

fonte: Ricardo Gondim

Publicado em: on Maio 24, 2009 at 8:00 pm Comments Off

Pérolas (13)

“Amor. De onde vem? Quem acende essa chama em nós?”

trecho de Além da Linha Vermelha, filme dirigido por Terrence Malick

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A Volta do Filho Pródigo


A volta do filho pródigo de Rembrandt

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Ayer Te Vi

Ayer Te Vi por Jesus Adrian Romero

Publicado em: on Maio 23, 2009 at 8:00 pm Comments Off

Determinação

Ricardo Gondim

Há momentos em que nada faz sentido. Os acessos ficam comprometidos, as frestas entupidas, as janelas cerradas. Decepção substitui confiança, tristeza apaga o ímpeto e abatimento contamina a gesta heróica. O calor da peleja traiçoeiramente solapa a energia fundamental de viver. As pedras de arranque cedem sob os pés e se esgota o entusiasmo. As balizas do sentido caem. Os diques das emoções se rompem.

Há momentos em que o silêncio absoluto e impenetrável da covardia abafa a coragem. O império da culpa confisca a confiança. O pavor do inesperado transforma a alma em masmorra e os sonhos definham em um imobilismo soturno. A poesia versifica o tédio e procura rima para fatiga. O espírito entra no compasso do soluço.

Há momentos em que determinação vira sinônimo de teimosia. As escolhas acontecem, empurradas, forçadas. A vida é tangida sem ânimo. Opta-se por constrangimento. Vai-se adiante, simplesmente. O horário cumprido, a tarefa realizada, e só. No tabuleiro, o peão cumpre as regas; no palco, a marionete dança com os dedos do títere; na vida, as pessoas decoram roteiros.

Há momentos em que não se pode retroceder. O próximo, o próximo, o próximo, dita a voz soturna que ordena a fila que desce a vertiginosa ladeira existencial. Assim, resilientes e determinados, os humanos caminham. De dever em dever, chegarão ao último e inusitado compromisso, a morte.

Soli Deo Gloria

fonte: Ricardo Gondim

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A responsabilidade humana

“O infinito (Deus) despiu-se inteiramente de sua onipotência no finito. Ao criar o mundo, Deus, por assim dizer, lhe confiou a sua própria sorte, tornou-se impotente. E depois de ter-se dado totalmente no mundo, nada mais tem a oferecer-nos: cabe agora ao homem dar.

O homem pode fazê-lo cuidando para que não aconteça, ou não aconteça com demasiada frequência que, por causa do homem, Deus deva lamentar o fato de ter permitido que o mundo exista.”

Hans Jonas, filósofo aluno de Heidegger,
citado por Giorgio Agamben em O que Resta de Auschwitz

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